O 3I/ATLAS tem uma particularidade: ele carrega uma quantidade de álcool muito superior à dos cometas do nosso Sistema Solar. Por meio do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), um dos maiores complexos de radiotelescópios do mundo, cientistas detectaram abundância incomum de metanol, tipo simples de álcool, no cometa interestelar.
Como o cometa veio de fora da nossa vizinhança cósmica, ele funciona como uma cápsula do tempo preservada há bilhões de anos. Ao analisar sua química, astrônomos conseguem “ler” a receita de como planetas e estrelas se formam em regiões do Universo que estão longe demais para visitas diretas.
Desequilíbrio químico no 3I/ATLAS traz pistas sobre nascimento de sistemas solares
Para entender do que o cometa é feito, os pesquisadores observaram a sua coma (nuvem brilhante de gás e poeira que surge quando o calor do Sol derrete a superfície gelada do astro).
Durante esse processo de aquecimento, o material congelado é liberado para o espaço. Isso emite sinais químicos que servem como uma impressão digital da origem do objeto, explicou o astrônomo Nathan Roth, da American University (EUA) e autor principal do estudo, num comunicado.
O estudo focou na comparação entre o metanol e o cianeto de hidrogênio, duas moléculas orgânicas comuns nesse tipo de corpo celeste. E os dados mostraram que o álcool é de 70 a 120 vezes mais abundante que o cianeto no 3I/ATLAS.
Essa proporção extrema indica que o gelo formado no cometa nasceu sob condições ambientais muito diferentes das que deram origem aos cometas que orbitam o nosso Sol.

A tecnologia de alta resolução do ALMA permitiu identificar até o ponto exato de onde esses gases escapam. Enquanto o cianeto sai diretamente do coração (núcleo) do cometa, parte do metanol vem de pequenos grãos de gelo que flutuam na nuvem de gás.
Esses fragmentos funcionam como reservatórios térmicos que liberam o álcool à medida que se aquecem na jornada em direção ao Sol, processo detalhado pela primeira vez num visitante interestelar.
O 3I/ATLAS é o terceiro “forasteiro” cósmico já identificado, sucedendo o ‘Oumuamua (2017) e o Borisov (2019). Descoberto em julho de 2025, o astro viaja numa velocidade que sugere que ele é três bilhões de anos mais velho que o próprio Sol.
Antes dessa análise química, o telescópio espacial James Webb havia notado que o gás predominante no cometa era o dióxido de carbono enquanto ele ainda estava nas regiões frias do espaço.
Identificar processos químicos tão detalhados num objeto vindo de outro sistema estelar é um marco para a astronomia. Ao confirmar que o 3I/ATLAS preserva materiais de uma estrela desconhecida, os cientistas ganham uma ferramenta para comparar a evolução do nosso Sistema Solar com o restante da galáxia.
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