Brasileiro é premiado na Alemanha por pesquisa com IA

Um pesquisador brasileiro foi reconhecido na Alemanha por estudos que utilizam inteligência artificial (IA) no diagnóstico de transtornos mentais. Francisco Rodrigues, da Universidade de São Paulo (USP), lidera pesquisas que indicam que métodos baseados em algoritmos podem identificar condições psiquiátricas com mais de 90% de acerto, a partir de exames laboratoriais.

Os resultados foram publicados em revistas científicas como Nature e PLOS One. Nos testes, imagens de ressonância magnética serviram para gerar dados e treinar um sistema capaz de apontar alterações cerebrais associadas a transtornos como epilepsia, autismo e esquizofrenia. Segundo o pesquisador, a tecnologia permite mapear regiões afetadas e relacionar essas mudanças a cada condição específica.

“Conseguimos identificar quais regiões foram alteradas em uma pessoa com epilepsia, autismo ou esquizofrenia, por exemplo, e entender quais alterações estão relacionadas com aquele transtorno”, afirma Rodrigues.

Pesquisador da USP ganhou prêmio na Alemanha por seu trabalho com IA e transtornos mentais (Imagem: USP / Divulgação)

Pesquisa conduzida por brasileiro coloca IA no apoio ao diagnóstico

Atualmente, o diagnóstico de transtornos mentais é feito com base na análise do histórico do paciente e na aplicação de testes clínicos. Não há um marcador biológico definido, como ocorre em doenças como o diabetes. De acordo com Rodrigues, a proposta é que, no futuro, um exame cerebral possa indicar a presença de depressão ou outras condições.

A técnica ainda está em estágio inicial e pode auxiliar psicólogos e psiquiatras, especialmente em casos com sintomas semelhantes ou em fases precoces das doenças. “Hoje com o procedimento tradicional, o psiquiatra não vai conseguir identificar se você vai desenvolver esquizofrenia daqui a dez anos, esse é o ponto”, explica.

A ideia da pesquisa é que futuramente, transtornos mentais possam ser diagnosticados a partir de exames cerebrais (Imagem: New Africa / Shutterstock.com)

Dados do Censo de 2022 apontam que ao menos 2,4 milhões de brasileiros foram diagnosticados com transtorno do espectro autista (TEA). Outros 1,6 milhão de pessoas entre 15 e 44 anos têm esquizofrenia, e 1,7 milhão acima de 60 anos convivem com algum tipo de demência, como Alzheimer e Parkinson.

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Desafios na coleta de dados e prêmio na Alemanha

As análises conduzidas em São Paulo utilizam imagens de ressonância magnética e eletroencefalograma (EEG) de pacientes saudáveis e diagnosticados com transtornos. Esses dados são inseridos em sistemas de aprendizagem de máquina. No entanto, a coleta enfrenta obstáculos: exames de EEG podem ser imprecisos, e a ressonância exige que o paciente permaneça imóvel por mais de 40 minutos, o que limita o número de participantes.

Para ampliar a base de dados, Rodrigues também utilizou informações de exames realizados nos Estados Unidos. Segundo ele, quanto maior o volume de dados, maior a precisão do algoritmo.

Em janeiro deste ano, o pesquisador foi um dos 20 cientistas premiados com o Friedrich Wilhelm Bessel, concedido pela fundação alemã Alexander von Humboldt. O reconhecimento inclui 60 mil euros (cerca de R$ 370 mil) destinados a pesquisadores estrangeiros com impacto científico em suas áreas.

Pesquisador brasileiro pretende trabalhar com dados obtidos por meio de minicérebros na Alemanha (Imagem: Andrii Shyp/iStock)

Na Alemanha, o pesquisador brasileiro pretende trabalhar com dados obtidos por meio de minicérebros, organoides formados a partir de células do córtex cerebral de embriões de animais. Esses modelos crescem em placas e têm sua atividade neuronal captada por chips, gerando sinais elétricos que alimentam os estudos. Apesar disso, os organoides não reproduzem toda a complexidade do cérebro humano.

Formado em Física pela USP, Rodrigues mantém relação acadêmica com a Alemanha desde 2006, quando foi aluno visitante do Instituto Max Planck. Em 2011, iniciou colaboração com a professora Cristiane Thielemann, da Universidade de Ciências Aplicadas de Aschaffenburg, que o indicou ao prêmio.

Até o fim de 2026, ele seguirá para Frankfurt, onde permanecerá por um ano desenvolvendo a pesquisa e ministrando cursos sobre sistemas complexos e aprendizagem de máquina na Fundação Humboldt. A previsão é que um método geral de diagnóstico automatizado esteja disponível em cerca de dez anos, considerando também a necessidade de aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

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