Home Variedade Da curva ao ponto cego: as tecnologias silenciosas que transformaram as motos

Da curva ao ponto cego: as tecnologias silenciosas que transformaram as motos

by Fesouza
10 minutes read

Imagine estar em uma estrada sinuosa, pouco acima dos 100 km/h. A moto está inclinada na curva quando, de repente, algo muda à frente. Você freia. A roda não trava, a trajetória se mantém e a moto segue exatamente para onde o guidão aponta.

Parece reflexo de piloto experiente. Na verdade, é eletrônica trabalhando em silêncio. Sensores, algoritmos e sistemas de assistência já ajudam motociclistas a reagir melhor em situações que, até pouco tempo atrás, dependiam apenas de instinto, técnica e sorte.

Quando falamos de tecnologia, o pensamento quase sempre vai direto para os carros. Assistentes de condução, sensores, sistemas semiautônomos, telas cada vez maiores e processadores mais rápidos. Mas existe um território tecnológico igualmente avançado e, muitas vezes, mais crítico, que costuma passar despercebido por quem não vive esse universo: o das motocicletas.

Além de falar sobre automóveis aqui no TecMundo, acompanho de perto o mundo das motos, participando de eventos, testes e comunidades do setor. E existe uma diferença fundamental entre carro e moto que muda completamente a forma como a tecnologia é aplicada. Na moto, o corpo do piloto faz parte do sistema.

Não há carroceria. Não há zona de deformação. Qualquer erro é sentido imediatamente.

Por isso, no motociclismo, tecnologia não é luxo. É segurança real.
A seguir, algumas das principais tecnologias que já estão presentes em motocicletas modernas e que ajudam a explicar por que a pilotagem mudou tanto nos últimos anos.

Marcio Hanashiro_Curva Moto.jpg
Tiger 1200 black edition na Serra da Macaca localizada no Parque Estadual Carlos Botelho, a entrada fica no município de São Miguel Arcanjo – SP (Fonte: Márcio Hanashiro)
 

ABS Cornering

O ABS Cornering, também conhecido como ABS em curvas, é um ótimo ponto de partida. Durante décadas, frear com a moto inclinada foi um dos maiores riscos da pilotagem. Bastava aplicar um pouco mais de força no freio para a roda travar e a moto perder completamente a trajetória.

Imagine uma situação comum. Você está em uma estrada de serra, contornando uma curva, quando o carro à frente reduz mais do que o esperado. A moto está inclinada e você precisa frear. Antes, isso era quase um cenário clássico de queda. Hoje, o ABS Cornering atua exatamente nesse momento.

Esse sistema trabalha em conjunto com uma Unidade de Medição Inercial, a IMU, que monitora em tempo real o ângulo de inclinação da moto, aceleração, desaceleração e forças laterais. Com esses dados, o sistema ajusta automaticamente a pressão do freio, evitando o travamento das rodas mesmo com a moto inclinada.

Na prática, o piloto consegue frear com mais intensidade mantendo estabilidade e trajetória. É uma tecnologia silenciosa, quase invisível, mas que reduz drasticamente o risco em situações críticas. Ela já está presente em motos de diferentes categorias e aparece, por exemplo, em modelos como a Ducati Multistrada V4, uma das pioneiras na adoção desse tipo de solução.
Radar e controle de cruzeiro adaptativo.

Radar.png

Radar e controle de cruzeiro adaptativo

Outra tecnologia que parece coisa de carro, mas já é realidade nas motos, é o uso de radar.

Em rodovia, existe uma situação clássica para qualquer motociclista. Um carro entra rapidamente no ponto cego, exatamente naquela área que nem os espelhos nem o olhar lateral conseguem cobrir com precisão. O radar em motocicletas monitora o entorno em tempo real, usando sensores dianteiros e traseiros para identificar veículos próximos, sua velocidade e distância.

A partir disso, entram em ação recursos como alertas de ponto cego, monitoramento de aproximação traseira e o controle de cruzeiro adaptativo. Em viagens longas, o sistema mantém automaticamente uma distância segura do veículo à frente, acelerando e desacelerando de forma progressiva.

