Quando pensamos no ator David Harbour, é quase automático lembrar do policial durão de Stranger Things, Jim Hopper. No entanto, em DTF St. Louis, nova minissérie da HBO que estreou em 1º de março de 2026, o ator mergulha no completo oposto: um homem de meia-idade inseguro, traído, fora de forma, deslocado e com uma condição peculiar: a Doença de Peyronie, que deixa o pênis torto.
Criada por Steven Conrad e com produção executiva do próprio Harbour, a produção é uma comédia sombria em sete episódios que acompanha um triângulo amoroso entre adultos lidando com o vazio da meia-idade — e que termina com um deles morto. No centro dessa espiral está Floyd Smernitch, personagem de Harbour, cuja trajetória passa por humilhação, desejo, amizade masculina e decisões moralmente ambíguas.
Mais do que um suspense sobre adultério, DTF St. Louis é uma investigação desconfortável sobre casamento, frustração e as mentiras que contamos a nós mesmos. E, segundo os próprios criadores, durante coletiva com a participação do Minha Série, o projeto passou por inúmeras versões até chegar ao formato atual, sendo um desafio criativo e de atuação para David Harbour após o final polêmico de Stranger Things.
A origem da série e as várias versões até chegar à HBO
Steven Conrad revelou que ele e Harbour passaram quatro anos desenvolvendo a ideia. Inicialmente, a dupla buscava uma história de suspense movida pelo desespero da meia-idade. “Decidimos que teríamos algo mais forte se começássemos do zero”, explicou o criador.
Nos momentos iniciais da produção, a narrativa era completamente diferente, e trazia até mesmo outro elenco. A série com Harbour teria Pedro Pascal como uma das estrelas, abordando um processo, baseado em história real, de um dentista que matou um paciente após iniciar um affair com sua esposa. No entanto, tudo mudou no meio do caminho.
A premissa de DTF St. Louis surgiu a partir da ideia de um grupo de pessoas suburbanas cujas vidas começam a desmoronar durante um verão. No meio desse caos emocional, elas se envolvem com um aplicativo de encontros voltado a casados em busca de aventuras extraconjugais — algo comum por volta de 2018, período em que a série é ambientada.
“Esses sites prometiam toda a empolgação e nenhuma consequência. Pessoas casadas podiam trair e depois voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Essa promessa nunca me pareceu estável”, afirmou Conrad. A partir daí, a série passou a explorar os erros de adultos que, ao tentar consertar falhas, criam problemas ainda maiores.
Harbour reforçou que o projeto mudou bastante ao longo do tempo. “A história passou por tantas versões diferentes. Eu gostaria de poder mostrar direções completamente distintas que exploramos. Mas acho que refinamos até chegar em algo realmente incrível, do qual tenho muito orgulho.”
Floyd é um personagem peculiar, mas bastante humano
Entre todas as versões que a série já teve, David Harbour acabou ficando com um personagem sensível e bastante único. Em DTF St. Louis, Floyd é intérprete de linguagem de sinais, vive com a esposa Carol (Linda Cardellini) e o enteado problemático. Sua vida sexual está em crise, sua autoestima também — e o envolvimento com o aplicativo que dá nome à série desencadeia uma série de eventos trágicos.
Logo no primeiro episódio, descobrimos que Floyd foi traído, está com sérios problemas por causa de sua forma física e possui uma condição rara que afeta seu órgão sexual, o que atrapalha sua vida com a esposa. Harbour destacou que o que mais o atraiu foi justamente o caráter imprevisível do personagem. “Há um momento em que ele toma uma decisão muito surpreendente. Ele age com uma generosidade inesperada, quando a maioria das pessoas não agiria assim.”
Para o ator, esse tipo de escolha ajuda a redefinir quem Floyd é. “Às vezes você lê algo no roteiro e pensa: ‘Isso não parece meu personagem’. Outras vezes, você fica curioso e pensa: ‘Talvez eu possa construir o personagem a partir dessa decisão que eu ainda não entendo’. Foi isso que tornou tudo tão interessante.”
Fisicamente, Floyd também carrega marcas do tempo. Harbour comentou que ele é um homem “grande”, com um passado em que se sentia potente de outra forma — algo que já não corresponde à sua realidade atual. Essa perda de potência, tanto simbólica quanto literal, se torna parte essencial da construção dramática.
A amizade masculina como coração emocional da trama
Embora a série seja vendida como um triângulo amoroso, Harbour concorda que a relação entre Floyd e Clark, personagem de Jason Bateman, é o verdadeiro centro emocional da história. “Espere até ver os três últimos episódios. Vocês não fazem ideia de onde essa amizade vai parar”, provocou o ator.
Harbour contou que a conexão com Bateman foi natural desde o início. “É difícil para um homem heterossexual de 50 anos fazer novos amigos. Eu sempre achei isso complicado. Mas no set houve algo muito orgânico. Eu me perguntava: ‘O que ele acha de mim nessa cena?’ e deixava isso transparecer.”
Bateman reforçou que a química foi simples porque o ambiente favorecia isso. “Em qualquer trabalho, criar conexão é uma escolha. Quando você está cercado de pessoas que não são idiotas, fica fácil”, brincou. Segundo ele, Conrad criou um espaço seguro para que o elenco explorasse as nuances mais estranhas e vulneráveis dos personagens.
Uma série única
Com tantas camadas no roteiro, Conrad e Harbour deixaram claro que DTF St. Louis não quer ser um drama tradicional, algo que ficou evidente na nossa crítica dos quatro primeiros capítulos. “No momento em que começo a sentir que algo está tentando me manipular emocionalmente, eu me afasto”, afirmou Harbour. Para ele, o prazer está justamente em nunca se sentir confortável como espectador.
Ao longo dos episódios, a narrativa alterna entre passado e presente, explorando como decisões aparentemente pequenas — criar um perfil em um aplicativo, enviar uma mensagem, aceitar um encontro — podem desencadear consequências irreversíveis.
Seguindo caminhos imprevisíveis, DTF St. Louis funciona como um estudo sobre fragilidade masculina, desejo e culpa. E, para Harbour, foi também um exercício de reinvenção. Longe do arquétipo do policial durão, Floyd é um homem patético, vulnerável e profundamente humano — e é justamente aí que está o maior desafio e a maior força da atuação.
DTF St. Louis recebe novos episódios todo domingo no HBO Max. E aí, você está assistindo à série? Comente nas redes sociais do Minha Série!