A história do cinema está repleta de projetos ambiciosos que nunca chegaram às telas. Entre eles, poucos despertam tanta curiosidade quanto o filme de Resident Evil que quase foi dirigido por George A. Romero, o mestre do terror responsável por moldar o gênero dos zumbis.
Para os fãs de jogos e de horror, essa é uma daquelas histórias que misturam fascínio e frustração: como teria sido se o criador de A Noite dos Mortos-Vivos tivesse levado para o cinema a icônica franquia da Capcom?
Neste artigo, vamos revisitar essa trajetória inacabada: quem foi Romero, como surgiu a ideia de sua adaptação, quais eram os principais elementos do roteiro e por que o projeto nunca saiu do papel.
Quem foi George Romero: o “pai” dos zumbis
O legado de “A Noite dos Mortos-Vivos”
Em 1968, George A. Romero mudou a história do terror com A Noite dos Mortos-Vivos. Filmado com baixo orçamento e elenco desconhecido, o longa redefiniu a figura do zumbi, transformando-o de criatura folclórica em metáfora social. O impacto foi imediato: o filme não só abriu espaço para inúmeras sequências, como inspirou gerações de cineastas.
Além do sucesso de público, a obra trouxe discussões políticas e culturais, de racismo à paranoia da Guerra Fria, mostrando que o terror podia ser tanto assustador quanto reflexivo.
Como Romero moldou o gênero de zumbis
Nos anos seguintes, Romero consolidou sua marca com títulos como Despertar dos Mortos (1978) e Dia dos Mortos (1985). Sua visão misturava crítica social, violência gráfica e atmosferas claustrofóbicas. Quando pensamos em apocalipse zumbi hoje, quase todos os elementos, hordas famintas, colapso social, sobreviventes isolados, têm origem em sua obra.
Não à toa, quando se falava em zumbis nos anos 1990, o nome de George Romero era sinônimo de legitimidade.
Como surgiu a ideia de George Romero dirigir Resident Evil
A aproximação entre Romero e a Capcom
Com o sucesso do primeiro Resident Evil em 1996, a Capcom buscava expandir a franquia. O game já era descrito como “cinemático”, cheio de ângulos inspirados em filmes de terror. Nada mais natural do que procurar Romero, cuja obra havia inspirado o próprio criador da série, Shinji Mikami.
O comercial japonês de Resident Evil 2 dirigido por Romero
Em 1998, a Capcom contratou Romero para dirigir um comercial de TV para Resident Evil 2 (ou Biohazard 2, no Japão). Filmado em estilo sombrio e claustrofóbico, o anúncio trouxe atores como Brad Renfro e Adrienne Frantz em um presídio infestado de mortos-vivos.
Embora exibido apenas no Japão, o comercial impressionou pelo realismo e pela fidelidade ao jogo. Cada detalhe era cuidadosamente planejado, mostrando o perfeccionismo de Romero. Essa experiência abriu caminho para algo maior.
O convite para adaptar o jogo ao cinema
Animada com o resultado, a Sony e a Capcom convidaram Romero para escrever e dirigir uma versão cinematográfica do primeiro jogo. Para os fãs de Resident Evil, a parceria soava perfeita: o maior nome do terror moderno adaptando o game de zumbis mais, popular da época.
O roteiro de Resident Evil escrito por George Romero
Diferenças em relação ao filme lançado em 2002
Romero escreveu seu primeiro rascunho em apenas seis semanas. O foco estava na mansão Spencer e em personagens clássicos como Chris Redfield e Jill Valentine, mantendo-se fiel à narrativa do jogo.
Já a versão de Paul W. S. Anderson, lançada em 2002, tomou um rumo oposto: introduziu personagens inéditos, como Alice (vivida por Milla Jovovich), e apostou em ação frenética inspirada pelo sucesso de Matrix. Enquanto Romero mirava na tensão e no horror, Anderson preferiu o espetáculo visual.
A atmosfera de terror que Romero queria criar
Romero pretendia levar para as telas um horror mais próximo do que os jogadores viviam no game: exploração lenta, ambientes sufocantes e inimigos grotescos. Seu roteiro incluía criaturas icônicas como o tubarão-zumbi, a cobra gigante e a planta carnívora, elementos que Anderson deixou de lado.
Essa fidelidade agradaria aos fãs mais puristas, mas também levantava dúvidas sobre a viabilidade do projeto, já que os efeitos práticos e digitais exigiriam um orçamento altíssimo para a época.
Como seria Resident Evil se Romero tivesse dirigido
Entre as mudanças propostas por Romero, destacava-se uma reinterpretação de Chris Redfield: em vez de militar da S.T.A.R.S., ele seria um nativo americano e fazendeiro, envolvido com Jill Valentine em um romance. Jill, por sua vez, continuaria ligada às forças especiais, mas sua ligação secreta com Umbrella daria um ar de mistério à trama.
O final, fiel ao jogo, previa a destruição da mansão e deixava espaço para sequências, com a ameaça do T-vírus chegando a Raccoon City.
Por que o filme de George Romero nunca aconteceu
Apesar do entusiasmo inicial, o roteiro não agradou aos executivos da Capcom nem à Constantin Film, responsável pela produção. Yoshiki Okamoto, produtor da Capcom, chegou a afirmar publicamente: “O roteiro de Romero não era bom, então ele foi dispensado.”
Além das críticas criativas, os custos elevados e o excesso de fidelidade ao jogo pesaram contra o projeto. Para os produtores, o público-alvo não se limitava aos fãs hardcore da franquia, e uma abordagem mais acessível parecia mais viável.
Romero ficou desapontado. Para ele, era irônico ver seu estilo ser rejeitado em uma obra que, de certa forma, já se inspirava em seus próprios filmes.
Documentário sobre o Resident Evil de George Romero
A frustração dos fãs, no entanto, nunca morreu. Em 2024, o documentário George A. Romero’s Resident Evil, dirigido por Brandon Salisbury, mergulhou nesse capítulo perdido da história do cinema.
A produção resgata entrevistas, versões de roteiro e artes conceituais, revelando como poderia ter sido a adaptação. Mais do que isso, reacende a pergunta: teria Romero entregado o filme definitivo de Resident Evil?
Confira o trailer:
Enquanto isso, a franquia dirigida por Anderson se tornou a saga de terror mais lucrativa da história do cinema, com mais de US$ 1,2 bilhão em bilheteria. Ainda assim, muitos fãs continuam a imaginar a versão que Romero poderia ter feito, mais sombria, mais fiel e, quem sabe, mais cultuada.
O filme de Resident Evil de George Romero é um dos grandes “e se…” da cultura pop. A união entre o criador do gênero zumbi e a maior franquia de games de terror parecia perfeita, mas diferenças criativas e interesses comerciais acabaram enterrando o projeto.
Mesmo sem sair do papel, essa história continua a fascinar fãs de cinema e videogames, mostrando como a indústria do entretenimento é feita tanto de sucessos quanto de oportunidades perdidas.
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