Desde a pandemia da Covid-19 (e até antes disso), o avanço de diferentes vírus pelo mundo mantém especialistas em alerta diante da possibilidade de novos surtos e crises sanitárias. Em análise publicada no site The Coversation, o infectologista Patrick Jackson, professor assistente de Doenças Infecciosas da Universidade da Virgínia, aponta quais patógenos merecem atenção especial nos próximos meses.
Segundo o pesquisador, fatores como aquecimento global, crescimento populacional e maior mobilidade humana criam condições favoráveis para que vírus circulem com mais rapidez e alcancem novas regiões.
Influenza A H5N1 sob vigilância
A influenza A é descrita por Jackson como uma ameaça recorrente, devido à capacidade de infectar diferentes espécies e sofrer mutações rápidas. A pandemia de H1N1 em 2009 matou mais de 280 mil pessoas em seu primeiro ano, e o vírus continua em circulação.
O foco atual recai sobre o subtipo H5N1, conhecido como gripe aviária. Identificado em humanos pela primeira vez no sul da China em 1997, o vírus se espalhou globalmente com a ajuda de aves silvestres. Em 2024, foi detectado pela primeira vez em vacas-leiteiras nos Estados Unidos, estabelecendo-se em rebanhos de vários estados.
Estudos indicam que já ocorreram transmissões de vacas para humanos. De acordo com dados citados pelo g1 com base nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), foram registrados 71 casos humanos e duas mortes desde 2024, sem evidência de transmissão sustentada entre pessoas.
Jackson afirma que cientistas seguem atentos a qualquer sinal de que o vírus tenha adquirido capacidade de transmissão eficiente entre humanos, passo considerado essencial para o início de uma nova pandemia. Ele observa que as vacinas atuais provavelmente não oferecem proteção contra o H5N1, e que pesquisadores trabalham no desenvolvimento de imunizantes específicos.
Mpox se estabelece em novos territórios
O mpox, anteriormente chamado de monkeypox, foi identificado na década de 1950 e, por muitos anos, esteve restrito principalmente à África Subsaariana. Apesar do nome, o vírus infecta majoritariamente roedores e pode eventualmente atingir humanos.
Em 2022, um surto global da variante clado II se espalhou para mais de 100 países que nunca haviam registrado casos antes. A transmissão ocorreu de pessoa para pessoa por contato próximo, frequentemente durante relações sexuais.
Embora o número de casos tenha diminuído após o pico do surto, o clado II se estabeleceu em diversas regiões do mundo. Paralelamente, países da África Central registram aumento de casos do clado I, considerado mais grave. Desde agosto de 2025, quatro casos do clado I foram identificados nos Estados Unidos, inclusive em pessoas sem histórico de viagem à África.
Jackson afirma que ainda não está claro como os surtos de mpox irão evoluir. Existe vacina disponível, mas não há tratamentos eficazes específicos.
Vírus Oropouche e expansão nas Américas
O vírus Oropouche foi identificado na década de 1950 na ilha de Trinidad, no Caribe. Transmitido por mosquitos e pequenos insetos conhecidos como “maruins”, provoca febre, dor de cabeça e dores musculares. Em geral, a doença dura poucos dias, mas pode causar fraqueza prolongada e até recorrência dos sintomas.
Durante décadas, os casos humanos foram associados à região amazônica. A partir dos anos 2000, no entanto, infecções passaram a ser registradas em áreas mais amplas da América do Sul, América Central e Caribe. Casos nos Estados Unidos costumam envolver viajantes que retornam do exterior.
Segundo Jackson, há muitas questões em aberto sobre o vírus e não existem vacinas nem tratamentos específicos. O inseto transmissor está presente em grande parte da América do Norte e do Sul, o que pode favorecer a expansão da área de circulação do vírus.
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Outras ameaças virais
Além desses três vírus, Jackson destaca que surtos contínuos de chikungunya podem afetar viajantes, alguns dos quais podem considerar a vacinação. Casos de sarampo seguem em alta nos Estados Unidos e em outros países, em um contexto de queda nas taxas de imunização.
Ele também alerta que o HIV pode voltar a crescer devido a interrupções na ajuda internacional, apesar da existência de tratamentos eficazes. O pesquisador acrescenta que novos vírus ainda desconhecidos podem emergir à medida que atividades humanas alteram ecossistemas e ampliam o contato entre pessoas, animais e o meio ambiente.
“A vigilância para ameaças virais conhecidas e emergentes e o desenvolvimento de novas vacinas e tratamentos podem ajudar a manter todos seguros”, afirma Patrick Jackson.
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