Entramos em 2026 com a sensação de que este não seria um ano muito movimentado para a astronomia no Brasil. Nada de eclipses totais espetaculares visíveis por aqui, nenhuma chuva de meteoros fora da curva, nenhum objeto interestelar para ser confundido com nave alienígena. Mas se você achou que 2026 seria um marasmo astronômico, achou errado! Bastaram duas semanas para nossas definições do ano serem atualizadas! A descoberta do cometa C/2026 A1 pelo projeto MAPS chamou a atenção da comunidade astronômica e trouxe de volta um dilema clássico que sempre surge junto com uma descoberta como essa: estamos diante de um possível cometa do século ou de mais um candidato a fiasco do ano?

Se isso lhe pareceu meio dramático, é porque é mesmo. Cometas são objetos bastante imprevisíveis. Diferente dos planetas, que brilham de forma estável, ou dos eclipses, que obedecem a ciclos precisos, o brilho dos cometas depende de uma combinação delicada entre composição, estrutura interna e trajetória orbital. Alguns se transformam em espetáculos inesquecíveis; outros são como aquele crush que te convida para sair, cria o maior clima, mas na hora do encontro… nem aparece. Cometas como o C/2026 A1 podem simplesmente se desintegrar e desaparecer para sempre, antes mesmo da “festa” começar.
Isso porque ele é um tipo de cometa chamado de “sungrazer”, ou “rasante do Sol”. Esses cometas mergulham em direção à nossa estrela, passando excessivamente próximos, sendo submetidos ao calor extremo e a forças de maré tão intensas que podem destroçar completamente o cometa. Entretanto, se ele sobreviver a esse mergulho infernal, pode se tornar tão brilhante que seria visível até mesmo à luz do dia. Seria um espetáculo memorável, que há muito não vemos.
O Cometa MAPS se mostrou interessante assim que foi descoberto em 13 de janeiro pelo programa de busca amador MAPS (as iniciais dos nomes dos astrônomos Maury, Attard, Parrott, Signoret). Objetos com trajetórias tão rasantes geralmente só são detectados quando já estão próximos demais e muitas vezes, só são vistos por telescópios solares. Mas este foi descoberto quando ainda estava distante do Sol, quase quatro meses antes do periélio, sua maior aproximação da estrela. Essa antecedência abre uma oportunidade científica única: acompanhar em tempo real a evolução de um cometa rasante do Sol.

Os cálculos orbitais indicam que o C/2026 A1 fará uma passagem extremamente próxima ao Sol, algo em torno de 160 mil quilômetros da superfície. Nesse tipo de encontro, o aumento brutal da radiação solar provoca uma atividade intensa no núcleo cometário. Seus gelos começam a sublimar violentamente, liberando gás e poeira que formam a coma e as caudas. Ao mesmo tempo, o aquecimento desigual pode gerar fraturas internas, enquanto a gravidade descomunal do Sol ameaça transformar o cometa em “farofa espacial”. Um verdadeiro teste de resistência cósmica em que muitos não passam.
A órbita extremamente alongada, inclinada e com uma passagem tão próxima do Sol, sugere que o C/2026 A1 pertence à chamada Família de Kreutz, um grupo de cometas com órbitas quase idênticas originadas de um único cometa, gigantesco, que se partiu ao se aproximar do Sol há 2500 anos. Essa família leva o nome do astrônomo Heinrich Kreutz, que demonstrou a semelhança das órbitas de vários grandes cometas históricos.
Os membros dessa família são caracterizados principalmente por suas aproximações extremas do Sol. Alguns produziram espetáculos memoráveis, como o Grande Cometa de 1843 e o extraordinário Ikeya-Seki em 1965, que chegou a ser visível durante o dia próximo ao Sol. Observações feitas por telescópios solares, como o SOHO, mostram que pequenos fragmentos desse antigo cometa progenitor continuam mergulhando em direção ao Sol com frequência surpreendente, muitos deles destruídos completamente durante a passagem.
Ainda que não possamos contar com o imponderável, as expectativas para este cometa são enormes. Alguns astrônomos calculam que, na sua máxima aproximação do Sol, que deve ocorrer em 4 de abril, o C/2026 A1 pode atingir um brilho 200 vezes maior que o de Vênus. Mas é preciso ter cautela, mesmo com as expectativas mais otimistas. Isso porque os mesmos cálculos mostram que ele só deve brilhar nessa intensidade por algumas horas, no momento em que estará muito próximo ao Sol, o que o tornaria muito difícil de observar.
A esperança de um espetáculo celeste se baseia na pequena possibilidade dele sobreviver a essa passagem periélica. Se seu núcleo permanecer coeso, mas liberando grandes quantidades de gás e poeira, poderemos ter potencialmente um dos cometas mais brilhantes do último século se exibindo nos céus do hemisfério Sul. Aqui no Brasil, o cometa deve aparecer no horizonte oeste pouco após o pôr do Sol. Uma condição extremamente favorável, claro, se ele não virar vapor ao se aproximar do Astro Rei.

Para os cientistas, a descoberta precoce já lhes permite monitorar algo que raramente conseguimos observar com tanta clareza: a evolução gradual da atividade em cometas da família de Kreutz. Astrônomos poderão acompanhar quando surgem os primeiros jatos, como a estrutura da cauda muda, se ocorrem explosões súbitas de brilho e se há sinais de fragmentação antes do periélio. Para os astrônomos amadores, é uma oportunidade rara de participar ativamente do acompanhamento de um objeto potencialmente histórico.
Mas talvez o aspecto mais fascinante seja justamente a incerteza. O destino do C/2026 A1 ainda não está escrito. Ele pode desaparecer antes mesmo de se tornar visível a olho nu, pode se fragmentar em múltiplos pedaços ou pode emergir do encontro solar como um dos grandes cometas do século. Parece sensacionalismo, mas é simplesmente a natureza desses objetos frágeis, imprevisíveis e, por vezes, espetaculares.
Se no início do ano parecia que 2026 seria calmo para os astrônomos brasileiros, agora sabemos que quando um visitante gelado, vindo dos confins do Sistema Solar, decide “tomar um solzinho” por essas bandas, tudo pode mudar. Agora, só precisamos acompanhar, com curiosidade e cautela, para descobrir se o C/2026 A1 MAPS será um dos grandes cometas da história, ou apenas mais um nome na longa lista de cometas que nos convidaram para o baile e nos deram bolo.
O post Cometa MAPS: a surpresa de 2026 que pode brilhar mais que as estrelas (ou desaparecer no Sol) apareceu primeiro em Olhar Digital.
