Um artigo publicado na segunda-feira (16) na revista Frontiers in Microbiology revela a descoberta de uma bactéria que ficou preservada por cerca de cinco mil anos em uma caverna de gelo na Romênia e, mesmo assim, já apresenta resistência a 10 antibióticos usados atualmente na medicina.
Bactérias são organismos capazes de se adaptar a ambientes extremos, como desertos escaldantes e regiões congeladas. Cavernas de gelo subterrâneas estão entre esses locais inóspitos e abrigam microrganismos pouco estudados. Esses ambientes funcionam como verdadeiros cofres naturais, preservando formas de vida antigas e seu material genético ao longo de milhares de anos.
Em resumo:
- Bactéria milenar preservada no gelo já resiste a antibióticos atuais;
- Cepa isolada na Romênia carrega mais de 100 genes;
- Resistência pode ser fenômeno natural anterior aos antibióticos modernos;
- Testes mostraram resistência a 10 medicamentos amplamente utilizados;
- Degelo pode liberar genes resistentes e agravar riscos globais.
Bactéria tem mais de 100 genes ligados à resistência a antibióticos
A cepa analisada, chamada Psychrobacter SC65A.3, foi isolada da Caverna de Gelo de Scărișoara. Segundo a pesquisadora Cristina Purcarea, do Instituto de Biologia de Bucareste, a bactéria carrega mais de 100 genes ligados à resistência a antibióticos e mesmo tendo origem milenar, suporta medicamentos amplamente utilizados na prática clínica atual.
O estudo indica que a resistência a antibióticos pode ser um fenômeno natural, anterior à descoberta desses remédios no século XX. Isso significa que, na natureza, microrganismos já desenvolviam mecanismos de defesa contra substâncias semelhantes a antibióticos produzidas por outros micróbios. Assim, a pesquisa ajuda a entender como essa resistência evolui e se espalha ao longo do tempo.
Para chegar aos resultados, os cientistas extraíram um núcleo de gelo de 25 metros de profundidade na área conhecida como Grande Salão da caverna. O material representa camadas formadas ao longo de aproximadamente 13 mil anos. Para evitar contaminação, os fragmentos foram armazenados em sacos estéreis e mantidos congelados até chegarem ao laboratório.
No laboratório, diferentes cepas bacterianas foram isoladas e tiveram seus genomas sequenciados. O objetivo era identificar genes relacionados à sobrevivência em baixas temperaturas e à resistência a antibióticos. A equipe testou a bactéria contra 28 antibióticos de 10 classes distintas, incluindo medicamentos usados rotineiramente ou reservados para casos graves.
A cepa demonstrou resistência a 10 desses antibióticos, entre eles rifampicina, vancomicina e ciprofloxacina, que são remédios usados no tratamento de doenças como tuberculose, infecções urinárias e colites. O resultado reforça a preocupação global com a eficácia dos antibióticos, já que a resistência é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública.
Os pesquisadores também identificaram resistência a trimetoprima, clindamicina e metronidazol, fato inédito em bactérias do gênero Psychrobacter. Esses medicamentos são utilizados contra infecções urinárias, pulmonares, de pele, sanguíneas e do sistema reprodutivo. A descoberta sugere que microrganismos de ambientes frios podem funcionar como reservatórios naturais de genes de resistência.
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Propriedades podem ajudar a criar novos medicamentos
Apesar do possível risco, a bactéria também apresentou características promissoras. Ela demonstrou capacidade de inibir o crescimento de superbactérias resistentes e revelou atividades enzimáticas com potencial aplicação na biotecnologia. No genoma, foram encontrados quase 600 genes com funções ainda desconhecidas, indicando um campo amplo para futuras pesquisas.
Além disso, os cientistas identificaram 11 genes com potencial para bloquear ou eliminar outras bactérias, fungos e vírus. Essas propriedades podem inspirar o desenvolvimento de novos antibióticos e enzimas industriais. Em um cenário de aumento da resistência bacteriana, explorar microrganismos antigos pode abrir caminhos para soluções inovadoras.
Os especialistas alertam, porém, que o degelo causado pelas mudanças climáticas pode liberar microrganismos preservados no gelo. Caso esses genes de resistência se espalhem para bactérias modernas, o desafio no combate a infecções pode se tornar ainda maior. Por isso, o manuseio dessas amostras exige rigorosos protocolos de segurança.
O estudo destaca que a natureza desempenha papel fundamental na origem e na disseminação da resistência aos antibióticos. Compreender esses processos em microrganismos ancestrais ajuda a antecipar riscos e a desenvolver novas estratégias terapêuticas. Ao mesmo tempo, reforça a importância de preservar ambientes naturais e investir em pesquisa científica responsável.
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