A CES 2026 deixou uma impressão difícil de ignorar: a computação está mudando de fundamento. Não é sobre um produto chamativo ou uma função inédita. É sobre a sensação de que o setor está sendo reescrito por dentro, do chip ao sistema operacional, do dispositivo à nuvem.
A inteligência artificial, antes tratada como complemento, agora é o ponto de partida. E quando a base muda, tudo ao redor precisa acompanhar.
Esse movimento também aparece nas projeções. De acordo com uma estimativa do IDC, os “AI PCs” vão chegar a 167 milhões de unidades em 2027, o equivalente a 57% dos PCs vendidos no mundo.
O salto de capacidade das NPUs resume bem essa virada. Em 2024, 10 ou 20 TOPS pareciam suficientes para tarefas locais. Em 2026, isso virou piso.
As novas NPUs integradas nos processadores podem ultrapassar 50 TOPS para IA, e algumas plataformas podem chegar a até 180 TOPS quando CPU, GPU e NPU trabalham juntas.
Esse patamar muda o cotidiano dos sistemas. Modelos de linguagem médios e pequenos, também chamados de SLMs, passam a rodar direto no dispositivo, reduzindo a latência, aumentando a privacidade de dados e tornando a IA parte contínua da experiência e não um modo ativado sob demanda. A IA integrada deixa de ser diferencial e passa a ser o novo mínimo arquitetural.
Silício avançado redefine o que cabe dentro de um chip
O desenvolvimento de processos de litografia para fabricação de semicondutores da classe de 2 nm permite um aumento significativo na densidade de transistores por mm², bem como o aumento da eficiência por Watt dos processadores. Isso abre espaço para integrar CPU, GPU, NPU e motores de mídia no mesmo chip, mantendo consumo compatível com ultrafinos.

Esse avanço não é cosmético. Ele viabiliza IA local mais potente, gráficos integrados mais eficientes e pipelines de mídia dedicados, tudo embarcado no silício. Em 2026, o processo de fabricação volta a ser destino, não detalhe.
Computação distribuída entre dispositivo e nuvem se torna padrão
Com dispositivos chegando a até 180 TOPS locais e servidores operando modelos com trilhões de parâmetros, a computação deixa de ser centralizada ou distribuída e passa a ser negociada.
Essa migração para o “híbrido” acompanha uma tendência maior: a Gartner projetou que 75% dos dados gerados por empresas seriam criados e processados fora do data center centralizado ou da nuvem (no edge).

Tarefas sensíveis à latência ou privacidade ficam no dispositivo; cargas pesadas continuam na nuvem. Esse modelo híbrido se consolida em PCs, dispositivos móveis, sistemas automotivos e soluções industriais.
A IA também cruza a fronteira do digital e entra no mundo físico. Modelos treinados em simulação começam a operar em robôs, sensores e máquinas que precisam interpretar e reagir ao ambiente real, um movimento que ganha força justamente porque o hardware local agora aguenta esse tipo de carga.
2026 inaugura uma nova arquitetura de sistemas
As tendências que se consolidam agora não são incrementais, são estruturais. O surgimento e o desenvolvimento das NPUs, bem como o aumento da capacidade de processamento das GPUs integradas, colocam a IA local no fluxo normal de uso.
O avanço no desenvolvimento dos semicondutores aumenta o desempenho por Watt, e as arquiteturas heterogêneas passam a ser a regra, não a exceção. Ao mesmo tempo, o modelo híbrido se estabiliza: o que pede latência, privacidade e contexto roda no dispositivo; o que exige escala continua na nuvem.
A CES 2026 apenas tornou visível um movimento que já estava em curso.
2026 não é o ano em que a IA “chega”. É o ano em que ela se torna infraestrutura: uma camada permanente de computação que orienta decisões de arquitetura, do silício ao sistema operacional, e redefine o que é “padrão” em desempenho, privacidade e experiência.
A partir daqui, quem projetar sistemas (seja no dispositivo, na nuvem ou entre os dois) vai estar, inevitavelmente, construindo sobre essa base.
