Um conjunto de pequenos fragmentos negros, com aparência de vidro e formatos “esculpidos” pelo voo na atmosfera, abriu uma nova janela para a história geológica do país. Em entrevista ao Olhar Digital, o geólogo Álvaro Penteado Crósta, da Unicamp, detalhou a pesquisa que identificou pela primeira vez no Brasil um campo de tectitos — vidros naturais formados quando um impacto de alta energia derrete rochas da crosta terrestre e lança esse material para longe, onde ele resfria rapidamente ainda no ar.
Os fragmentos foram batizados de geraisitos, em homenagem a Minas Gerais, onde as primeiras ocorrências foram registradas. A idade estimada é de cerca de 6,3 milhões de anos, e a descoberta amplia um registro que é raro no planeta e especialmente restrito na América do Sul. A descoberta foi descrita em artigo publicado na revista Geology.
“Tectitos são vidros naturais raros. Há pouquíssimas ocorrências no mundo e também pouca gente conhece”, explicou Crósta, ao comentar por que o Brasil só agora reconheceu esse tipo de material.
Tectitos não é um vidro vulcânico comum (como a obsidiana). Eles se formam quando um meteorito (ou, se for muito grande, um asteroide) atinge a superfície, gera calor extremo e funde a rocha local. Parte desse material é lançada como gotas incandescentes, que voam a grandes distâncias e se solidificam no trajeto, adquirindo formas aerodinâmicas típicas.
Onde o material apareceu?
Os geraisitos começaram a ser encontrados no norte de Minas Gerais, inicialmente em Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso. Mas a área de ocorrência já se expandiu.
“Nós não sabemos ainda a extensão desse campo de espalhamento aqui no Brasil. O que nós temos de informação atualmente mostra que ele tem quase novecentos quilômetros de extensão, mas pode ser maior ainda”, afirmou Crósta.
Após a divulgação da pesquisa, novos registros apareceram: “Por exemplo, uma ocorrência no Piauí, uma outra na Bahia apareceu durante a análise dos dados”, relatou o pesquisador. A faixa de dispersão, portanto, já ultrapassa 900 km entre Minas, Bahia e Piauí.
Como achar um geraisito: não é “sair e pegar”
Apesar do impacto por trás da formação, encontrar os fragmentos não é simples. Eles não aparecem “em montes”, nem ficam expostos como uma rocha fácil de reconhecer.
“Não quer dizer que seja fácil achar… as pessoas às vezes acham que é muito fácil sair e vou achar, não é”, alertou Crósta. Segundo ele, os geraisitos tendem a ocorrer em níveis de antigos solos e, muitas vezes, aparecem junto a cascalhos, bastante espalhados.
“Eles também não ocorrem de uma forma muito concentrada… então não é muito simples encontrá-los”, reforçou.
Formatos de voo e “bolhas” na superfície
Até agora, a equipe já reuniu mais de 600 espécimes. Eles variam em tamanho e peso e podem chegar a alguns centímetros.
Na conversa com o Olhar Digital, Crósta detalhou a “assinatura” aerodinâmica: “Eles têm formatos aerodinâmicos… forma de gota, alguns, forma de halteres, alguns chegam a ter uns seis, sete centímetros, eu diria.” Por fora, são negros e opacos, mas sob luz intensa podem parecer esverdeados e translúcidos. A superfície costuma ter pequenas cavidades, marcas de bolhas de gás que escaparam enquanto o vidro resfriava rapidamente no ar.
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O que separa os geraisitos de vidros vulcânicos comuns é a geoquímica. As análises laboratoriais indicaram um baixíssimo teor de água — na faixa de dezenas de partes por milhão —, algo incompatível com muitos vidros de origem vulcânica e consistente com tectitos.
Esse “carimbo” químico, somado à morfologia e ao contexto geológico, sustenta a interpretação de que o material nasceu de um impacto cósmico.
A cratera ainda é um mistério — e pode nem estar tão perto
Mesmo com centenas de fragmentos, a equipe ainda não sabe onde está a cratera do impacto. E isso, segundo Crósta, não é exceção.
“Em seis milhões de anos, muita coisa pode ter acontecido: a erosão pode ter modificado, até apagado ela da superfície, ou recoberto com sedimentos mais recentes”, explicou.
Além disso, tectitos são, por definição, um tipo de depósito distante. “Os tectitos são depósitos distantes em relação à cratera”, disse. Nos poucos casos em que a cratera é conhecida, os fragmentos podem estar “a centenas ou a milhares de quilômetros” do ponto de impacto.
A geoquímica isotópica, porém, dá pistas importantes: os resultados indicam que o vidro se formou a partir de rochas continentais muito antigas, o que direciona as buscas para o cráton do São Francisco. E praticamente descarta uma origem oceânica: “Os resultados mostram que ela se formou a partir de rochas continentais e não de rochas oceânicas”, afirmou Crósta.
Por que isso importa: “pecinhas de um grande quebra-cabeça”
Para o pesquisador, os tectitos são mais do que curiosidades geológicas: eles são registros raros de eventos que moldaram a superfície do planeta — e que a dinâmica da Terra costuma apagar.
“A Terra seria exatamente igual à Lua, cheia de crateras, se não fossem os processos… que vão apagando esse registro ao longo do tempo”, disse. “Os tectitos… são registros importantes desse passado.”
Sobre a localização, ele completa: “O Brasil tem hoje nove crateras conhecidas… e o mundo tem cerca de duzentas”, afirmou. “Todas essas são pecinhas de um grande quebra-cabeças” para entender a evolução do planeta.
Como foi a descoberta?
Uma das marcas dessa descoberta é que ela começou fora do laboratório. “Foi totalmente incidental… foram moradores da região que encontraram primeiramente”, relatou Crósta. Ao procurar um especialista em meteoritos, eles acabaram acionando a rede científica que identificaria os tectitos.
Hoje, esse vínculo segue essencial: “É um trabalho procurar agulha em palheiro”, resumiu o pesquisador, destacando a importância da colaboração popular para localizar novos exemplares e entender como as características mudam ao longo do campo.
A equipe agora pretende delimitar melhor a área de ocorrência, ampliar a caracterização dos materiais e, com “uma combinação de ciência e sorte”, tentar localizar o impacto.
“Primeiro, limitar melhor a área de ocorrência… e com alguma sorte… encontrar o local dessa cratera”, disse Crósta. A estratégia inclui refinar as pistas geológicas e buscar sinais que indiquem uma estrutura circular associada ao impacto.
Para encerrar o pesquisador deixou um recado: se encontrar um material parecido — um vidro que lembra caco de garrafa, cortante, às vezes translúcido e esverdeado — o ideal é não manusear sem cuidado e entrar em contato com especialistas, pois sem a colaboração da comunidade, essa descoberta ainda não teria acontecido.
Além da pesquisa acadêmica, a equipe utiliza a descoberta para promover a educação científica. Através do perfil @defesaplanetaria no Instagram, Crósta e seus alunos buscam diferenciar riscos reais de asteroides de teorias sensacionalistas.
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