Um artigo publicado nesta quinta-feira (28) na revista Science revela que o interior de Marte contém “cicatrizes” de impactos antigos de meteoritos. De acordo com a pesquisa, o manto do planeta guarda fragmentos irregulares como lembranças de sua juventude turbulenta no Sistema Solar.
As conclusões vêm da análise de dados da missão InSight, da NASA, que passou quatro anos em Marte registrando atividades sísmicas. Durante esse período, o sismômetro detectou mais de mil martemotos, sendo que os mais intensos foram provocados por impactos de meteoritos. As crateras resultantes foram identificadas por sondas em órbita, e as ondas sísmicas desses choques revelaram um retrato inusitado do interior marciano.
Em poucas palavras:
- Interior de Marte guarda cicatrizes antigas causadas por choques de meteoritos;
- Missão aposentada da NASA registrou martemotos, detalhando sismologia do planeta;
- Diferentemente da Terra, Marte preserva fragmentos sem atividade tectônica contínua;
- Esses vestígios funcionam como cápsula do tempo da formação planetária;
- Descoberta ajuda a compreender a evolução inicial do Sistema Solar primitivo.

Segundo o autor principal do estudo, Constantinos Charalambous, cientista planetário do Imperial College London, na Inglaterra, os registros mostraram que o manto de Marte é caótico, composto por misturas de detritos possivelmente formados nos primeiros momentos do planeta. Isso contrasta com a Terra, cujo manto se mantém mais fluido e homogêneo, principalmente graças à água e à dinâmica das placas tectônicas.
Marte e Terra reagiram de maneira diferente a impactos
No início do Sistema Solar, todos os planetas sofreram colisões violentas. No caso da Terra, uma das mais marcantes foi o impacto com Theia, um corpo do tamanho de Marte que deu origem à Lua. Esse evento deixou marcas no interior terrestre, mas elas estão mais bem atenuadas devido à atividade geológica. No nosso vizinho vermelho, por outro lado, os fragmentos nunca se integraram, permanecendo preservados como uma cápsula do tempo.
Os dados sugerem que pedaços de crosta e restos de meteoritos ficaram aprisionados no manto, alguns chegando a quatro quilômetros de extensão. Para os cientistas, essas “cicatrizes” revelam pistas valiosas sobre a formação do planeta e oferecem indícios do que pode ter dado errado em sua evolução, que o levou a se tornar um mundo árido e inativo.
Ao site IFLScience, o professor Tom Pike, também do Imperial College London e membro da equipe, compara os fragmentos a peças de um quebra-cabeça do passado. Ele explica que, ao contrário da Terra, Marte não conta com atividades tectônicas que redistribuam o material interno, o que permitiu que essas marcas fossem preservadas ao longo de bilhões de anos.

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Sonda InSight abriu “janela do tempo”
Como a sonda InSight contava apenas com um sismômetro, a pesquisa não pôde mapear em detalhe todo o interior do planeta. Para isso, seria necessário espalhar diversos instrumentos pela superfície marciana, como ocorre na Terra.
No entanto, Marte não gera terremotos com frequência. Os eventos mais fortes registrados vieram de impactos externos, que ocorrem de forma aleatória. Charalambous ressalta que, mesmo com vários sismógrafos, seria preciso contar com a sorte de um grande impacto acontecer no local e na hora certos. Curiosamente, um dos maiores choques em décadas ocorreu justamente durante a missão estendida da InSight, quando a sonda já havia superado em dobro sua vida útil planejada.
Os cientistas acreditam que essas conclusões também podem se aplicar a outros planetas chamados de “tampa estagnada”, como Mercúrio, cujo interior não se renova por processos tectônicos. Assim como Marte, eles funcionam como cápsulas geológicas, preservando registros valiosos sobre os primeiros estágios do Sistema Solar.

Para Pike, o grande mérito da InSight foi abrir essa janela no tempo. “Se queremos entender como o Sistema Solar se formou, precisamos olhar para planetas que mantêm sinais de sua juventude”. Segundo ele, os resultados finalmente cumprem o propósito original da missão: explorar um planeta que funciona como um arquivo natural da história cósmica.
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