Algumas motos de turismo e adventure já contam com esse tipo de tecnologia, com destaque novamente para a Ducati Multistrada V4, que ajudou a popularizar o uso de radar no motociclismo moderno.

Quando a tecnologia muda o comportamento do piloto

Para entender como esses sistemas se traduzem no mundo real, fui atrás de alguém que vive isso no dia a dia. Conversei com Thiago Mendes, motociclista entusiasta, dono de uma moto convencional e de uma Ducati Multistrada V4 equipada com radar e controle de cruzeiro adaptativo. Além disso, Tiago é amigo pessoal deste colunista que vos escreve e, portanto, alguém que fala sem filtro quando o assunto é moto.

As perguntas abaixo ajudam a mostrar como tecnologias como radar e controle de cruzeiro adaptativo não mudam apenas a pilotagem, mas a forma como o piloto pensa a estrada.

Thiago-Mendes_2.jpg
Thiago Mendes

Em que tipo de situação você mais usa o controle de cruzeiro adaptativo na Multistrada V4: estrada longa, trânsito mais carregado ou viagens mistas?

Em estrada totalmente vazia qualquer controle de cruzeiro resolve, mas o jogo vira mesmo é nas viagens mistas, com aquele fluxo chato de carros variando a velocidade. Na V4S eu parei de sofrer com o liga e desliga do sistema comum porque a moto lê o trânsito por mim e mantém o ritmo sem eu precisar tocar em nada. Em vias expressas com fluxo moderado ela é imbatível e o sistema se paga em cada quilômetro.

Depois de se acostumar com o cruzeiro adaptativo, como foi voltar a pilotar uma moto sem esse recurso? Sentiu falta?

Vou te dizer que rola um susto no cérebro quando volto para uma moto comum. Na primeira vez que cheguei perto de um carro e a moto não desacelerou sozinha, o susto foi real, porque a gente se acostuma mal com o conforto. Sinto falta principalmente naquela hora de relaxar o pescoço ou olhar a paisagem, pois com a Multistrada eu sei que tem um radar vigiando a minha frente o tempo todo.

Na prática, o sistema transmite confiança nas retomadas e nas frenagens automáticas ou você ainda prefere intervir manualmente em algumas situações?

O sistema é muito preciso e passa total confiança, principalmente nas frenagens, que são bem graduais e seguras. Mas como a gente gosta de motor, eu ainda prefiro intervir manualmente nas retomadas para ultrapassar. O radar acelera de um jeito polido e seguro, mas se eu quero despachar o carro logo, eu chamo no punho para sentir a força do V4 de verdade.

Você diria que o controle de cruzeiro adaptativo reduz mais o cansaço físico, o cansaço mental ou os dois em viagens longas?

A ergonomia da moto já é um sofá, então o cansaço físico quase não existe. Mas o ganho no cansaço mental é absurdo. Aquela microgestão de ajustar o botão e frear um pouquinho o tempo todo drena a energia da gente em viagens longas. Com o radar assumindo essa parte, eu chego no destino muito mais inteiro e com a mente fresca, porque só precisei focar no prazer de pilotar.

As respostas do Thiago mostram que o impacto do radar vai além do conforto. Ao reduzir a microgestão constante de acelerar e frear, o sistema muda o ritmo da viagem e a forma como o piloto se relaciona com a estrada, diminuindo o cansaço mental sem tirar o controle das mãos.

Essa mesma filosofia aparece em outros sistemas eletrônicos da moto, que trabalham em segundo plano para corrigir excessos antes que eles virem problemas. O próximo deles é o controle de tração.

Thiago-Mendes.jpg
Thiago Mendes

Controle de tração

Outro grande avanço está nos sistemas de eletrônica ativa, que entram em ação antes que um erro vire acidente. Pense em uma saída de cruzamento em piso levemente molhado ou passando sobre uma faixa pintada no asfalto. Uma aceleração um pouco mais forte pode fazer a roda traseira perder aderência em frações de segundo. O controle de tração dinâmico monitora constantemente a diferença de velocidade entre as rodas e, ao detectar patinagem, reduz instantaneamente o torque do motor ajustando ignição, injeção e acelerador eletrônico.

