Já abordei esse tema por aqui em outros momentos, e é preciso seguir nessa discussão. No Mês da Consciência Negra, falar sobre racismo na tecnologia, especialmente na inteligência artificial, continua sendo essencial.
Apesar dos avanços e das promessas de inovação, os algoritmos ainda reproduzem desigualdades que conhecemos bem. E isso tem impacto direto na vida de pessoas negras.
A inteligência artificial, por si só, é neutra. Teoricamente, não deveria ter intenções, crenças ou julgamentos. Mas, na prática, sofre e muito pelos vieses de quem a alimenta.
Os dados usados para treiná-la carregam marcas profundas da sociedade que os produziu. Se essa sociedade é desigual, os algoritmos tendem a reproduzir essas desigualdades. E é aí que mora o perigo: quando confiamos em sistemas automatizados sem questionar quem os construiu, com quais dados e com quais ausências.
Em 2023, esta coluna já trouxe reflexões sobre os impactos do reconhecimento facial em pessoas negras, sobre a invisibilidade de profissionais negros na área de tecnologia, e sobre a urgência de criar soluções mais inclusivas. Mas o que mudou de lá para cá?
Infelizmente, pouco. O Diagnóstico Comportamental dos Profissionais de TI, divulgado em outubro de 2024, revelou que apenas 4% dos profissionais de tecnologia da informação no Brasil são negros, enquanto 73% são brancos – em um país onde mais da metade da população se declara preta ou parda.

Essa disparidade não é apenas injusta: ela compromete a qualidade das tecnologias que usamos todos os dias. Quando apenas um grupo social está presente na criação de soluções, há o risco de invisibilizar outras vivências, de ignorar contextos e de reforçar estereótipos.
Diversidade, nesse cenário, não pode ser tratada como pauta de marketing.
Ela precisa ser parte da estratégia, da cultura e da estrutura das empresas. E os dados mostram que isso faz diferença: equipes diversas tomam decisões melhores (87%), são mais lucrativas (35%), mais produtivas (32%), retêm mais talentos (68%) e atraem profissionais de alto nível (73%), segundo o relatório Workplace Diversity Statistics da Flair HR.
Mas não basta reconhecer o problema. É preciso agir. Isso significa investir na formação de profissionais negros em tecnologia, garantir representatividade na liderança, auditar algoritmos com transparência e criar políticas públicas e corporativas que responsabilizem o uso discriminatório da IA. Significa, acima de tudo, escutar quem vive o impacto dessas tecnologias na pele.
A tecnologia molda o mundo. E o mundo é diverso. Se queremos um futuro mais justo, precisamos garantir que ele seja construído por todas as pessoas, para todas as pessoas. Isso exige coragem, compromisso e ação.
Já falamos sobre isso antes. E vamos continuar falando — até que a realidade mude.
