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Do campo às fintechs: o caminho do dinheiro no esquema do PCC

by Fesouza
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Começava no campo e terminava em fintechs na Avenida Faria Lima, em São Paulo (SP) – o coração financeiro do país. Esse era o caminho do dinheiro no esquema bilionário comandado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções criminosas do Brasil.

As informações foram reveladas pela operação Carbono Neutro, considerada a maior já realizada contra o crime organizado no país, deflagrada na quinta-feira (28). O esquema envolvia não só lavagem de dinheiro, mas também fraudes no setor de combustíveis.

A força-tarefa nacional mobilizou 1,4 mil agentes e mirou 350 alvos em São Paulo, Bahia, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins. A investigação teve participação conjunta do Ministério Público (MP), da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal.

O caminho do PCC para lavar dinheiro em esquema bilionário

Segundo o G1, a rota do esquema do PCC passava por quatro setores:

  • Fazendas de cana-de-açúcar: ameaças e coação para venda
  • Usinas: adulteração de combustíveis
  • Postos: maquininhas de cartão e lojas de conveniência
  • Fintechs: lavagem de dinheiro

Fazendas e usinas

Nas fazendas e usinas sucroalcooleiras, fazendeiros e donos de propriedades eram coagidos pelo PCC. Em alguns casos, houve suspeita de incêndios criminosos como forma de intimidar produtores e forçar a venda das terras. A organização também impunha sobrepreço na compra de cana-de-açúcar, o que distorceu o mercado e alimentou o ciclo de fraudes.

Plantação de cana-de-açúcar
Fazendeiros e donos de propriedades com plantações de cana-de-açúcar eram coagidos pelo PCC (Imagem: Elza Fiuza/Agência Brasil)

Nas usinas e distribuidoras, o esquema se tornava mais sofisticado. As distribuidoras eram usadas para o desvio clandestino de metanol e para operações de lavagem de capital. Elas emitiam notas fiscais frias e pediam ressarcimentos indevidos de tributos como PIS e Cofins. Isso enquanto pagavam apenas uma fração do imposto devido. 

Transportadoras e formuladoras completavam o ciclo: desviavam metanol destinado a empresas legítimas, adulteravam combustíveis e inflavam preços nas transações entre companhias, o que criava créditos tributários falsos. Até terminais de armazenagem entravam no esquema para mascarar a origem e o destino do dinheiro ilícito.

Postos de combustíveis

Em quatro anos, redes de postos movimentaram R$ 52 bilhões. Parte vinha da venda de combustíveis adulterados, da fraude no volume abastecido e da emissão de notas fiscais falsas. 

Frentista colocando combustível em carro estacionado em posto
Nas redes de postos de combustíveis, o esquema servia tanto para movimentar quanto para lavar dinheiro do PCC (Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Muitos estabelecimentos também recebiam dinheiro em espécie ou via maquininhas de cartão e repassavam os valores por meio de contas bancárias controladas pelo PCC.

Nem todos os postos funcionavam de fato. Cerca de 140 deles, sem atividade real, foram destinatários de mais de R$ 2 bilhões em notas simuladas, o que ocultava o fluxo de valores ilícitos. 

Além das fraudes comerciais, houve sonegação massiva de tributos: o esquema gerou um prejuízo estimado em R$ 7,6 bilhões aos cofres públicos. 

Para camuflar ainda mais o dinheiro, conveniências e padarias eram abertas em nome de laranjas e fechadas em poucos meses, num rodízio de empresas que confundia o rastreamento. Até o setor portuário entrou na engrenagem, com importação e desvio de metanol pelo Porto de Paranaguá (PR).

Fintechs

As fintechs eram a peça central da engrenagem financeira. Funcionavam como verdadeiros “bancos paralelos” da facção. Empresas como o BK Bank criaram um sistema de “contas-bolsão”, no qual os recursos de todos os clientes eram misturados dentro de uma conta em banco comercial. Isso dificultava a identificação de movimentações individuais. 

Ilustração sobre o conceito de fintechs
Fintechs eram a peça central da engrenagem financeira no esquema do PCC (Imagem: Master1305/Shutterstock)

Para você ter ideia, só uma delas movimentou R$ 46 bilhões em valores não rastreáveis. Operadores ligados ao grupo também controlavam fintechs menores, o que criava camadas adicionais de ocultação e permitia a integração dos lucros ilegais ao mercado financeiro formal.

Esse dinheiro alimentava uma blindagem patrimonial sofisticada. A Receita identificou ao menos 40 fundos de investimento, que somavam R$ 30 bilhões em ativos. Parte dos recursos foi aplicada num terminal portuário, quatro usinas de álcool, uma frota de 1,6 mil caminhões para transporte de combustíveis e mais de cem imóveis – entre eles, fazendas no interior de São Paulo avaliadas em R$ 31 milhões e uma casa em Trancoso (BA) de R$ 13 milhões.

Leia mais:

Após a revelação do esquema, a Receita Federal publicou uma medida para monitorar de perto o setor de fintechs, até então fora do radar de fiscalização. Do campo à Faria Lima, o PCC construiu um império financeiro que agora começa a ser desmontado.

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