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Apollo 16: a missão que deixou uma foto de família na Lua

by Fesouza
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A missão Apollo 16, da NASA, levou dois astronautas experientes a um território pouco conhecido da Lua em abril de 1972. John W. Young e Charles M. Duke pousaram na região de Descartes, nas terras altas lunares, depois de um atraso tenso causado por uma falha no sistema de propulsão do módulo de serviço. O contratempo quase cancelou a missão, mas, no fim, foi um dos obstáculos superados antes de 71 horas intensas de trabalho na superfície.

O quinto pouso tripulado da NASA foi técnico e científico, sim. Mas profundamente humano também. Enquanto Ken Mattingly permanecia em órbita no módulo Casper, Young e Duke cruzaram crateras a bordo do Rover Lunar, coletaram 95 quilos de amostras, bateram recordes de velocidade e deixaram para trás não só instrumentos e pegadas, mas um gesto íntimo: uma foto de família no solo lunar.

Objetos pessoais e momentos de descontração reforçaram lado humano por trás da precisão tecnológica

Charles Duke tinha 36 anos quando pisou na Lua. E segue sendo, até hoje, a pessoa mais jovem a caminhar na superfície lunar. A missão Apollo 16 marcou seu nome nos livros de história não apenas pela idade, mas pelo contraste entre a disciplina extrema do programa espacial e os pequenos gestos pessoais que ele decidiu levar consigo.

Objetos pessoais deixados por astronauta na Lua durante missão Apollo 16 da NASA
Da esquerda para a direta: pedaço de tecido com “64-C” escrito, foto de família do astronauta Charlie Duke e medalha comemorativa da Força Aérea dos EUA (Imagem: NASA)

O mais simbólico deles foi uma fotografia simples: Duke, a esposa e os dois filhos. Ele quis que a família “fosse junto” à Lua e, por isso, deixou a foto ali, deliberadamente, como parte da paisagem. Não era um item esquecido, mas um recado deixado com intenção.

No verso da imagem, Duke escreveu: “Esta é a família do astronauta Charlie Duke, do planeta Terra, que pousou na Lua em 20 de abril de 1972.” Não havia metáfora, nem grandiloquência. Era uma assinatura humana num cenário que, até então, parecia reservado apenas à engenharia.

Com o tempo, o ambiente lunar deve ter feito seu trabalho. As temperaturas no local variam de cerca de 204 °C durante o dia a valores próximos do zero absoluto à noite, um ciclo extremo que provavelmente desbotou completamente a imagem. Ainda assim, o valor simbólico permanece.

Além da fotografia, Duke deixou outros objetos pessoais: uma medalha comemorativa da Força Aérea dos EUA e um pedaço de tecido com a inscrição “64-C”, referência à sua turma na escola de pilotos de pesquisa aeroespacial.

Nem tudo, porém, foi solenidade. Em meio às tarefas, os astronautas improvisaram as chamadas “Olimpíadas de Descartes”, tentando saltos na baixa gravidade. A brincadeira quase terminou em tragédia quando Duke caiu de costas, com a mochila de suporte de vida absorvendo o impacto. A estrutura aguentou. Se não tivesse aguentado, a descompressão teria sido fatal.

Ainda assim, a missão deixou um legado político além do científico. Durante uma das excursões, os astronautas foram informados de que o Congresso dos EUA havia aprovado o orçamento da NASA com recursos para o futuro Ônibus Espacial. No meio das crateras, a exploração do passado da Lua se conectava diretamente com o futuro da presença humana no espaço.

Apollo 16 teve marcos científicos e superação de riscos técnicos

Nada disso teria acontecido sem uma decisão crítica tomada horas antes do pouso. Uma oscilação no sistema de controle secundário do motor do Módulo de Serviço forçou a NASA a atrasar o toque no solo em quase seis horas. O risco era: sem aquele motor plenamente confiável, a missão poderia terminar antes mesmo de começar.

Montagem com duas fotos da missão Apollo 16, da NASA, na Lua
Atraso causado por falha no sistema de propulsão do módulo quase cancelou a missão Apollo 16 (Imagem: NASA)

Quando o sinal verde veio, Young e Duke desceram sabendo que cada minuto importava. No chão lunar, a mobilidade virou vantagem decisiva. O Lunar Roving Vehicle permitiu que a dupla percorresse 26,8 quilômetros ao longo de três dias, algo impensável nas primeiras missões Apollo, limitadas a caminhadas curtas ao redor do módulo.

A infraestrutura científica montada ali foi inédita. Os astronautas instalaram o pacote de experimentos ALSEP, que incluía sensores sísmicos e outros instrumentos, além de um espectrógrafo de ultravioleta distante. A câmera captou imagens inéditas da Terra e do espaço em comprimentos de onda nunca antes observados a partir da Lua.

No campo da geologia, a Apollo 16 também entrou para a história. Em uma das paradas, os astronautas coletaram a “Big Muley”, uma rocha de 11,7 quilos, a maior amostra única já trazida da Lua por qualquer missão Apollo. O achado reforçou a importância científica das terras altas lunares, até então menos compreendidas.

O roteiro incluiu visitas a crateras como Plum, North Ray (a maior já explorada por uma tripulação Apollo) e a região de Stone Mountain, onde o rover enfrentou inclinações de até 22 graus. Em terreno irregular, poeira fina e visibilidade limitada, cada deslocamento exigia precisão.

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Num desses trajetos surgiu o chamado “Grand Prix” lunar: demonstração informal, mas reveladora, das capacidades do rover. Numa descida controlada, os astronautas atingiram 17 km/h, estabelecendo o recorde de velocidade na Lua.

No fim, dados, rochas e experimentos dividiram espaço com algo mais simples na Apollo 16: a vontade humana de deixar um sinal pessoal num cume. Na Lua, esse sinal não foi uma bandeira nem um instrumento científico, mas uma foto de família dizendo: nós estivemos aqui.

(Essa matéria usou informações de Business Insider e NASA.)

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