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Hubble perde 3 horas de trabalho por dia – e a “culpa” é do Brasil

by Fesouza
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Você sabia que o telescópio espacial mais famoso da humanidade tem um “ponto cego”? E, geograficamente, esse ponto cego fica bem em cima da sua cabeça.

Todos os dias, o Hubble precisa interromper suas observações científicas por cerca de 3 horas diárias (somando os intervalos). O motivo não é defeito técnico, mas sim uma peculiaridade geofísica: a Anomalia do Atlântico Sul (AAS), uma falha no campo magnético da Terra cujo centro está posicionado sobre o Brasil.

O apagão diário

O Hubble orbita a Terra a uma velocidade impressionante, completando uma volta no planeta a cada 97 minutos (cerca de 15 voltas por dia).

O problema é a rota. Dessas 15 voltas, entre 7 e 9 delas cruzam a região da anomalia sobre a América do Sul. Quando isso acontece, os computadores de bordo do telescópio executam uma ordem automática de segurança: eles desligam a alta voltagem dos sensores e câmeras.

Segundo os manuais de operação da NASA, o telescópio fica “cego” por cerca de 20 a 25 minutos a cada passagem. Colocando na ponta do lápis, isso significa que o Hubble passa cerca de 15% do seu dia ocioso apenas para atravessar o céu brasileiro em segurança.

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Por que ele precisa desligar?

A Anomalia do Atlântico Sul funciona como um “buraco” no escudo magnético da Terra, permitindo que níveis mais altos de radiação e partículas carregadas (prótons de alta energia) desçam para altitudes mais baixas.

Hubble perde 3 horas de trabalho por dia – e a “culpa” é do Brasil
Mapa de intensidade de radiação destaca a Anomalia do Atlântico Sul (a área em vermelho/amarelo), uma região de maior risco para satélites sobre o Brasil. Crédito: NASA Goddard/YouTube

Se o Hubble tentasse tirar uma foto com seus instrumentos ligados nessa região, dois problemas principais aconteceriam:

  • A foto seria inútil: a radiação atingiria os detectores criando um “ruído” extremo (milhares de pontos brancos na imagem), estragando qualquer dado astronômico.
  • Risco de queima: a sobrecarga elétrica poderia fritar componentes sensíveis das câmeras, causando danos permanentes a um equipamento de bilhões de dólares.

Tolerância zero

Para alguns instrumentos específicos, o “medo” do Brasil é ainda maior. O Espectrógrafo de Imagens do Telescópio Espacial (STIS), por exemplo, tem regras ainda mais rígidas: ele não pode ser ligado nem se a órbita apenas “raspar” a borda da anomalia.

Enquanto você lê este texto, é bem provável que o Hubble esteja passando silencioso e desligado sobre nós, esperando chegar ao Oceano Atlântico ou à África para poder abrir os olhos novamente e voltar a trabalhar.

Mas e o James Webb? Diferente do seu antecessor, o telescópio espacial James Webb não sofre com a Anomalia do Atlântico Sul. Isso acontece porque ele não orbita a Terra em baixa altitude como o Hubble. O Webb está posicionado no Ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros de distância, muito longe dos cinturões de radiação de Van Allen e da anomalia que afeta os satélites mais próximos do nosso planeta.

Hubble perde 3 horas de trabalho por dia – e a “culpa” é do Brasil
Concepção artística do telescópio James Webb; orbitando a 1,5 milhão de km da Terra, ele está longe do alcance da anomalia que afeta o Hubble. (Imagem: Vadim Sadovski / Shutterstock)

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