Fábricas de artigos: 261 mil pesquisas sobre câncer apresentam sinais de fraude

Uma análise recente publicada no periódico British Medical Journal (BMJ) acendeu um alerta vermelho na comunidade científica: cerca de 261 mil artigos sobre câncer publicados entre 1999 e 2024 apresentam sinais de fraude. Esse volume representa 10% de toda a literatura sobre a doença disponível no PubMed, uma das maiores bases de dados biomédicos do mundo.

Esses textos são atribuídos às chamadas “fábricas de artigos”. Trata-se de empresas que vendem manuscritos prontos e fraudulentos para pesquisadores que precisam publicar trabalhos em revistas científicas, mas não realizaram os experimentos ou não têm tempo para escrever. Nos últimos 20 anos, estima-se que pelo menos 400 mil artigos desse tipo tenham entrado no fluxo editorial global.

(Imagem: mi_viri/Shutterstock)

O papel da Inteligência Artificial na descoberta

Para identificar a escala do problema, pesquisadores liderados por Adrian Barnett, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, utilizaram inteligência artificial. Eles treinaram um modelo com 4.404 artigos — metade deles já retratados (invalidados) por fraudes confirmadas e a outra metade legítima. Com uma precisão de 91%, a máquina aprendeu a separar o que é ciência real do que é fabricação.

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Ao aplicar essa tecnologia em 2,6 milhões de publicações sobre câncer, o resultado foi o número expressivo de 261 mil suspeitas. O câncer foi o alvo principal do estudo por ser uma área onde a fraude já é conhecida, mas o problema também atinge setores como computação e ciências do esporte.

Geografia da fraude e o impacto no Brasil

A pesquisa também mapeou de onde vêm esses textos, com base na origem dos autores principais. A China lidera a lista, com 36% dos seus artigos científicos sobre o tema apresentando características de fraude. O motivo, segundo Barnett, é a pressão institucional: no país, muitos médicos são obrigados a publicar pesquisas para subir na carreira, mesmo enfrentando jornadas exaustivas de trabalho.

Imagem: R Photography Background/Shutterstock

Depois da China, aparecem Irã (20%) e Arábia Saudita (16%). O Brasil também integra o levantamento, com 4% das suas publicações sobre câncer sinalizadas com características suspeitas.

O risco das revistas respeitáveis

Um dos pontos mais preocupantes levantados pelo estudo é que essas fábricas estão ficando mais sofisticadas. Se antes o conteúdo falso ficava restrito a revistas de baixa qualidade ou “predatórias”, agora os textos fraudulentos estão conseguindo furar o bloqueio de periódicos renomados. Isso significa que médicos e cientistas podem estar lendo e confiando em dados que nunca foram testados em laboratório.

A solução, de acordo com os autores, passa por uma mudança estrutural. Além do uso de ferramentas de detecção por parte das editoras, é necessário rever a cultura do “publicar ou perecer”. A pressão constante por volume de publicações cria o mercado perfeito para as fábricas de manuscritos. Sem reduzir essa cobrança sobre os profissionais e sem um controle mais rigoroso das editoras — que lidam com um volume de textos cada vez mais difícil de revisar — a ciência corre o risco de ser inundada por dados artificiais.

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