Desde que se deu início à guerra no Irã, preocupações com petróleo e gás cresceram cada vez mais. Mas há uma outra preocupação que pode afetar (e muito) a indústria: a escassez de hélio.
Isso porque o gás é essencial para fabricar semicondutores, que, por sua vez, estão presentes em todos os aparelhos que usamos no dia a dia, desde smartphones a carros elétricos.
Caso haja uma escassez prolongada de hélio, pode haver uma falta de chips avançados, o que causaria um efeito em cadeia para fabricantes de eletrônicos dependentes, ou, ainda, forçar outros a brecar seus planos de construção de data centers de inteligência artificial (IA).
Chips e dependência do hélio
- O hélio é um gás muito utilizado para várias aplicações, tanto em sua forma gasosa, como em sua forma líquida. Isso porque ele é incolor, inodoro e é o segundo elemento mais leve do universo;
- Phil Kornbluth, presidente da empresa Kornbluth Helium Consulting, aponta à DW onde o hélio costuma ser utilizado. “É usado em áreas, como ressonância magnética, fabricação de fibra óptica, soldagem, detecção de vazamentos e inflação de airbags, sem mencionar balões e dirigíveis“;
- Apesar dessa variedade de usos, é na indústria de semicondutores que sua importância se torna crítica. O hélio de grau semicondutor é necessário para manter ambientes de produção “ultralimpos e ultrafrios”, além de ser utilizado na transferência de energia e calor e em câmaras de vácuo;
- Não há substitutos para o hélio de altíssima pureza nesses processos. Sem ele, a produção pode desacelerar ou até ser interrompida. “O hélio é caro em comparação com outros gases, então, na maioria dos casos, onde existem substitutos para o hélio, ele deixa de ser usado”, afirmou Kornbluth.
A maior parte do hélio industrial é obtida como subproduto da produção de gás natural liquefeito (GNL). Nesse cenário, o Catar desempenha papel central: o país possui a maior reserva mundial do gás e foi responsável por mais de um terço da produção global recente.
Com os desdobramentos do conflito, a estatal QatarEnergy interrompeu grande parte da produção de GNL, o que também suspendeu a produção de hélio. Além disso, o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã impediu o escoamento marítimo, tornando indisponível cerca de um terço da oferta mundial.
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Logística limitada e impacto gradual
O transporte e armazenamento do hélio representam desafios adicionais. O gás é, em grande parte, transportado em forma líquida ultrafria ou como gás comprimido, e sua estocagem é limitada. Tanques de armazenamento geralmente comportam apenas alguns dias a uma semana de produção.
Segundo Kornbluth, o impacto da escassez não é imediato, pois o hélio leva semanas para chegar do Catar aos mercados da Ásia e Europa. Ainda assim, ele alerta que “deve levar pelo menos algumas semanas” para que os usuários sintam os efeitos do déficit de oferta.
A redução no fornecimento tende a pressionar os preços. Para o especialista em energia Michael E. Webber, o bloqueio do Estreito de Ormuz “faz com que os volumes de hélio disponíveis sejam menores e os preços, mais altos”.
A substituição do fornecimento também não é simples. Embora existam reservas em outros países, como Estados Unidos, Argélia e Rússia, a exploração de novas fontes pode levar meses. Além disso, grande parte do hélio disponível está vinculada a contratos de longo prazo.
A preocupação é intensificada pelo crescimento da indústria de semicondutores. Em 2025, as vendas globais do setor atingiram US$ 791 bilhões (R$ 4,2 trilhões), alta de 25,6% em relação ao ano anterior, segundo a Associação da Indústria de Semicondutores (SIA, na sigla em inglês).
Com a demanda em expansão, o fornecimento de hélio torna-se ainda mais crítico. A SIA já havia alertado que um choque repentino poderia afetar significativamente a produção global de chips, especialmente devido à concentração da oferta em regiões sujeitas a riscos geopolíticos.
A reciclagem do gás ainda é limitada e há pouco espaço para ganhos adicionais de eficiência, já que fabricantes já adotaram medidas para reduzir o consumo após crises anteriores. Diante desse cenário, especialistas apontam que a melhor estratégia para reduzir a vulnerabilidade é diversificar fornecedores, ainda que isso implique custos mais elevados.
Enquanto o conflito persiste, a escassez de hélio surge como mais um fator de instabilidade para a economia global — agora atingindo diretamente o coração da indústria tecnológica.
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