Astrofísicos preveem cenário apocalíptico com a expansão da Starlink

Anunciada na última semana, a decisão da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos de aprovar uma expansão significativa da megaconstelação Starlink ampliou o debate sobre os impactos da crescente ocupação da órbita terrestre por milhares de satélites.

A medida permitirá que a SpaceX leve internet mais rápida a áreas remotas, mas também reacende preocupações entre especialistas sobre riscos ambientais, operacionais e regulatórios decorrentes do aumento do tráfego orbital.

Em resumo:

  • FCC aprovou ampla expansão da megaconstelação Starlink, da SpaceX;
  • Benefícios incluem internet rápida para regiões rurais globalmente isoladas;
  • Astrofísicos alertam para colisões, detritos e possível Síndrome de Kessler;
  • Reentradas podem alterar atmosfera com nanopartículas metálicas persistentes perigosas;
  • Disputa global pela órbita da Terra exige regulação coordenada entre governos e empresas.
Starlink recebeu aprovação para lançar mais 7.500 satélites nos próximos anos, praticamente dobrando a constelação até 203. Crédito: Albert89/Shutterstock

O documento autoriza a SpaceX a lançar mais 7.500 satélites nos próximos anos, o que praticamente dobrará a constelação da Starlink até 2031, chegando perto de 15 mil equipamentos em operação. 

Para muitos consumidores, isso representa mais acesso à banda larga, especialmente em regiões rurais e pouco atendidas. No entanto, astrofísicos e pesquisadores alertam que o aumento acelerado de satélites em órbita baixa pode trazer consequências duradouras para a atmosfera, o espaço próximo à Terra e a comunicação global.

Ritmo de expansão preocupa especialistas

Jonathan McDowell, astrofísico conhecido mundialmente pelo monitoramento de lançamentos orbitais, explica que a FCC adotou um tom relativamente mais cauteloso, aprovando apenas metade do pedido original da SpaceX. “Fico satisfeito em ver que a FCC não disse simplesmente: ‘Podem ter quantos quiserem’”, disse o especialista ao site Cnet. Mesmo assim, reforça que o ritmo de expansão continua preocupante diante da falta de regras internacionais claras. Ele ressalta ainda que o cenário envolve não apenas a Starlink, mas futuros projetos privados e estatais. Projeções que apontam para mais de 100 mil satélites em operação ilustram a dimensão do desafio.

Hoje, cerca de 40 mil objetos são rastreados em órbita por redes como as da NASA e da Agência Espacial Europeia (ESA). No entanto, estima-se que mais de 1,2 milhão de fragmentos menores podem causar danos críticos a satélites ativos. O problema não está apenas nos grandes objetos conhecidos, mas principalmente em detritos com menos de 10 centímetros, que dificilmente são rastreados e podem se multiplicar com colisões.

Representação artística da megaconstelação de satélites Starlink na órbita da Terra, que já atingiu 10 mil unidades. Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

Do ponto de vista regulatório, a FCC celebra sua decisão alegando que ela fortalece a competitividade tecnológica dos Estados Unidos e torna mais acessíveis os serviços de internet via satélite. A agência destaca que a expansão da Starlink ajudará áreas isoladas a obter conectividade de alta velocidade, incluindo velocidades simétricas de download e upload. Também autoriza a SpaceX a operar satélites em órbitas mais baixas, com o objetivo de reduzir atrasos de transmissão, um ponto crítico para consumidores.

“Castelo de cartas orbital” pode desmoronar a qualquer momento

Esse cenário de competição por espaço orbital aumenta o temor da chamada Síndrome de Kessler, hipótese segundo a qual colisões sucessivas entre satélites e detritos poderiam congestionar as órbitas baixas e torná-las inutilizáveis. Relatórios recentes compararam esse ambiente a um “castelo de cartas orbital”, sensível a falhas técnicas e eventos solares. Estudos sugerem que, diante de uma perda de controle operacional, uma colisão catastrófica poderia ocorrer em questão de poucos dias.

