A forma como a temporada de premiações acontece é curiosa. Assim como a maioria de seus filmes, Chloé Zhao chegou de maneira discreta, sem manobras de marketing extraordinárias e grandes cenas de ação, diretamente para o palco do Globo de Ouro 2026. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet saiu da cerimônia com dois dos maiores prêmios da noite: Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz em Filme de Drama. E não é pra menos: o filme sobre a família de Shakespeare emociona ao contar uma história menos conhecida sobre o famoso poeta inglês.
A diretora, roteirista e editora do filme, Chloé Zhao, trata temas extremamente sensíveis como luto, arte e família com a delicadeza e profundidade que eles merecem. O filme passa a impressão de ter cada encaixe pensado detalhadamente, cada plano, cada som e cada fala tem um propósito no todo. Mas afinal, essa é uma história tão interessante assim para ser contada e premiada? Confira abaixo a crítica completa.
Quem foi Hamnet e qual a sua ligação com Hamlet?
Vamos começar pelo começo: Zhao escolheu contar essa história com base no livro Hamnet, de Maggie O’Farrell, com quem escreveu o roteiro do filme. O’Farrell é uma romancista e seu livro, embora baseado na história pessoal de William Shakespeare, é uma ficção. Ainda assim, a escritora fez uma pesquisa e juntou tudo que é conhecido sobre Agnes (ou Anne), a protagonista. Porém, a informação sobre a esposa do poeta é escassa.
O que é fato: Hamnet, único filho homem do casal, morreu em 1596 com 11 anos. Ele foi sepultado no dia 11 de agosto e é quase certo que Shakespeare, que estava em viagem com sua companhia de teatro, não conseguiu regressar à sua cidade de Stratford, na Inglaterra, a tempo para o funeral. Cerca de quatro anos depois, Shakespeare escreveu Hamlet.
A causa da morte, o motivo do casamento de Shakespeare e até o nome de Agnes são incertos. À BBC, a autora comentou: “Na verdade, só nos foi oferecida uma única narrativa sobre ela. E os biógrafos, em sua maioria, simplesmente a aceitaram, de que ela era uma camponesa analfabeta, que armou uma cilada para se casar com ele e que ele a odiava e fugiu para Londres, para se afastar dela.”
O pai da mulher a deixou um dote em testamento, chamando-a de Agnes, e isso foi o suficiente para O’Farrell: “Se alguém conhecia seu nome, era seu pai”, pensou ela. “Achei realmente emblemático que, além de tudo o mais, não sabemos direito nem mesmo como ela se chamava.”
A mitologia e literatura como complemento
Hamnet é um filme rodeado por arte do início ao fim. Além da narrativa trazer a história do grande poeta do século XVI, ela também é complementada por crenças da época e até mitologia, com um paralelo forte com o mito de Orfeu e Eurídice, além de planos que poderiam facilmente ser quadros.
A diretora também já falou em entrevista ao Cinemablend sobre o cuidado com as cores no filme. A constância na paleta de cores dos personagens é notável e se encaixa perfeitamente com a construção da protagonista ao longo do filme. Sendo o azul, utilizado por Shakespeare, uma referência ao intelecto, e o vermelho, de Agnes, às raízes e ao coração.
Paul Mescal dá vida a um Shakespeare apaixonado mas complexo em suas emoções, como o ser humano deve ser, mas quem brilha mesmo durante todo filme é a atriz principal, Jessie Buckley.
Outro recurso utilizado pela diretora que auxilia muito na imersão das cenas é a ambientação sonora. Nos momentos em que não há diálogo, o som acalma e não permite que você saia daquela história. Não que o roteiro precise desse cuidado, já que a história por si só já envolve bastante, mas os esforços deixam a obra a mais completa possível.
Narrativa clara mas sensível
Apesar do dialeto shakespeariano não ser para todo mundo, o longa consegue absorver a poesia de forma natural. A narrativa não chega a ser complicada em momento algum, mas permanece interessante por meio de cenas subjetivas que representam e embelezam alguns dos principais acontecimentos do filme.
O roteiro se torna ainda mais impressionante por meio das atuações. Paul Mescal dá vida a um Shakespeare apaixonado mas complexo em suas emoções, como o ser humano deve ser, mas quem brilha mesmo durante todo filme é a atriz principal, Jessie Buckley. A Agnes de Buckley nos guia pelo filme com uma performance repleta de amor em todas as suas formas. É difícil não sentir cada sentimento explorado pelos dois.
Além do amor romântico entre os protagonistas, o filme apresenta o amor entre irmãos em diversas oportunidades, levando ao momento que mais me tocou em toda a história. A cena final provoca um conforto que te faz entender a razão de tudo aquilo, do porquê vamos até uma sala de cinema para assistir obras ficcionais.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet vale a pena?
Não acredito que seria justo reduzir Hamnet: A Vida Antes de Hamlet a uma história trágica. Ela é mais que isso. A forma que Zhao representa o casal apaixonado que teve a sua vida alterada da forma mais triste possível provoca muitos sentimentos, e é possível sair da sala de cinema se sentindo privilegiado por assistir a um filme tão sensível e completo.
Constantemente esquecemos do valor da arte na sociedade e o filme escancara um deles na nossa cara: o de provocar empatia, de fazer o público se sentir visto. Buscamos músicas, livros e filmes que façam sentido para nós, que nos permitam conseguir ver um pouco de nós nessas histórias e buscamos conforto nisso. Afinal, é a prova final de que não estamos sozinhos.
Hamnet não provoca necessariamente uma identificação com a protagonista, mas nos lembra do porquê de nos reunirmos para admirar arte e a importância de tentarmos entender o que o outro sente, sem julgamentos.
Este não é um filme ousado, mas não precisa ser. Hamnet é um respiro sensível e delicado, mas totalmente preenchido por sentimentos nas falas, intenções na direção e dedicação total nas atuações. Não à toa concorre como Melhor Filme na maior premiação de cinema do ano, com boas chances de conquistara famigerada estatueta, impulsionadas pelo Globo de Ouro. Mais um grande filme dessa temporada.