Há também situações muito comuns no dia a dia, como reduções bruscas de marcha ao se aproximar de um semáforo ou curva fechada. O controle dinâmico do freio motor evita que a roda traseira trave nesses momentos. E em algo ainda mais cotidiano, como parar em uma rua íngreme, o assistente de partida em subida mantém a moto freada automaticamente, permitindo que o piloto acelere com calma, sem risco de recuo. Esse tipo de solução aparece em motos de diferentes fabricantes, como a BMW Motorrad, sempre com a mesma filosofia: intervir apenas quando necessário.

Nesse contexto de reduzir distrações e tornar a pilotagem mais previsível, entram também os modos de condução pré-definidos, hoje cada vez mais comuns nas motos modernas. Modos como Rain, Road e Sport não servem apenas para “mudar o temperamento” da moto, mas para ajustar, de forma integrada, resposta do acelerador, controle de tração, entrega de potência e atuação do freio motor. 

Em piso molhado, por exemplo, o modo chuva suaviza a resposta do acelerador e aumenta a intervenção do controle de tração, permitindo que o piloto se concentre na leitura do trânsito e do ambiente, sem precisar dosar tudo manualmente o tempo todo. Já em uso rodoviário ou esportivo, os modos mais agressivos liberam respostas mais diretas, mas sempre dentro de limites calculados pelos sistemas eletrônicos.

Conectividade

A conectividade também passou a fazer parte do pacote tecnológico das motos. Imagine sair para uma viagem sem precisar parar a todo momento para conferir o celular. Hoje, a navegação pode aparecer diretamente no painel da moto, com indicações simples e pensadas para não tirar a atenção da pilotagem. 

O mais interessante de toda essa evolução é perceber que essas tecnologias não atendem apenas a um único perfil de motociclista

Aplicativos dedicados permitem planejar rotas, registrar trajetos, acompanhar consumo e até saber quando a próxima manutenção está chegando. Um exemplo é o My Triumph, que conecta a moto ao smartphone via Bluetooth e centraliza essas informações.

Em modelos voltados ao turismo, como a Honda Gold Wing, essa integração vai ainda mais longe, trazendo recursos comuns em carros, como Apple CarPlay, Android Auto, chave presencial e até marcha à ré assistida eletricamente. Em motos grandes e pesadas, isso não é luxo, é ergonomia e segurança.

Na minha opinião, o mais interessante de toda essa evolução é perceber que essas tecnologias não atendem apenas a um único perfil de motociclista. Elas ampliam o jogo em várias frentes ao mesmo tempo.

O mais interessante de toda essa evolução é perceber que essas tecnologias não atendem apenas a um único perfil de motociclista. Elas ampliam o jogo em várias frentes ao mesmo tempo.

Para quem busca mais esportividade, sistemas como ABS em curvas, controle de tração dinâmico e ajustes eletrônicos permitem explorar melhor a performance da moto com mais margem de segurança. A moto passa a conversar com o piloto, transformando a informação em controle.

Para quem está começando, a tecnologia reduz a curva de aprendizado. Navegação integrada ao painel elimina distrações com o celular. Assistentes de partida em subida evitam erros comuns. Sistemas de freio mais inteligentes ajudam a corrigir falhas de técnica nas curvas.

No fim das contas, essa evolução cria um cenário interessante. Ela melhora a experiência dos pilotos experientes, facilita a entrada de novos motociclistas e permite que quem começou em uma época mais visceral continue sobre duas rodas por mais tempo.

Talvez essa seja a grande revolução silenciosa do motociclismo moderno. Mais gente andando melhor, por mais tempo, com mais segurança, sem perder a essência de estar sobre duas rodas.

You may also like

Leave a Comment