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Músicas geradas por IA avançam e desafiam plataformas

by Fesouza
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A inteligência artificial (IA) já está presente em diferentes etapas da indústria da música, da criação de samples e gravação de demos à organização de playlists e conteúdos digitais. Esse avanço vem acompanhado de desafios técnicos, disputas legais e debates sobre o impacto da tecnologia na produção artística e no trabalho de músicos profissionais.

Ao mesmo tempo, novos lançamentos, decisões de plataformas e casos recentes mostram como o uso de IA na música evolui rapidamente, com efeitos diretos sobre criação, distribuição e monetização.

Suno aposta em mais controle com atualização v5.5

A Suno lançou uma das suas atualizações mais relevantes com a versão 5.5 do seu modelo de geração musical por IA. Diferente de versões anteriores, que focavam na melhoria da qualidade sonora e em vocais mais naturais, a nova versão prioriza dar mais controle ao usuário.

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Suno é destaque no setor de geração de músicas com IA (Imagem: Ralf Liebhold / Shutterstock.com)

A atualização traz três recursos principais: Voices, My Taste e Custom Models. Segundo a empresa, o Voices é o recurso mais solicitado e permite treinar o modelo com a própria voz do usuário. Para isso, é possível enviar acapellas, faixas completas ou gravar diretamente pelo microfone de um dispositivo.

A qualidade da gravação influencia diretamente a quantidade de dados necessários para o treinamento. Como medida de proteção, a plataforma exige que o usuário fale uma frase de verificação, embora exista a possibilidade de contornar esse sistema com modelos de voz já disponíveis.

Indústria adota postura discreta sobre uso de IA

O uso de inteligência artificial na música tem avançado sem grande transparência. Na prática, a indústria passou a adotar uma abordagem informal de “não pergunte, não conte”, com artistas de diferentes gêneros utilizando IA em etapas como experimentação de arranjos, criação de demos e produção de samples.

A compositora Michelle Lewis afirmou à Rolling Stone que há resistência em admitir o uso da tecnologia. Já o produtor Young Guru avalia que a prática é mais disseminada do que parece, especialmente no hip-hop. Segundo ele, tornou-se comum criar samples de funk e soul com IA em vez de licenciar músicas originais ou contratar músicos, estimando que “mais da metade” do hip-hop baseado em samples siga esse caminho.

Caso de fraude expõe riscos do modelo

O avanço da IA também abriu espaço para esquemas fraudulentos. Um exemplo recente envolve Michael Smith, da Carolina do Norte, que se declarou culpado por criar centenas de milhares de músicas geradas por IA e utilizar bots para reproduzi-las bilhões de vezes.

De acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, o esquema rendeu mais de US$ 8 milhões em royalties. O caso evidencia como ferramentas de geração automática podem ser exploradas para manipular plataformas de streaming.

Plataformas ampliam medidas de transparência

Diante do crescimento do conteúdo gerado por IA, serviços de streaming começaram a implementar mecanismos de identificação. A Apple Music passou a adotar um sistema opcional de “Transparency Tags”, que permite classificar conteúdos conforme o uso de inteligência artificial.

O sistema inclui quatro categorias: faixa, composição, arte visual e videoclipe. A etiqueta de faixa deve ser aplicada quando uma parte relevante da gravação foi gerada por IA, enquanto a de composição cobre elementos como letras. Já a de arte visual vale para imagens no nível do álbum, e a de videoclipe para outros conteúdos visuais.

Outras plataformas seguem caminhos semelhantes. A Qobuz passou a detectar e rotular automaticamente músicas geradas por IA, acompanhando um movimento iniciado anteriormente pela Deezer. A empresa também divulgou uma carta de princípios afirmando que sua curadoria continuará sendo humana, sem banir completamente esse tipo de conteúdo.

Bandcamp adota posição mais rígida

Entre as principais plataformas, o Bandcamp tomou a decisão mais restritiva até agora. A empresa anunciou a proibição de conteúdos gerados total ou substancialmente por IA, incluindo materiais que imitam artistas ou estilos específicos.

Segundo as diretrizes, músicas que dependam fortemente de IA não são permitidas e podem ser removidas. A plataforma também incentiva usuários a denunciarem conteúdos suspeitos.

Dificuldade em identificar músicas geradas por IA

A identificação de músicas criadas por IA ainda é um desafio. Um estudo conduzido pela Deezer em parceria com a Ipsos indicou que 97% das pessoas não conseguem diferenciar faixas geradas por IA de músicas feitas por humanos.

Apesar do número elevado, o resultado tem nuances. No experimento, participantes ouviam três músicas e precisavam acertar todas para serem considerados capazes de distinguir corretamente. Mesmo quem acertava duas era classificado como incapaz de identificar a diferença, o que impacta a interpretação do dado.

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A grande maioria das pessoas não consegue diferenciar músicas geradas por IA das feitas por humanos (Imagem: New Africa / Shutterstock.com)

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Debate sobre criação musical segue em aberto

O avanço da IA também levanta discussões sobre o conceito de criação artística. Um dos pontos em debate é se o uso de prompts para gerar músicas pode ser considerado um processo criativo ativo.

A questão se soma a outras, como direitos autorais envolvendo artistas gerados por IA e o papel da tecnologia na indústria. Com novos modelos, acordos e regulações em andamento, o cenário segue em transformação.

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