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Por que a Europa acelera planos para se tornar independente da tecnologia dos EUA?

by Fesouza
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Tensões geopolíticas e ameaças de força militar por parte de Donald Trump aceleram os planos da União Europeia para a “soberania tecnológica”. O objetivo? Romper a dependência crítica da infraestrutura digital americana.

O que aconteceu?

  • Ameaças recentes de Trump (incluindo o uso de força na Groenlândia) transformaram debates teóricos sobre independência tecnológica em urgência de segurança nacional na Europa.
  • O temor de uma Ordem Executiva da Casa Branca que corte o acesso europeu a data centers, nuvem e softwares essenciais.
  • Em 2024, 83% do mercado de infraestrutura em nuvem na Europa (cerca de US$ 25 bi) estava nas mãos de cinco empresas americanas.
  • Movimentos políticos liderados por Friedrich Merz (Alemanha) e Emmanuel Macron (França) para favorecer compras públicas locais e criar “campeões europeus” de IA e nuvem.

De Davos para a Sala de Guerra

Em Davos, na Suíça, o clima entre a elite europeia mudou drasticamente no Fórum Econômico Mundial, segundo o jornal The Wall Street Journal. O que antes parecia um debate acadêmico distante (a ideia de a Europa romper com a tecnologia americana) tornou-se subitamente uma questão de sobrevivência.

Mas, o que aconteceu? O gatilho foi a recente escalada retórica do Presidente Trump, que, embora tenha retirado a ameaça de tomar o controle da Groenlândia à força, deixou um rastro de insegurança entre os países aliados.

Por que a Europa acelera planos para se tornar independente da tecnologia dos EUA?
O presidente Donald Trump manifestou interesse em controlar a Groenlândia devido aos seus minerais críticos e posição estratégica no Ártico. (Imagem: Rawpixel.com/muratart/Shutterstock – Montagem: Olhar Digital)

Para as autoridades europeias, a possibilidade de um conflito armado, mesmo que remota, injetou urgência em um temor latente: o “pior cenário”. Este cenário não envolve tanques, mas sim uma Ordem Executiva da Casa Branca que, com uma assinatura, corte o acesso da região a data centers, softwares de e-mail e infraestruturas de nuvem essenciais para o funcionamento de governos e empresas.

Como resumiu Bernard Liautaud, da venture capital Balderton Capital: “Quando você começa a ter esse tipo de pensamento, mesmo que sejam apenas pensamentos, você precisa começar a pensar: como isso funcionaria?”.

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A escala da dependência

A ansiedade europeia é fundamentada em números alarmantes. Embora o continente tenha liderado a revolução móvel com Nokia e Ericsson, a Europa perdeu a corrida da era da internet para os EUA e a China, falhando em produzir gigantes tecnológicos na mesma escala.

A dependência atual é estrutural. Em 2024, clientes europeus gastaram quase US$ 25 bilhões em serviços de infraestrutura das cinco principais empresas de nuvem americanas – incluindo Amazon, Google e Microsoft.

Isso representa impressionantes 83% de todo o mercado europeu. Nicolas Dufourcq, chefe do banco estatal francês Bpifrance, foi categórico em entrevista recente: “Escolher a tecnologia digital americana por padrão é muito fácil e deve acabar.”

O risco de uma ruptura tecnológica foi um dos tópicos mais quentes no Fórum Econômico Mundial. Executivos e legisladores reconhecem que substituir essa infraestrutura seria uma tarefa desafiadora, dada a profundidade da integração de chips, serviços de nuvem e modelos de IA americanos na economia do bloco.

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Google Cloud, Microsoft Azure e AWS (Amazon): juntas, as gigantes americanas controlam 83% do mercado de infraestrutura na Europa, uma dependência que líderes da UE classificam agora como risco de segurança nacional. (Imagem: Tada Images / Shutterstock.com)

A ofensiva política

Diante desse quadro, a resposta política tem sido a “Soberania Tecnológica”. O Parlamento Europeu aprovou recentemente uma resolução que incentiva o uso de critérios de compras públicas para favorecer produtos europeus. O braço executivo da UE já trabalha em novas legislações, tratando abertamente os riscos de segurança da tecnologia dos EUA – uma conversa que seria impensável há apenas seis meses.

A liderança desse movimento é franco-alemã. O chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron têm sido vocais sobre a necessidade de independência. A Alemanha já testa o openDesk, uma alternativa de código aberto às ferramentas da Microsoft, em seus ministérios. Macron, por sua vez, transformou a promoção de empresas locais, como a Mistral AI, e a atração de data centers para a França em pilares de seu mandato.

Durante uma cúpula de soberania digital, Macron sintetizou o sentimento que permeia os corredores do poder em Bruxelas: “Nossa vontade é claramente fazer tudo o que pudermos para construir campeões europeus. Isso é apenas uma recusa em ser vassalo.”

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Arthur Mensch (CEO da Mistral AI), Jensen Huang (CEO da Nvidia), o presidente Emmanuel Macron e Maurice Lévy (Publicis): o líder francês tem usado sua influência para promover empresas locais de IA, como a Mistral, como peças-chave para garantir a soberania tecnológica da Europa frente aos EUA (Imagem: Reprodução)

A resposta do Vale do Silício

As gigantes de tecnologia americanas não estão alheias a essa mudança de ventos. Com exportações de serviços digitais para a Europa superando US$ 360 bilhões em 2024, há muito em jogo. Relembrando o impacto das revelações de Edward Snowden em 2013 e a aprovação do Cloud Act em 2018 – que permitiu aos EUA acessar dados armazenados no exterior –, as Big Techs iniciaram uma manobra de adaptação agressiva.

Para não perderem mercado, empresas como Microsoft, Amazon e Google estão investindo no conceito de “Nuvem Soberana”. A estratégia envolve criar estruturas onde os dados permanecem em solo europeu, operados por cidadãos ou empresas locais, blindados de solicitações legais americanas.

A Microsoft, por exemplo, expandiu um acordo com a Delos Cloud (subsidiária da SAP) na Alemanha para entregar seus serviços sob controle local. A Amazon lançou um serviço similar, gerido exclusivamente por cidadãos da UE. O Google seguiu o mesmo caminho, firmando joint ventures na França para isolar clientes de potenciais interferências externas.

No entanto, para o ex-chefe do Google na Europa, Matt Brittin, a movimentação dos governos não visa um isolamento total, mas sim segurança: “O que eles realmente procuram é um grau de controle, segurança e proteção”. A Europa não quer se fechar para o mundo, mas decidiu que não pode mais deixar a chave de sua economia no bolso de outro país.

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