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Bactérias “construtoras” podem usar substância tóxica do solo de Marte para produzir tijolos

by Fesouza
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Um artigo recém-publicado na revista PLOS One propõe que um composto tóxico existente no solo de Marte pode ajudar bactérias a produzir materiais semelhantes a tijolos. A ideia é usar esses “tijolos biológicos” para construir habitats no Planeta Vermelho, aproveitando os recursos locais e reduzindo a necessidade de transportar materiais pesados da Terra.

Pesquisadores do Instituto Indiano de Ciência já haviam demonstrado, em 2025, que a bactéria Sporosarcina pasteurii, comum no solo terrestre, pode transformar regolito lunar e marciano em tijolos. A bactéria excreta ureia, que reage com cálcio para formar cristais de carbonato de cálcio. Misturados com goma guar, um adesivo natural do feijão guar, esses cristais unem as partículas do regolito, criando um material sólido semelhante a um tijolo.

Em resumo:

  • Composto tóxico descoberto em Marte pode ajudar bactérias a criar “tijolos marcianos”;
  • Bactéria transforma regolito em tijolos com carbonato cálcio;
  • Tijolos biológicos permitiriam construir habitats usando recursos locais;
  • Perclorato fortalece tijolos via matriz extracelular e micropontes;
  • Próximos testes simularão atmosfera marciana para aprimorar biocimentação.
Bactérias “construtoras” podem usar substância tóxica do solo de Marte para produzir tijolos
Imagem microscópica da bactéria Sporosarcina pasteurii, que poderia ser usada para construir tijolos em Marte. Crédito: Aloke Lab, IISc

O objetivo da pesquisa é descobrir formas de construir estruturas usando apenas recursos locais, o que facilitaria missões espaciais prolongadas. “Não precisamos transportar nada da Terra; podemos usar os recursos disponíveis e construir as estruturas in situ”, afirmou Shubhanshu Shukla, astronauta da Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO) e coautor do estudo, em um comunicado.

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Experimentos usam simuladores do solo de Marte

Como amostras reais de regolito marciano são escassas, os experimentos utilizam simulantes, materiais artificiais projetados para imitar o regolito. Por segurança, esses simulantes normalmente não contêm perclorato, um composto químico tóxico descoberto em Marte em 2008 pela sonda Phoenix, da NASA. Apesar de ser perigoso, o perclorato não é o problema principal nos simulantes, mas sim sua alta inflamabilidade.

No estudo, a equipe adicionou cuidadosamente perclorato a um simulante chamado Mars Global Simulant 1 para observar como ele afetaria a capacidade da Sporosarcina pasteurii de produzir tijolos. A experiência trouxe duas descobertas principais: uma esperada e outra inesperada.

Como previsto, o perclorato causou estresse nas bactérias, retardando seu crescimento e fazendo com que elas se agrupassem. Também aumentou a excreção de proteínas e moléculas, formando uma matriz extracelular (MEC). Essa estrutura, mesmo surgindo em condições de estresse, acabou fortalecendo os tijolos produzidos.

A microscopia eletrônica mostrou que a MEC formava pequenas “micropontes” entre células bacterianas e cristais de cloreto de cálcio, melhorando a resistência do material. “O perclorato, isoladamente, é um fator de estresse para a bactéria, mas nos tijolos, com os ingredientes certos, ele ajuda”, explicou a microbiologista Swati Dubey, da Universidade da Flórida.

Bactérias “construtoras” podem usar substância tóxica do solo de Marte para produzir tijolos
Concepção artística retrata astronautas e habitats humanos em Marte. Crédito: JPL/NASA

“Biocimentação” será testada em atmosfera marciana simulada

A pesquisa sugere que essas micropontes podem facilitar a circulação de nutrientes, ajudando a reparar células danificadas e aumentando a capacidade da bactéria de unir partículas do regolito, em um processo chamado biocimentação. A goma guar e o cloreto de níquel atuam como catalisadores essenciais para que esse efeito ocorra.

O próximo passo da equipe é testar a biocimentação em condições que simulem a atmosfera de Marte, rica em dióxido de carbono. “Marte é um ambiente alienígena. Entender como organismos da Terra se adaptam a ele é uma questão científica crucial”, afirmou Aloke Kumar, coautor do estudo.

Os resultados indicam que compostos tóxicos marcianos, longe de serem apenas um desafio, podem ser aliados na construção de habitats sustentáveis no Planeta Vermelho. A pesquisa abre caminhos para que futuras missões utilizem recursos locais, diminuindo custos e riscos de transporte de materiais da Terra.

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