O empresário Sérgio Nahas foi detido no fim de semana na Bahia após ser identificado por um sistema de reconhecimento facial usado pela polícia do estado. A abordagem ocorreu depois que câmeras instaladas em áreas monitoradas apontaram uma correspondência entre o rosto do suspeito e registros presentes em bancos oficiais de mandados de prisão.
O caso reacendeu o debate sobre como essa tecnologia funciona na prática, quais bases de dados são utilizadas e quais são os limites e críticas em torno do uso de inteligência artificial em espaços públicos.

Como funciona o reconhecimento facial na Bahia
O Governo da Bahia instalou câmeras em locais estratégicos do estado, incluindo pontos da capital, da região metropolitana de Salvador e de cidades do interior. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o sistema está presente em mais de 80 municípios e é usado com frequência em grandes eventos, além de áreas consideradas sensíveis.
As câmeras captam imagens ao vivo e o software analisa os pontos faciais das pessoas que passam pelo campo de visão. Esses dados são comparados com uma lista de pessoas procuradas pela Justiça. Quando o nível de correspondência atinge um patamar definido pelo sistema, um alerta é enviado às forças policiais, que podem abordar a pessoa para verificação.

Integração com o Banco Nacional de Mandados de Prisão
A tecnologia adotada na Bahia é integrada ao Banco Nacional de Mandados de Prisão, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Essa base reúne registros de pessoas com mandados expedidos em todo o país, incluindo casos provisórios, condenações, foragidos e outras medidas penais, como restrições de deslocamento.
Na prática, isso significa que o sistema não depende apenas de um banco local. A consulta é feita em uma base nacional, ampliando o alcance das buscas e a possibilidade de identificar pessoas com pendências judiciais em diferentes estados.
Leitura de placas e checagem de veículos
Além do reconhecimento facial, as câmeras também são usadas para identificar placas de veículos. Algoritmos combinam OCR (reconhecimento óptico de caracteres) com inteligência artificial para ler as combinações alfanuméricas.
Depois da leitura, o sistema faz uma checagem automática para verificar se o carro foi furtado ou roubado, permitindo que a polícia seja acionada em caso de irregularidade.
Resultados divulgados pelo governo
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, o uso do sistema resultou na localização de mais de 2 mil foragidos em 2025. Já em 2026, até o dia 20 de janeiro, o órgão afirma que 80 pessoas foram presas com apoio da tecnologia.
Os números são apresentados como um dos principais indicadores de eficácia do programa, especialmente em operações realizadas durante grandes eventos e em áreas de grande circulação.
Uso em outras cidades brasileiras
A Bahia não é a única a adotar esse tipo de monitoramento. Grandes cidades brasileiras também contam com sistemas semelhantes em áreas públicas.
Em São Paulo, a prefeitura administra o Smart Sampa, que integra câmeras e bancos de dados para auxiliar ações de segurança. Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza e Manaus também utilizam plataformas de reconhecimento facial e leitura de placas em seus centros urbanos.
Críticas e questionamentos de especialistas
Organizações e especialistas em tecnologia e direitos digitais apontam que a tecnologia pode apresentar maior taxa de erro ao identificar pessoas de pele escura. Segundo essas entidades, muitos sistemas são treinados majoritariamente com imagens de pessoas de pele branca, o que pode aumentar a ocorrência de falsos positivos e abordagens indevidas.
Outro ponto levantado é a falta de transparência. Embora governos divulguem prisões associadas ao uso da ferramenta, há poucas informações públicas sobre o nível de precisão dos sistemas e sobre quantas pessoas acabam sendo abordadas por engano.
Também há críticas sobre a implementação sem consulta popular e a ausência de relatórios de impacto. Para essas organizações, faltam detalhes sobre a governança dos dados, incluindo quais limites existem para o uso das informações coletadas e se o monitoramento pode ser empregado para outros fins além da segurança pública.
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Relembre o caso Sérgio Nahas
O empresário Sérgio Nahas foi condenado pela morte da esposa, a estilista Fernanda Orfali, ocorrida em 2002, em um apartamento do casal no bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo. Na época, Nahas afirmou que a vítima teria cometido suicídio, versão que foi contestada pela família e por investigações posteriores. A estilista foi encontrada no closet do quarto, com um tiro no peito, poucos meses após o casamento, que havia durado cerca de seis meses.

O processo judicial se estendeu por mais de duas décadas, marcado por recursos e reviravoltas. Em 2018, o primeiro julgamento resultou em condenação a sete anos em regime semiaberto, mas a decisão foi questionada pela defesa.
Recentemente, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o cumprimento de uma pena de 8 anos e 2 meses em regime fechado, com a expedição de mandado de prisão definitivo. Após a ordem judicial, Nahas passou a ser considerado foragido e acabou localizado e preso na Bahia, o que levou à sua inclusão em bases nacionais de busca usadas por sistemas de monitoramento e reconhecimento facial.
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