Para lidar com esses riscos, a Starlink emprega manobras automáticas que reposicionam os satélites diante de ameaças de colisão, acionadas sempre que a probabilidade de impacto atinge três em 10 milhões. Chama atenção o fato de mais de 144 mil manobras terem sido realizadas em apenas seis meses. Esse volume crescente tem efeitos contraditórios: melhora a segurança no curto prazo, mas complica a previsão de rota para outros operadores.

Representação artística da Síndrome de Kessler. Crédito: Gerador de imagens IA/Shutterstock

Além do perigo físico, há efeitos atmosféricos ainda pouco compreendidos. Os satélites da Starlink têm vida útil aproximada de cinco anos. Ao fim desse período, são desorbitados para queimarem na atmosfera. Pesquisadores suspeitam que a queima de milhares de estruturas metálicas pode alterar a composição da estratosfera. 

Um estudo financiado pela NASA em 2024 mostrou que a reentrada de um satélite de 250 kg libera cerca de 30 kg de nanopartículas de óxido de alumínio. Entre 2016 e 2022, a concentração desses óxidos aumentou oito vezes. Como os satélites de segunda geração da Starlink pesam mais de 800 kg, o volume de resíduos tende a crescer.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) coletou amostras em 2023 e constatou que cerca de 10% dos detritos particulados na estratosfera tinham origem em foguetes e satélites. A estimativa é que esse percentual possa chegar a 50% conforme mais constelações privadas e estatais forem lançadas. Os possíveis impactos climáticos ainda são objeto de pesquisa, mas cientistas concordam que a tendência é de mudança estrutural no ambiente atmosférico.

Outro fator pouco mencionado na decisão da FCC diz respeito a tempestades solares. A SpaceX pretende operar parte de sua constelação em altitudes em torno de apenas 340 km, o que aumenta a vulnerabilidade a eventos solares capazes de causar arrasto atmosférico e degradação de equipamentos. Pesquisadores da Universidade da Califórnia alertam que tempestades solares podem forçar satélites a realizarem ajustes consecutivos por dias, afetando a estabilidade da rede e aumentando a chance de erros operacionais.

Representação artística elaborada de uma migração em massa de satélites provocada por uma tempestade geomagnética severa. Crédito: Flavia Correia via DALL-E/Olhar Digital

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Satélites da Starlink não são o único problema

Apesar das preocupações, especialistas reconhecem que redes como a Starlink trazem benefícios concretos. Para muitas comunidades rurais, a tecnologia representa uma revolução. A FCC e outros órgãos federais já classificaram o acesso à banda larga como um “superdeterminante” de saúde e bem-estar, influenciando educação, emprego e acesso a serviços públicos. Usuários relatam ganhos significativos de qualidade de vida, descrevendo o sistema como a primeira conexão estável de que dispõem.

McDowell alerta que o problema não é exclusivamente com a SpaceX. Segundo ele, a China enviou à União Internacional de Telecomunicações um pedido de registro para mais de 200 mil satélites. Se concretizado, o número superaria em larga escala qualquer projeto ocidental. 

Receptor Amazon Leo, o serviço de internet via satélite de Amazon. Crédito: Divulgação/Amazon

Além disso, a Amazon também avança com o Amazon Leo (antigo Projeto Kuiper), que prevê mais de 3 mil satélites. Há ainda a expectativa pela TeraWave, rede recém-anunciada pela Blue Origin, que deve ser composta por mais de 5,4 mil espaçonaves. 

O debate central não é impedir tais constelações, mas garantir que o crescimento seja regulado e coordenado. O desafio, portanto, é equilibrar três interesses simultâneos: ampliar o acesso digital, preservar a segurança espacial e entender os impactos ambientais de uma atmosfera cada vez mais artificial. 

Para os pesquisadores, o momento atual funciona como um teste histórico. Embora os satélites orbitem muito acima das cidades, seus efeitos são sentidos aqui embaixo, em temas que envolvem segurança, meio ambiente e regulação.

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