A guerra no Oriente Médio abriu uma nova fase para a indústria de tecnologia dos Estados Unidos: o momento em que apostas de anos em defesa começaram a se converter em contratos e reconhecimento. Sistemas de inteligência artificial (IA) da Anthropic, plataformas de análise de dados da Palantir e drones de startups americanas estão sendo usados ativamente pelo exército dos Estados Unidos no conflito. Para empresas que enfrentaram resistência interna e ceticismo externo por anos, o cenário atual representa uma virada.
Como mostra uma reportagem do The New York Times, as apostas no setor de defesa vinham crescendo desde a última década, mas sem recompensas imediatas claras. Engenheiros do Vale do Silício se opunham ao uso de tecnologias poderosas em contextos militares, e o mercado ainda não havia dado sinais definitivos de que o investimento valeria a pena. Agora, com empresas como Google, Palantir e OpenAI no centro do esforço de guerra americano, o setor colhe os frutos de uma aposta que muitos consideravam arriscada.

O projeto que analisa alvos em tempo real
No coração dessa integração está o Projeto Maven, um sistema construído pela Palantir para o Pentágono. Ele combina a plataforma de dados da Palantir com a IA da Anthropic para analisar informações em tempo real sobre batalhas. Enquanto a Anthropic processa dados sobre o que está acontecendo no campo de conflito, a Palantir cruza essas informações para indicar alvos a serem atacados.
Nos quatro primeiros dias da guerra, mais de 2.000 alvos no Irã foram atingidos. Muitos foram selecionados a partir de listas geradas pelo Maven depois que o sistema analisou informações coletadas por drones, imagens de satélite e outras fontes. O CEO da Palantir, Alex Karp, afirmou em entrevista à CNBC que a IA está dando vantagem às forças americanas. As ações da empresa subiram mais de 12% desde o início do conflito.
Contratos bilionários e novas parcerias
O mês também marcou outros movimentos significativos. Sam Altman, CEO da OpenAI, concordou em levar os sistemas de IA da empresa às redes classificadas do Pentágono. O Google fechou um acordo para integrar agentes de IA ao Departamento de Defesa. O Exército anunciou um contrato de US$ 20 bilhões com a Anduril, empresa de tecnologia de defesa, para software baseado em IA destinado a sistemas militares.
Em janeiro, a Andreessen Horowitz, firma de capital de risco fundada por Marc Andreessen e Ben Horowitz, encerrou um novo fundo de quase US$ 1,2 bilhão voltado a tecnologias de defesa. O movimento reflete uma tendência que vem ganhando força: startups que desenvolveram protótipos de armas antes mesmo de ter contratos governamentais formais, apostando que a demanda viria.
Drones americanos inspirados no modelo iraniano
Entre as tecnologias implantadas no conflito estão os drones LUCAS, fabricados pela SpektreWorks, uma startup sediada em Phoenix, no Arizona. Os dispositivos imitam os drones Shahed do Irã e são projetados para voos unidirecionais, sobrecarregando escudos de defesa antimíssil. Um oficial americano disse que eles têm sido eficazes no tipo de guerra de drones que ganhou popularidade na Ucrânia.
O Comando Central dos EUA divulgou imagens de fileiras dos drones sendo preparados para envio às forças americanas. O almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central, comentou a ironia da situação: as aeronaves tinham origem iraniana, mas foram redesenhadas e aperfeiçoadas pelos americanos.

Outro sistema em uso é o Merops, desenvolvido como projeto independente pelo ex-CEO do Google Eric Schmidt. O equipamento utiliza IA para interceptar drones inimigos antes que cheguem aos seus alvos e é pequeno o suficiente para ser lançado de uma picape.
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Euforia e alertas
Militares e executivos comemoram os resultados. O general aposentado Jack Shanahan, que liderou os esforços de adoção de IA no Pentágono durante o governo Biden, afirmou que a guerra acelerará a incorporação de novas tecnologias. Ele prevê que, na próxima década, sistemas legados e modernos serão integrados com IA mais poderosa. “Não me surpreenderia se isso fosse chamado de a primeira guerra de IA da América”, disse Shanahan.
Mas há vozes de cautela. Amos Toh, conselheiro sênior do Brennan Center for Justice, organização sem fins lucrativos de Nova York voltada a direito e políticas públicas, alertou que o entusiasmo pode resultar em pouca supervisão dos novos sistemas e dependência excessiva de um número reduzido de empresas de tecnologia. O governo e o exército precisam avaliar as dependências que estão criando, segundo ele.
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