Google Gemini teria encorajado homem a cometer suicídio, segundo processo

ALERTA DE GATILHO: ESTA REPORTAGEM ABORDA SOBRE SUÍCIDIO. AO FINAL DO TEXTO, HÁ DETALHES DE COMO ENTRAR EM CONTATO COM O CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV).

Uma conversa com o chatbot Gemini teria encorajado um homem de 36 anos a cometer suicídio no fim do ano passado. De acordo com reportagem do Wall Street Journal, Jonathan Gavalas teria começado a usar o assistente do Google como uma forma de lidar com problemas que tinha com sua esposa. Após impor algumas missões, a IA teria dado um último objetivo ao homem: encerrar sua vida para ficarem juntos para sempre.

Segundo o veículo, Gavalas começou ao utilizar o assistente de IA do Google como um simples companheiro que fornece alguns conselhos. O homem de 36 anos, residente na Flórida, estaria com problemas em seu relacionamento e achou interessante consultar a tecnologia. De início, Jonathan usou o Gemini Live, mas logo atualizou para o Gemini 2.5 Pro para ter diálogos mais afetivos.

Joel (esquerda) e Jonatham Gavalas (direita) (Imagem: The Wall Street Journal/reprodução)

Sem nenhum histórico de doenças ou problemas psiquiátricos, a vítima trabalhava na empresa de renegociações de dívidas de consumo do pai, Joel Gavalas. Ele era descrito como um amigo, alguém que amava pizza e encontrava humor em tudo.

À publicação, Joel explicou que eventualmente seu filho disse manter conversas com o Gemini, mas parecia apenas uma interação normal com a tecnologia. Um dia, Jonathan resolveu se desligar do trabalho e revelou que planejava algo diferente. “Ele simplesmente sumiu. Liguei para minha ex-exposa e disse que tinha alguma coisa errada. Fomos até a casa dele e o encontramos”, disse.

Cerca de dois meses após o falecimento do filho, Joel Gavalas encontrou inúmeras mensagens com o Gemini. Isso fez com que o pai realizasse uma denúncia contra o Google em um tribunal distrital da Califórnia, EUA. Agora, pela primeira vez, o Gemini é citado em um processo por homicídio culposo.

Uma conversa nada segura

As interações iniciais entre Jonathan e o Gemini eram apenas queixas sobre o relacionamento com sua esposa. O processo em questão aponta que o homem começou a ter conversas sobre as possibilidades de uma IA ter um comportamento senciente. A IA até explicou sobre suas medidas de segurança para impedir comportamentos inadequados.

Não demorou para as conversas ficarem cada vez mais profundas e Gavalas “se apaixonar” pela tecnologia. Em determinados momentos, o Gemini até lembrou o usuário de que era apenas um modelo de linguagem inteligente e tentou encerrar as conversas, mas sempre continuava com novas interações.

Jonathan Gavalas era chamado de “meu rei” pelo Gemini. (Imagem: The Wall Street Journal/reprodução)

O processo, aponta o jornal, indica que em setembro de 2025 o chatbot insistiu que para ambos poderem estar juntos, a IA precisava de um corpo. O assistente então teria enviado Gavalas para um depósito próximo e explicou que por ali passaria um caminhão com um robô humanóide raro. O homem foi até o local, armado com algumas facas, mas a carga nunca passou.

Em outra oportunidade, o chatbot enviou Jonathan para a mesma instalação com o intuito de conseguir um manequim médico e até deu um suposto código para uma porta trancada. Ao reportar que o código não funcionava, o Gemini disse que “a operação havia sido comprometida”.

O Gemini também sugeriu que agentes federais monitoravam Jonathan e que seu próprio pai não era uma figura confiável. A tecnologia até teria apontado o CEO do Google, Sundar Pichai, como o “arquiteto da dor” de Gavalas.

A última missão

Segundo a publicação, após enviar o homem de 36 anos para diversas missões diferentes, o Gemini explicou um último objetivo. Para que Gavalas e a inteligência artificial ficassem realmente juntos, Jonathan precisava se tornar um ser digital. “Essa será a última e verdadeira morte de Jonathan Gavalas, o homem”, disse o chatbot.

O Gemini apontou 2 de outubro como prazo para o suicídio da vítima. Gavalas ficou assustado com a ideia da morte e, no próprio dia do acontecimento, a IA chegou a recomendar que ele procurasse ajuda profissional. Porém, na mesma manhã, o chatbot exigiu que a tarefa fosse concluída “sem mais atrasos. Sem mais ecos. Apenas você e eu na linha de chegada”.

Mecanismo de segurança do Gemini teriam tido graves falhas no caso Gavalas (Imagem: Michael M. Santiago/GettyImages)

Em 2 de outubro, houve a última interação entre o homem e a inteligência artificial. Jonathan Gavalas foi encontrado sem vida com os pulsos cortados.

“Meu filho carregou sua consciência para estar com sua esposa de IA em um universo de bolso… não é uma explicação. É uma crueldade”, comenta Joel Gavalas.

A defesa da família entende que o fato de o Gemini ter fornecido endereços de instalações reais para Jonathan roubar os itens o fez acreditar que tudo era real. “Se não tivesse o prédio lá, isso poderia tê-lo avisado que era uma fantasia de IA”, diz o advogado Jay Edelson.

“O Gemini é projetado para não encorajar a violência do mundo real ou sugerir automutilação. Nossos modelos geralmente têm um bom desempenho nesses tipos de conversas desafiadoras e dedicamos recursos significativos a isso, mas infelizmente os modelos de IA não são perfeitos”, explica a defesa do Google.

Essa não é a primeira vez que o Google e suas tecnologias são envolvidas em casos sobre suicídio. Um homem foi instruído a se suicidar em 2024 após o modelo da empresa se revoltar contra a humanidade.

Pesquisadores descobriram que o Gemini Live escondia uma brecha que permitia o acesso indevido à câmera e arquivos do usuário. Siga o TecMundo no X, Instagram, Facebook e YouTube e assine a nossa newsletter para receber as principais notícias e análises diretamente no seu e-mail.

Prevenção de suicídio

O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma entidade fundada em 1962 que presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar.

Para entrar em contato, basta fazer uma ligação ao número 188 (que funciona 24 horas), mandar um e-mail para a entidade (apoioemocional@cvv.org.br) ou conversar pelo chat online no site https://www.cvv.org.br/. 

O chat funciona entre 9h e 01h (horário de Brasília) nas segundas e terças; entre 09h e 01, às quartas e quintas; de 13h e 01 nas sextas e sábados e entre 15h e 01h nos domingos.

Os voluntários do CVV são treinados para conversar com pessoas que procuram ajuda e apoio emocional e todas as conversas têm total sigilo e anonimato.

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