Apesar de todos os avanços, milhares de pessoas não têm o que comer no mundo. No Brasil, a situação vem melhorando. No final de julho, voltamos a sair do Mapa da Fome, ferramenta da Organização das Nações Unidas (ONU) que identifica os níveis de insegurança alimentar e subnutrição.
Apesar de ser algo positivo, isso não significa que o problema está resolvido. Em artigo publicado no portal The Conversation, pesquisadoras defendem que apenas a valorização da biodiversidade brasileira pode ampliar a disponibilidade de alimentos no país.
Diferença entre insegurança alimentar e subnutrição
- A insegurança alimentar capta a percepção das famílias sobre acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas.
- Trata-se, portanto, de um indicador mais subjetivo, baseado nas respostas das pessoas a questionários, e que, além da quantidade, também engloba a qualidade dos alimentos que compõem o prato dos brasileiros.
- Já a subnutrição é um indicador objetivo que mede a proporção da população cujo consumo habitual de calorias é inferior ao mínimo necessário para manter uma vida ativa e saudável.
- Ela não se baseia em entrevistas, mas em cálculos realizados por agências internacionais a partir de dados demográficos e do balanço de produção e comércio de alimentos de cada país.
- Lembrando que o acesso aos alimentos e aos meios para obtê-los, como renda ou terra, é um direito de todos.
- Por isso, a saída do Brasil do Mapa da Fome é o cumprimento de um direito fundamental.
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Importância da biodiversidade brasileira
Segundo as pesquisadoras Marina Maintinguer Norde, Fernanda Gomes Ferreira Teixeira e Jaqueline Lopes Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), e Mariana Ceci, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a biodiversidade na produção de alimentos desempenha um papel essencial para a segurança alimentar. Isso porque ela garante a resiliência das produções e maior diversidade de alimentos disponíveis.
Ela contribui para a fertilidade, a estrutura, a qualidade e a saúde do solo; garante a polinização das lavouras; e auxilia no controle de pragas. Também promove a melhoria da qualidade da dieta, eleva a produção agrícola e os rendimentos futuros, possibilita o desenvolvimento de novas culturas e preserva a produtividade de ecossistemas marinhos. A variedade genética fortalece a adaptação dos sistemas agroalimentares frente a ameaças como patógenos e mudanças climáticas.
Artigo publicado no The Conversation
Em última instância, a diversidade de alimentos in natura e minimamente processados disponíveis no mercado interno também influencia diretamente as escolhas alimentares da população. Uma alimentação mais diversa pode ser uma aliada para mitigar questões complexas e atuais, como a obesidade, cujo avanço global tem sido motivo de preocupação.
Pesquisas mostram que, no Brasil, a rica biodiversidade da produção alimentar não se reflete nos padrões de consumo da população. Essa diversidade inclui, por exemplo, o aproveitamento de cogumelos, carnes de caça e plantas alimentícias não convencionais. Um estudo de Sávio Marcelino Gomes e colaboradores, publicado em 2023 na Scientific Reports, aponta que apenas 1 em cada 100 brasileiros consome regularmente alimentos biodiversos. O dado evidencia um descompasso entre a abundância de recursos naturais do país e o que, de fato, chega ao prato dos brasileiros.
Artigo publicado no The Conversation
As pesquisadoras ainda afirmam que os sistemas alimentares, que abrangem todas as etapas, processos e atores do plantio ao preparo, consumo e descarte dos alimentos, são responsáveis por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Para elas, repensar esses modelos, com foco na diversidade e na sustentabilidade, é fundamental como forma de garantir a produção de alimentos nas próximas décadas.
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