A construção da maior fábrica de carros elétricos da América Latina, em Camaçari (BA), operou sob uma “fraude consciente e sistêmica”, segundo novos detalhes de uma investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT) revelados pelo The Washington Post.
O relatório aprofunda as denúncias de dezembro, quando o governo brasileiro suspendeu vistos de trabalhadores chineses após identificar 163 operários em condições análogas à escravidão no canteiro de obras da BYD.
O contraste tecnológico e o “manual” da exploração
O projeto, que representa uma das maiores apostas da China para controlar o futuro da indústria automobilística, escondia práticas degradantes nos bastidores. Enquanto a BYD celebrava a transição da antiga planta da Ford para a tecnologia elétrica, operários chineses enfrentavam uma realidade de domingo a domingo, sem folgas e sob vigilância.
De acordo com as 5 mil páginas de registros judiciais analisadas pelo jornal americano, a “fraude” começava ainda na China com promessas de salários altos (cerca de US$ 2.800), mas resultava em:
- Alojamentos insalubres: na Rua Colorado, 56 trabalhadores eram divididos em dois prédios pequenos, onde 31 pessoas compartilhavam um único banheiro coberto de lodo.
- Falta de dignidade: muitos operários dormiam sem colchões e armazenavam comida diretamente no chão, em locais infestados por detritos industriais e vermes.
- Riscos físicos: relatos apontam operários trabalhando descalços ou apenas de roupas íntimas perto de máquinas pesadas, além de casos de amputações e fraturas expostas causadas pela exaustão.
- Isolamento: passaportes eram confiscados e os trabalhadores, que não falavam português, eram instruídos a não sair dos dormitórios.
Acordo milionário e rompimento de contrato
A BYD Brasil, que inicialmente negou as acusações classificando-as como “diferenças culturais”, decidiu encerrar o contrato com a empreiteira terceirizada Jinjiang Construction após ser notificada das irregularidades. Em nota divulgada em dezembro, a montadora afirmou que não tolera o desrespeito à dignidade humana e que colabora com as autoridades.
Para encerrar o processo civil, as empresas envolvidas assinaram um acordo no final de dezembro prevendo o pagamento de R$ 40 milhões, segundo o G1. Desse montante, R$ 20 milhões serão destinados diretamente aos 224 trabalhadores resgatados como indenização por danos morais individuais – o que representa cerca de R$ 89 mil para cada um. A outra metade será direcionada para o dano moral coletivo, em fundos a serem indicados pelo MPT. No acordo, a BYD atuou como avalista do pagamento, mas não precisou admitir culpabilidade formal no processo.
Embora a produção de modelos como o Dolphin Mini já tenha começado, o clima na planta baiana ainda é de alerta. Trabalhadores brasileiros realizaram protestos recentes contra a falta de infraestrutura básica, como banheiros químicos e água potável, reforçando que as tensões trabalhistas na “fábrica do futuro” ainda não foram totalmente resolvidas.
O Olhar Digital entrou em contato com a BYD solicitando um posicionamento oficial e atualizará este texto assim que houver uma resposta da companhia.
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