Cinco anos bastam para transformar magia em rotina tecnológica. Atualmente, a inteligência artificial em larga escala deixou de ocupar apenas laboratórios e virou infraestrutura invisível do cotidiano. O mercado global de IA já movimentava algo em torno de US$ 279 bilhões em 2024, com projeções que beiram US$ 3,5 trilhões até 2033. Esses números descrevem apenas a superfície econômica de um fenômeno mais profundo: o presente tecnológico já rivaliza e, em muitos aspectos, supera a imaginação da ficção científica clássica.
A ficção científica sempre funcionou como um laboratório conceitual. Séries e filmes como Star Trek, 2001 e Matrix ofereceram protótipos narrativos que moldam tanto expectativas sociais quanto agendas de pesquisa em inteligência artificial. O que parecia pura especulação narrativa, agora serve quase como documento de bastidores de produtos e projetos em produção.
A ficção científica acertou em cheio ao antecipar muitos , mas subestimou a velocidade e a radicalidade da sua realização. Em três frentes como “interfaces neurais”, “mundos generativos” e “agentes autônomos”, o presente já se comporta como uma versão menos estilizada e mais consequente daquilo que antes ocupava apenas telas de cinema.
Interfaces neurais: a telepatia instrumental
A ideia de controlar máquinas com o pensamento parecia um privilégio de telepatas de quadrinhos. Hoje, cerca de 100 pessoas no planeta já viveram com interfaces cérebro-computador implantadas de forma permanente. Trata-se ainda de um universo diminuto, mas gigantesco em implicações tecnológicas e éticas.

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O caso de Noland Arbaugh cristaliza esse salto de época. Tetraplégico, 29 anos, ele recebeu em janeiro de 2024 o primeiro implante humano. Em março de 2024, aparecia em vídeo oficial controlando o cursor do computador apenas com atividade cerebral. Nesse cenário, a IA deixa de ser apenas algoritmo “externo” e passa a atuar como copiloto neural.

Mundos generativos: realidades fabricadas em tempo real
A explosão de imagens sintéticas em 2023 fez parecer que aquele era o auge da criatividade algorítmica. O ano de 2024 demonstrou o contrário com lançamentos de plataformas capazes de gerar ambientes 3D jogáveis a partir de uma única imagem, controlados por teclado e mouse por humanos ou agentes de IA.
Essa lógica de mundos generativos se estende à própria experiência de navegação na web. Respostas sintéticas produzidas por IA no topo dos resultados já alcançam mais de 1,5 bilhão de usuários em mais de 200 países. Em vez de listar links, o sistema compõe uma visão de mundo em tempo real, sintetizada a partir de múltiplas fontes. A página de busca deixa de ser “janela para a internet” e se aproxima de um microcosmo generativo que organiza, interpreta e hierarquiza o conhecimento acessível.
A consequência é direta: a ficção da realidade simulada em camadas, tão cara a filmes como Matrix, ganha versão pragmática e corporativa. Em vez de cabos na nuca, smartphones e navegadores. Em vez de um “escolhido”, bilhões de usuários que passam a depender, diariamente, de modelos opacos para interpretar o mundo.
Agentes autônomos: IA como força de trabalho conceitual
A aceleração recente da IA também se manifesta na ciência e na automação cognitiva. Parceiros do Asteroid Institute usaram tecnologias de IA da empresa para reduzir um esforço de catalogação de órbitas de objetos espaciais que levaria 130 anos de trabalho humano para cerca de três meses de processamento computacional.
Em paralelo, agentes de IA migram do laboratório para o balcão de atendimento. Plataformas comerciais de automação já descrevem casos em que agentes de voz lidam com dezenas de milhares de consultas, vendem serviços em múltiplos idiomas, interagem em tempo real e permanecem disponíveis em regime ininterrupto, com níveis de naturalidade que se aproximam de atendentes humanos em tarefas de rotina.
Há poucos anos, tais agentes seriam descritos apenas como personagens secundários em livros sobre sociedades hiperautomatizadas.
Responsabilidade com IA em um presente que já parece ficção
O presente superou cerca de 80% das previsões mais populares da ficção científica clássica sobre IA em termos de ubiquidade, escala e impacto cotidiano; faltam apenas os androides perfeitamente conscientes. A consequência disso é que toda narrativa sobre o “futuro da IA” se converte, na prática, em diagnóstico moral do presente.

(Imagem: Shutter2U/iStock)
A metáfora mais poderosa continua em Frankenstein. Leituras acadêmicas da obra de Mary Shelley, como a análise da Georgia Tech, reforçam que um dos temas centrais do romance é a obrigação ética do criador com a própria criatura e o desastre que surge quando essa responsabilidade é abandonada. Victor Frankenstein foge, sente vergonha e recusa o vínculo com o ser que trouxe ao mundo; o monstro devolve ao criador o custo dessa covardia em forma de tragédia.
A inteligência artificial contemporânea ocupa posição semelhante à criatura de Shelley: altamente potente, profundamente dependente das escolhas de quem projeta, treina e implanta, e ainda sem lugar definido na paisagem institucional e jurídica. Cada algoritmo em produção carrega, em segundo plano, as intenções explícitas e cegueiras implícitas de times de desenvolvimento, conselhos de administração e reguladores.
A humanidade já vive um presente ficção-científico, em que interfaces neurais reconstroem corpos, mundos generativos reescrevem a experiência de realidade e agentes de IA assumem fatias crescentes do trabalho cognitivo. A diferença entre um cenário à la Frankenstein e um futuro mais digno está menos na tecnologia em si e mais na coragem de assumir responsabilidade integral sobre aquilo que se cria.
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A ficção científica cumpriu a função de ensaio geral. A partir de agora, o roteiro pertence a engenheiros, executivos, formuladores de política pública e cidadãos que se recusam a tratar a IA como destino inevitável e passam a encará-la como obra coletiva. Só assim esse presente que parece ficção encontra chance de realmente permanecer humano.
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