Olá, leitores do TecMundo! É com enorme entusiasmo que inauguro hoje minha coluna neste espaço que é referência em tecnologia no Brasil. Meu nome é Felipe Matos, e minha missão aqui será traduzir as grandes transformações tecnológicas em reflexões práticas sobre como elas afetam — ou logo afetarão — o seu dia a dia. E para começar, escolhi um tema que vai mexer diretamente no seu bolso. Literalmente.
Imagine a seguinte cena: você abre o ChatGPT e diz “preciso de uma sugestão de presente para minha mãe, ela faz 60 anos”. A IA apresenta opções, você conversa, refina as escolhas, decide por um colar artesanal. Então você diz: “Compra esse, paga com meu cartão e manda entregar no endereço dela”. E pronto. Sem abrir outra aba, sem digitar dados, sem conferir carrinho. A IA fez tudo. Parece ficção científica? Pois já é realidade — e em 2026, vai se tornar comum.
A revolução silenciosa do “comércio agêntico”
Nas últimas semanas, as maiores empresas de tecnologia do mundo lançaram protocolos que transformam assistentes de IA em verdadeiros agentes comerciais. Não estamos mais falando de chatbots que respondem perguntas. Estamos falando de sistemas que executam ações reais: pesquisam produtos, comparam preços, escolhem opções, realizam pagamentos e finalizam compras.
Em outubro do ano passado, a OpenAI e o PayPal anunciaram uma parceria. O resultado é o “Agentic Commerce Protocol” (ACP), um padrão aberto que permite que o ChatGPT atue como um “personal shopper digital”. Usuários nos Estados Unidos já podem comprar de vendedores do Etsy diretamente no chat, e em breve mais de um milhão de lojas do Shopify estarão integradas.
Não ficando para trás, o Google respondeu agora em janeiro de 2026 com o “Universal Commerce Protocol” (UCP), apresentado por seu CEO Sundar Pichai na conferência da National Retail Federation em Nova York. O protocolo permite compras diretas pelo Gemini e pelo modo IA do Google Search, com pagamento via Google Pay e Google Wallet. A lista de parceiros impressiona: Walmart, Target, Best Buy, The Home Depot, Visa, Mastercard, American Express, Stripe e Adyen.
Os números que mostram que isso é sério
Se você acha que é exagero, considere estes dados:
- 700 milhões de pessoas usam o ChatGPT semanalmente, muitas já para buscar produtos;
- 47% dos consumidores americanos já usam ferramentas de IA para pelo menos uma tarefa de compras, segundo pesquisa da Visa;
- A Morgan Stanley prevê que quase metade dos compradores online usará agentes de IA até 2030, representando cerca de 25% de seus gastos;
- A Visa projeta que milhões de consumidores usarão agentes de IA para completar compras já na temporada de festas de 2026.
E foi ainda mais enfática: declarou que “2025 será o último ano em que os consumidores compram e finalizam pedidos sozinhos”. Leia de novo. O último ano.

Mas espera: você deixaria seu dinheiro na mão de uma IA?
Aqui é onde precisamos parar e refletir. Porque a conveniência é sedutora, mas os riscos também são bem reais.
Pense bem: você está delegando a um algoritmo a capacidade de acessar e gastar seu dinheiro. O que acontece quando a IA erra? E ela vai errar.
Imagine que você pediu uma bicicleta vermelha e chegou uma azul. Ou que a IA reservou um hotel para a data errada. Tradicionalmente, disputas de compra envolvem quatro partes: consumidor, banco emissor, banco adquirente e lojista. Agora, existe um quinto elemento na equação: a plataforma de IA.
Quem é responsável quando o agente digital falha? Essa pergunta ainda não tem resposta clara.
E há questões ainda mais graves. Comerciantes já lidam com volumes massivos de tráfego automatizado, boa parte malicioso. Como distinguir um agente de IA legítimo, agindo em seu nome, de um bot criminoso tentando fraudar o sistema?
A corrida para criar segurança
As empresas sabem que sem confiança, não há adoção em massa. Por isso, estão correndo para criar camadas de proteção.
No final de 2025, a Visa lançou o “Trusted Agent Protocol”, um framework aberto desenvolvido com mais de 10 parceiros. O objetivo é ajudar lojistas a distinguir agentes de IA legítimos de bots maliciosos. A tecnologia usa “tokens agênticos” — autenticação criptográfica que verifica se o agente digital está realmente autorizado pelo usuário.
A Mastercard também entrou na corrida, defendendo que até 2026 as marcas líderes precisarão padronizar: fluxos transparentes de consentimento, permissões granulares do usuário, logs de ações dos agentes, autorizações seguras de pagamento e mecanismos de correção para quando algo der errado.
O futuro chegou. E agora?
A verdade é que o comércio agêntico não é uma possibilidade distante — está acontecendo agora. Em 2026, veremos uma batalha feroz entre OpenAI, Google, grandesplayer financeiros e outras big techs para determinar qual assistente de IA será a interface padrão para compras online.
Minha recomendação? Fique atento. Entenda como essas tecnologias funcionam antes de habilitá-las. Pergunte-se: quais permissões estou concedendo? Quais limites posso estabelecer? E, principalmente: você deixaria seu dinheiro na mão de uma IA?
A resposta pode ser sim — mas precisa ser uma decisão consciente, não uma conveniência irrefletida.
Nos vemos na próxima coluna.
