Angra 3 paralisada é “inacreditável”, diz presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear

A usina nuclear Angra 3, em Angra dos Reis (RJ), permanece como um dos projetos mais controversos da infraestrutura energética brasileira. Iniciada ainda na década de 1980, a obra atravessou sucessivos governos, paralisações e revisões orçamentárias, tornando-se símbolo da dificuldade do país em tomar decisões de longo prazo no setor energético.

Hoje, Angra 3 tem cerca de 70% das obras concluídas, com milhares de equipamentos já fabricados e armazenados, tanto no canteiro de obras quanto em galpões industriais. Mesmo assim, o projeto segue sem definição final sobre sua retomada ou abandono, alimentando um debate que mistura política, economia e planejamento energético.

Angra 3 (Imagem: Mauricio de Almeida/TV Brasil)

Em entrevista exclusiva ao Olhar Digital, o presidente da ABEN – Associação Brasileira de Energia Nuclear, Carlos Henrique Silva Seixas, afirmou que é “inacreditável” que a usina ainda não esteja em operação. Para ele, a ausência de uma decisão clara gera prejuízos contínuos ao país. Segundo Seixas, a falta de definição representa um custo aproximado de R$ 1 bilhão por ano aos cofres públicos, situação que se arrasta há pelo menos uma década.

A falta de decisão dá um prejuízo de um bi por ano aos cofres públicos brasileiros… que a gente está vindo ao longo dos últimos… dez anos sem essa decisão

Carlos Henrique Silva Seixas

Carlos Henrique Silva Seixas (Imagem: Divulgação)

Custo para encerrar Angra 3 é bilionário

O dirigente explica que, mesmo sem avançar na obra, o Brasil continua arcando com despesas financeiras relacionadas a empréstimos já contratados junto à Caixa Econômica Federal e ao BNDES. Caso o governo decida abandonar definitivamente Angra 3, o custo total pode chegar a R$ 21 bilhões, valor que não resultaria em nenhuma geração adicional de energia.

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Do outro lado da equação, a conclusão da usina demandaria um investimento estimado em R$ 25 bilhões. Apesar do valor elevado, Seixas defende que a lógica é simples: gastar menos para não ter nada ou investir um pouco mais para obter uma usina moderna, com capacidade superior à de Angra 1 e Angra 2.

Quando (ou se) concluída, Angra 3 terá potência de aproximadamente 1.405 MW, suficiente para abastecer milhões de residências e contribuir de forma relevante para a estabilidade do sistema elétrico nacional.

“Se nós pararmos hoje e dissermos assim, não vamos ter usina nuclear Angra III… nós temos mais de onze mil equipamentos prontos… que vão ser jogados fora… no lixo”, explica.

Obras da Usina nuclear de Angra 3
(Imagem: Mauricio de Almeida/TV Brasil)

Para o presidente da ABEN, a discussão sobre Angra 3 deveria ter mudado de esfera. Ele afirma que não se trata mais de ser “a favor ou contra” a energia nuclear, mas de uma decisão matemática e racional. Na avaliação dele, o país já ultrapassou o momento de debater se a usina deve ou não ser feita; agora, o único caminho coerente seria concluí-la, já que as obras seguem há décadas.

O principal entrave está na origem dos recursos. O governo federal afirma ter dificuldades em destinar sozinho os R$ 25 bilhões necessários, o presidente da ABEN avalia que, se o projeto depender exclusivamente do orçamento da União, dificilmente sairá do papel. Por isso, ele vê como solução mais viável a adoção de um modelo de parceria público-privada, permitindo a entrada de capital privado para viabilizar a obra. Essa alternativa já vem sendo discutida no Congresso Nacional,

Na avaliação de Seixas, a sucessão de governos sem decisão clara explica por que Angra 3 permanece inacabada até hoje, apesar dos compromissos assumidos ao longo do tempo.

Data centers e o aumento da demanda por IA

Além do impasse financeiro e político, o futuro de Angra 3 está diretamente ligado ao crescimento da demanda por energia no Brasil e no mundo. Para o presidente da ABEN, a experiência brasileira com energia nuclear já comprova sua confiabilidade. Ele lembra que Angra 1 e Angra 2 operam há cerca de 40 anos sem registrar acidentes. “São quarenta anos, graças a Deus, sem nunca ter dado nenhum problema”, afirmou.

Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita); os reatores, onde a energia nuclear é gerada, ficam dentro das estruturas brancas — Foto: Divulgação/Eletronuclear

As usinas nucleares trabalham com um fator de capacidade próximo de 90% ao ano. “Não existe nada no mundo que faça isso. Uma hidrelétrica trabalha com trinta, quarenta por cento, porque depende da água. A energia nuclear não depende de nada, é só botar urânio lá e ela vai tocando”, disse.

Essa característica é valorizada, mas os riscos dessa tecnologia estão sempre na balança. Ele avalia que o mundo começou a mudar sua percepção sobre a energia nuclear a partir do reconhecimento de sua segurança. “Eu acho que o mundo vislumbrou, primeiro, a segurança da energia nuclear. Isso começou a mudar muito na Europa, na Ásia”, destacou.

Os grandes data centers viraram hubs de interconexão, onde operadoras, empresas de streaming, bancos, e-commerces e serviços de IA

No entanto, essa visão não é necessariamente compartilhada por esses países. A Alemanha iniciou nas últimas décadas um programa para desativação de suas usinas nucleares, que, apesar de ter sofrido reveses nos últimos anos, ainda está nos planos do país. Outros países também reduziram a dependência de energia nuclear em prol da eólica e solar.

De acordo com Carlos, esse movimento foi decorrência de uma preocupação com segurança após o desastre de Fukushima , em 2011, com um momento em que as energias renováveis ganharam força. No entanto, com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e mudanças políticas, o cenário hoje é diferente.

Outro fator decisivo foi a busca por fontes que não oscilem ao longo do ano. Para Seixas, a necessidade de uma energia previsível e contínua se tornou central no planejamento energético global. “A gente precisa de uma energia que seja sustentável no sentido de não oscilar, porque as outras oscilam”, afirmou.

Imagem: Make more Aerials/Shutterstock

Esse cenário se intensificou com o avanço da tecnologia digital. O presidente da ABEN apontou que a expansão de data centers, inteligência artificial e da indústria de chips tem elevado de forma significativa o consumo energético no mundo. “Está crescendo muito, no mundo todo, a necessidade de mais energia”, disse, acrescentando que esse movimento levou vários países a enxergar a nuclear como uma solução viável.

Questionado sobre o impacto direto do crescimento da inteligência artificial e dos data centers no consumo energético, Seixas foi categórico: “Com certeza. Os estudos mostram isso, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo”. Segundo ele, o país já começa a se preparar para essa nova realidade, olhando para a energia nuclear não apenas como uma opção, mas como uma necessidade estratégica para o futuro.

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