A adoção acelerada de inteligência artificial (IA) pela Amazon tem gerado críticas internas entre funcionários corporativos. Relatos indicam que a pressão para incorporar essas ferramentas em diferentes atividades tem aumentado a carga de trabalho e ampliado mecanismos de monitoramento dentro da empresa.
O movimento ocorre em meio a mudanças recentes na estrutura da companhia. Nos últimos quatro meses, a Amazon demitiu cerca de 30 mil funcionários, o equivalente a quase 10% da força de trabalho corporativa, estimada em aproximadamente 350 mil pessoas. Ao mesmo tempo, a empresa informou que pretende investir cerca de US$ 200 bilhões em infraestrutura de IA neste ano, além de anunciar um investimento de US$ 50 bilhões na OpenAI.

Adoção acelerada de IA no trabalho
Funcionários ouvidos pelo The Guardian afirmam que a empresa tem incentivado o uso de IA em diferentes tarefas do dia a dia. Uma desenvolvedora de software de Nova York relatou que quando entrou na companhia, há dois anos, seu trabalho era principalmente escrever código. Hoje, grande parte do tempo é dedicada a revisar ou corrigir resultados gerados por ferramentas de IA.
Segundo ela, um dos sistemas internos utilizados é o Kiro, que pode produzir código com erros ou inconsistências. Nesses casos, os desenvolvedores precisam revisar o material gerado ou até descartá-lo e reiniciar o trabalho. A funcionária afirmou que ela e colegas não percebem ganhos claros de velocidade nas tarefas, apesar da pressão da gestão para acelerar o desenvolvimento. Poucos dias depois de falar com o The Guardian, ela perdeu o emprego em uma demissão em massa.
Outros funcionários relatam experiências semelhantes. Uma engenheira de cadeia de suprimentos que trabalha na empresa há mais de uma década, disse que as ferramentas de IA costumam ser úteis em cerca de uma em cada três tentativas. Mesmo quando funcionam, os resultados normalmente precisam ser verificados ou discutidos com colegas antes de serem utilizados.
Mais de meia dúzia de funcionários atuais e ex-funcionários da Amazon, em áreas como engenharia de software, pesquisa de experiência do usuário e análise de dados, disseram ao jornal que a empresa incentiva a integração de IA em diferentes atividades de trabalho. Parte deles afirma que o processo ocorre de forma acelerada e acompanhado por monitoramento do uso das ferramentas.
Em resposta, a porta-voz da empresa, Montana MacLachlan, afirmou que a Amazon possui centenas de milhares de funcionários corporativos em diversas funções e que as equipes utilizam IA de maneiras diferentes. Segundo ela, embora as experiências variem, a empresa afirma ouvir da maioria das equipes que as ferramentas geram valor no trabalho cotidiano.
Ferramentas internas e impacto na produtividade
Funcionários também relatam que há um grande número de ferramentas disponíveis internamente, muitas delas desenvolvidas durante hackathons organizados pela empresa. A Amazon costuma realizar esses eventos trimestralmente para incentivar a criação de novos projetos, e nos últimos meses muitos deles passaram a focar em IA generativa, especialmente em soluções voltadas à produtividade de desenvolvedores.
De acordo com relatos internos, algumas dessas ferramentas são distribuídas para testes dentro das equipes, que posteriormente precisam responder questionários sobre a experiência de uso. Para parte dos trabalhadores, isso pode gerar mais trabalho, já que o código ou as respostas produzidas pela IA precisam ser revisadas cuidadosamente.
Um engenheiro de software ouvido pela reportagem afirmou que, em alguns casos, o ciclo de desenvolvimento pode até se tornar mais longo devido à necessidade de revisar o material gerado automaticamente.
O uso dessas ferramentas também foi associado a alguns incidentes técnicos. Reportagem do Financial Times informou que a Amazon registrou pelo menos duas interrupções de sistemas relacionadas a ferramentas internas de IA.
Em um caso ocorrido em dezembro, um sistema voltado ao cliente ficou indisponível por cerca de 13 horas depois que engenheiros permitiram que uma ferramenta de IA realizasse determinadas alterações. A Amazon afirmou que a interrupção foi causada por um funcionário, e não diretamente pela IA.
Segundo a mesma reportagem, a empresa reuniu engenheiros para discutir uma sequência recente de falhas, incluindo incidentes ligados ao uso de ferramentas de programação baseadas em IA.
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Monitoramento e uso de IA dentro das equipes
Além das discussões sobre produtividade, funcionários afirmam que o avanço da IA dentro da empresa também aumentou a sensação de monitoramento no trabalho.
Há anos, o sistema interno Amazon Connections apresenta perguntas aos funcionários quando eles iniciam o expediente, solicitando feedback sobre temas ligados ao trabalho. Segundo relatos, nos últimos meses parte dessas perguntas passou a focar no uso de IA, incluindo frequência de utilização das ferramentas ou se elas são prioridade dentro da organização.
Gerentes também podem acessar painéis internos que mostram o uso de ferramentas de IA pelos membros das equipes, incluindo quais sistemas estão sendo utilizados e com que frequência. A existência desses painéis foi reportada anteriormente pela publicação The Information.
Outro painel interno, visto pelo The Guardian, permite que equipes acompanhem indicadores como adoção, engajamento e profundidade de uso de ferramentas de IA generativa. Em alguns casos, gestores estabelecem metas para que pelo menos 80% da equipe utilize ferramentas de IA semanalmente.

MacLachlan afirmou que a empresa quer entender quais ferramentas estão sendo usadas pelas equipes e se elas funcionam bem ou podem ser aprimoradas.
Nick Srnicek, professor sênior de economia digital no King’s College London e autor do livro Platform Capitalism, explicou ao The Guardian a implantação em larga escala dessas tecnologias tende a ampliar mecanismos de monitoramento no ambiente de trabalho. Segundo ele, a adoção acelerada de sistemas de IA pode expandir a vigilância porque essas ferramentas dependem de dados detalhados sobre fluxos de trabalho e atividades cotidianas dos funcionários.
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