A liquidação extrajudicial do Will Bank, determinada pelo Banco Central (BC), deixou clientes sem acesso aos valores mantidos na instituição e sem prazo definido para reembolso. O bloqueio atinge principalmente correntistas de renda média e baixa, que utilizavam o saldo para despesas básicas, como alimentação, aluguel e contas de serviços essenciais.
As informações são de reportagem do g1, que integra uma série sobre o Banco Master e seus desdobramentos. Desde novembro, sete instituições ligadas ao grupo de Daniel Vorcaro foram encerradas. Entre elas, o Will Bank é apontado como o caso mais sensível, por concentrar cerca de 12 milhões de clientes, sendo 60% no Nordeste, em sua maioria em cidades pequenas.

Reembolso será dividido em duas frentes
O ressarcimento aos clientes seguirá caminhos diferentes, a depender do tipo de produto financeiro. Investidores em CDBs, LCIs e LCAs contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que assegura até R$ 250 mil por instituição.
Já os clientes que mantinham recursos em contas de pagamento, modalidade oferecida pelo Will Bank, não têm cobertura do FGC. Ainda assim, pela legislação, esses valores ficam separados do patrimônio da instituição e devem ser devolvidos integralmente, sem limite por pessoa.
O início da devolução, no entanto, depende da conclusão da lista oficial de credores pelo liquidante nomeado pelo BC. Esse levantamento ainda não foi finalizado e não há calendário definido.
No dia 13 de fevereiro, o FGC antecipou pagamentos para clientes com até R$ 1 mil a receber, medida que beneficiou cerca de 6 milhões de pessoas. Quem tinha valores superiores ou investiu por meio de corretoras não foi incluído.
Relatos de dificuldades financeiras
O servidor público Felipe Cândido, de 50 anos, relatou ao g1 que depositou cerca de R$ 6 mil no Will Bank em janeiro. Quatro dias depois, o BC decretou a liquidação e bloqueou o saldo. Ele afirma que o valor seria usado para despesas familiares, após a morte da esposa no início do ano.
Sem acesso ao dinheiro e fora da antecipação do FGC, Felipe relata que teve o fornecimento de energia elétrica cortado e depende da ajuda de vizinhos para manter equipamentos básicos funcionando. “O dinheiro está todo sequestrado”, afirmou ao g1.
Já Deise Juliana, também de 50 anos, utilizava a conta para guardar valores obtidos com a venda de alimentos. Ela conseguiu acesso antecipado por ter até R$ 1 mil em saldo.
Raet e decisão pela liquidação
Desde novembro de 2025, o Will Bank operava sob Regime Especial de Administração Temporária (Raet), medida adotada pelo BC para tentar viabilizar a venda da instituição após a liquidação do Banco Master, seu controlador.
Como não houve concretização da venda e houve acúmulo de dívidas, o BC concluiu que não restavam alternativas viáveis de reestruturação, tornando inevitável a liquidação.

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Como funciona o processo
O FGC estima desembolsar cerca de R$ 6,3 bilhões com a liquidação. Segundo o fundo, os pagamentos devem começar entre 30 e 60 dias após o envio da lista de credores. Pessoas físicas fazem a solicitação pelo aplicativo do FGC, enquanto empresas utilizam o site. Após validação, o depósito ocorre em até 48 horas úteis.
No caso das contas de pagamento, a devolução depende da verificação dos saldos pela administração da liquidação. “Em tese, esses recursos devem ser devolvidos diretamente ao cliente, fora da disputa entre credores. Porém, o tempo para a restituição depende dos procedimentos da liquidação e da conferência dos saldos”, afirmou ao g1 Danielle Peniche, advogada de mercado de capitais do SouzaOkawa.
O advogado Renato Scardoa, especialista em Direito Comercial, explicou ao site que o liquidante precisa identificar ativos, obrigações e passivos antes de definir a ordem de pagamentos. Segundo ele, não há prazo fechado em lei, mas algo entre 40 e 60 dias costuma ser considerado razoável em situações organizadas.
Enquanto isso, o aplicativo do banco permanece disponível apenas para consulta. Transferências, Pix e pagamentos estão bloqueados. Dívidas como faturas de cartão e parcelas de empréstimos continuam válidas e podem gerar cobrança com juros e eventual negativação.

Orientação aos clientes
Advogados ouvidos pelo g1 recomendam que os clientes guardem extratos, comprovantes e registros de movimentações na data da liquidação, além de acompanhar as comunicações oficiais do BC, do liquidante e do FGC.
Em casos de urgência, como falta de recursos para despesas básicas, é possível recorrer à Justiça. Segundo Scardoa, ações individuais podem ser alternativas diante de demora excessiva ou ausência de resposta da administração da liquidação.
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