Pesquisadores da USP e da UFMG publicaram um trabalho científico que propõe a mudança taxonômica do recém-descoberto “universo de vírus gigantes”, intitulado Gigavírus. O autor principal do trabalho é Luiz-Eduardo Del-Bem e pode ser lido na íntegra clicando aqui.
De acordo com a pesquisa, o grupo de vírus Asfarviridae não deveria ser classificado em uma única família viral, mas em diferentes grupos com várias famílias diferentes. Ou seja, para o estudo, essa remodelação é importante porque corrigiria preceitos incorretos da taxonomia e auxiliaria na análise da evolução viral.
Gigavírus: entenda o conceito do ‘vírus gigante’
Os vírus gigantes, ou Gigavírus, são uma novidade da virologia descoberta no começo do século XXI. A diferença primordial destes micróbios para os tradicionais é que os Gigavírus são conhecidos por seu tamanho avassalador.

Imagem: Wikimedia Commons/ ViralZone, SIB Swiss Institute of Bioinformatics
Isso porque, enquanto o coronavírus tem 120 nanômetros de tamanho e apresenta 11 genes, um Gigavírus pode ter 2.600 nanômetros e 867 genes (grande parte ainda um mistério para ciência)
Thiago Mendonça-Santos, outro autor do artigo, explica que muitas vezes esses Gigavírus são confundidos com bactérias devido ao seu tamanho anormal para os parâmetros da virologia.
Apesar dos avanços, “ainda não se sabe exatamente o que eles são nem quais funções biológicas são capazes de realizar”, afirma Del Bem ao Jornal da USP. O pesquisador ainda informa que, diferente do que diz a literatura, o grupo Asfarviridae tem, pelo menos, cinco famílias virais diferentes dentro do que outrora se pensava ser apenas uma.
A metodologia utilizada para a pesquisa

Geralmente, os vírus possuem hospedeiros muito próximos. No caso dos vírus Asfarviridae, os infectados variavam de amebas a porcos, o que levou a equipe a questionar se não haveria mais famílias virais ali do que se tinha notícia: essa amplitude de hospedeiros era um indicativo da diversidade dentro da família.
Utilizando métodos comparativos comuns em estudos de plantas e organismos multicelulares, mas pouco usados em virologia, os pesquisadores analisaram a diversidade genética desse grupo de vírus. Foram identificados 2.483 grupos diferentes de genes entre os vírus analisados, porém, apenas 37 estavam presentes em todos. Além disso, quase 40% dos genes apareceram em apenas um único vírus. Esses resultados indicam que há uma enorme diversidade genética dentro desse grupo.
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Os resultados obtidos

Imagem: Divulgação Científica/reprodução do artigo.
No universo da virologia, existe uma instituição que classifica esses seres e sua taxonomia: o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV). Sua função é encaixar os vírus em espécies, famílias, gêneros e outras classificações taxonômicas, mesmo com os vírus não sendo considerados seres vivos.
Ao final da pesquisa, a diversidade ampla encontrada entre os vírus pelos cientistas evidenciou uma necessidade: desmembrar a família Asfarviridae.
Com isso, os pesquisadores propuseram uma nova classificação. A família Asfarviridae se mantém, mas apenas com 3 espécies, e quatro novas famílias surgem: Faustoviridae, com quatro espécies; Kaumoebaviridae, com duas; Pacmanviridae, com duas; e Abaloneviridae, com um gênero descrito, mas ainda sem espécies identificadas.
A pesquisa mostra que essa divisão taxonômica correta é essencial para o estudo desses seres no ambiente e em hospedeiros.
“A cada novo genoma, aparecem genes completamente inéditos. Isso mostra que estamos lidando com um grupo cuja diversidade ainda é imensa”, afirma o professor. Essa coleção de genes, chamada de pangenoma, é crescente e ainda existem muitas espécies a serem descobertas. Para Del Bem, é um sinal claro: “Ainda não vimos tudo que esses vírus têm a oferecer”.
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