Um aplicativo de nome mórbido, “Sileme” (“Você Morreu?”, em tradução livre), tornou-se o mais baixado da China ao oferecer uma solução simples para um medo moderno: morrer sozinho e sem ser notado. A ferramenta exige que o usuário aperte um botão diariamente para confirmar que está bem (ou ao menos vivo); caso contrário, o sistema envia um alerta automático para contatos de emergência pré-definidos.
Criado por uma equipe de três desenvolvedores, o app reflete uma crise de solidão que atinge milhões de jovens e idosos em áreas urbanas chinesas. Com o sucesso repentino, que o levou ao topo da App Store, a startup introduziu uma taxa de assinatura. E planeja expansão global com identidade visual menos agressiva.
Aplicativo funciona como botão de pânico para quem vive sozinho
O conceito do “Are You Dead” é minimalista e focado na utilidade imediata. Ele não funciona como uma rede social comum, mas como um verificador de segurança que opera sob a premissa de que a ausência de ação é o principal sinal de alerta. O design é basicamente: um botão grande que precisa ser acionado em intervalos regulares.

Se o usuário deixar de interagir com a interface por dois dias consecutivos, o sistema dispara um e-mail ou notificação para um familiar ou amigo indicado. Essa dinâmica atende a um público que os desenvolvedores chamam de “solo dwellers”: estudantes, profissionais e solteiros que mantêm rotinas de pouco contato social constante. É uma rede de segurança digital para imprevistos domésticos.
A demanda por esse tipo de vigilância não é por acaso. A China projeta ter 200 milhões de lares de uma só pessoa até 2030. Esse isolamento social gera o receio real de que incidentes de saúde fiquem ocultos por tempo demais dentro de apartamentos em metrópoles. O aplicativo, então, transforma o celular numa espécie monitor de sinais vitais.
Embora o nome original soe sombrio para alguns, muitos usuários defendem que a praticidade supera o desconforto inicial. Nas redes sociais como o Weibo (parecido com o X/Twitter, usado na China), o serviço é descrito como um companheiro de segurança, essencial para quem sofre de depressão ou vive em situações de vulnerabilidade. O pragmatismo da ferramenta venceu o tabu cultural sobre a morte.
O crescimento explosivo transformou o que era um projeto independente num negócio com alto potencial de aumento de escala. Agora, os criadores buscam equilibrar a viabilidade financeira com a necessidade de suavizar a imagem da marca para novos mercados.
Marca muda de nome para buscar mercados globais e aceitação maior
Para atrair o público internacional e reduzir a resistência de usuários conservadores, a empresa anunciou a mudança do nome para Demumu. A nova identidade tenta ser mais amigável e menos direta, embora os desenvolvedores admitam que a primeira sílaba ainda carrega uma referência sutil ao termo inglês “death” (morte). A ideia é manter a essência sem o choque visual.

Além do rebranding, o modelo de negócios está sendo atualizado de uma compra única para uma assinatura de 8 yuan (aproximadamente R$ 6, em conversão direta). O ajuste de preço é necessário para cobrir os custos crescentes de servidores e suporte técnico. O volume massivo de novos downloads exigiu uma infraestrutura mais robusta do que a equipe inicial de três pessoas previu.
Além disso, o futuro da plataforma prevê a integração de inteligência artificial (IA) para monitorar a segurança de forma mais ativa. A visão dos desenvolvedores é criar um acompanhante digital que não apenas espere pelo toque no botão, mas que aprenda padrões de comportamento. Se o padrão for quebrado, a IA pode oferecer ajuda proativa antes mesmo do prazo de dois dias.
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Stuart Gietel-Basten, professor de ciências sociais e políticas públicas na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, observa, em entrevista à CNN, que o aplicativo preenche uma lacuna emocional. Mas alerta que ele não substitui a interação social real. O fenômeno é um sintoma da chamada “economia da solidão”, na qual ferramentas digitais tentam mitigar falhas de suporte comunitário físico. Ou seja, o software pode resolver o problema da notificação, mas não o do isolamento.
(Essa matéria também usou informações da BBC, Reuters e Wired.)
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