Mulheres na Ciência: o desafio vai além do diploma

Neste domingo, 8 de março, é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Vale destacar também que, em 11 de fevereiro, foi comemorado o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência. As duas datas, próximas no calendário, reforçam um debate que vai além das homenagens: como se constroem, na prática, as trajetórias de meninas e mulheres que escolhem a ciência?

Tradicionalmente, essa época do ano é marcada por balanços estatísticos que tentam traduzir a presença feminina em gráficos de barras e tabelas de produtividade. Pergunta-se, com frequência: quantas mulheres estão na graduação? Quantas chegam ao doutorado? Quantas, enfim, ocupam as cadeiras de liderança em universidades e centros de pesquisa de prestígio?

No Brasil, as mulheres já são maioria na graduação e na pós-graduação, mas sua presença diminui significativamente nos níveis mais altos da carreira acadêmica. Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

Embora esses números sejam bússolas fundamentais para embasar políticas públicas e revelar desigualdades persistentes, eles são silenciosos sobre o “como” – registram a chegada ou a desistência, mas raramente explicam o percurso sinuoso e os obstáculos que não aparecem nos editais.

Como destaca Fernanda Staniscuaski, docente e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a presença feminina na ciência costuma ser tratada quase exclusivamente como uma questão de volume. A solução mais citada nos fóruns acadêmicos é ampliar o acesso e garantir a representatividade. No entanto, focar apenas na quantidade simplifica um problema que envolve estruturas muito mais profundas e subjetivas.

“Quando observamos com atenção as experiências concretas de mulheres e meninas na ciência, o que aparece não é apenas uma questão de quantidade, mas de forma”, explica Fernanda. Para ela, é preciso analisar como essas mulheres são recebidas, avaliadas e, principalmente, reconhecidas. O sentimento de pertencimento, por exemplo, é o combustível invisível que influencia a decisão de continuar ou abandonar a carreira.

Cientista é profissão “de homem”?

O acesso à ciência nunca foi um terreno plano. As desigualdades educacionais, econômicas e regionais começam a desenhar o destino das cientistas ainda na infância. Nem todas as estudantes têm o privilégio de tocar em um microscópio, visitar feiras científicas ou ter professores que alimentem sua curiosidade contra a maré das expectativas sociais. O peso do que é considerado “profissão de homem” ou “profissão de mulher” ainda atua como um filtro primário, moldando escolhas antes mesmo do primeiro vestibular.

Essa realidade é sentida de forma nítida por quem percorre o interior do Brasil. Amanda Tosi, mestre e doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do grupo “As Meteoríticas”, relata que, em suas palestras pelo país, a barreira cultural ainda é o primeiro grande muro. “As mulheres, fora das grandes cidades, ainda são educadas e direcionadas para serem donas de casa. Além disso, vi em algumas escolas adolescentes, quase que crianças ainda, levando seus filhos para as aulas. Para mim, uma realidade ainda chocante”, desabafa a geóloga.

A pesquisadora Amanda Tosi, doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em meteoritos, acredita que uma trajetória justa para mulheres na ciência só será possível quando a base mudar. Crédito: Arquivo pessoal

Ela acredita que uma trajetória justa só será possível quando a base mudar: “Enquanto mulheres tiverem essa ‘obrigação’ na sociedade, e se tiver tempo, poderem fazer uma graduação e seguir uma carreira, elas nunca terão trajetórias justas e sustentáveis”.

Mesmo para quem consegue furar essa bolha inicial, o caminho não se torna mais fácil. No Brasil, embora as mulheres já sejam maioria na graduação e na pós-graduação, essa presença sofre uma erosão severa conforme sobe a hierarquia acadêmica. É o que os especialistas chamam de “efeito tesoura”: a participação feminina diminui drasticamente nos níveis de liderança e em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Para Lorrane Olivlet, engenheira biomédica e mestranda em medicina e saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de divulgadora científica dedicada à astronomia e ao setor espacial, existe um abismo entre o diploma e a cadeira de decisão. “Há uma diferença clara entre acesso à formação e acesso ao poder de decisão. É estatístico que muitas mulheres se formam nessas áreas, mas poucas irão ocupar um cargo de liderança ou diretoria”. Ela descreve esse fenômeno como um “filtro invisível” que ignora a alta qualificação técnica em prol de preconceitos enraizados no setor espacial e na engenharia.

Estruturas acadêmicas impõem regras invisíveis

A carreira acadêmica é uma maratona de obstáculos baseada em avaliações constantes. Publicações, projetos aprovados e metas de produtividade funcionam como peneiras sucessivas. Fernanda ressalta que as dificuldades são muitas vezes sutis, mas acumulativas. A sobrecarga de tarefas administrativas, a menor visibilidade em projetos de peso e a necessidade constante de “provar” competência geram um desgaste que os colegas homens raramente experimentam.

Lorrane Olivlet reforça o assédio que as mulheres cientistas sofrem tanto nos ambientes reais quanto virtuais. Crédito: Arquivo pessoal

Maria Elisabeth Zucolotto, mestre em geologia e doutora em engenharia de materiais pela UFRJ e uma das maiores autoridades em meteoritos no país, viveu décadas enfrentando essas regras que parecem mudar de acordo com quem joga. Ela recorda que, logo após a formação, a maternidade e as pressões domésticas a deixaram para trás em relação aos colegas que seguiram direto para o mestrado.

Mas os obstáculos eram também institucionais. “Meu orientador não quis [me contratar] porque eu ‘não precisava’, já que meu marido ganhava bem”, conta Elisabeth, revelando como a autonomia financeira feminina era vista como um acessório, e não um direito profissional.

A desvalorização intelectual é outra faceta desse jogo desigual. Ela relata um episódio emblemático de quando começou a trabalhar com uma técnica inovadora chamada Difração de Elétrons Retroespalhados (EBSD, na sigla em inglês).

Após apresentar um trabalho, Elizabeth foi desencorajada por órgãos de fomento com o argumento de que “não sabia nada do que estava sendo tratado”. Anos depois, um cientista alemão escreveu sobre o mesmo tema e foi aclamado, tornando-se a única referência citada, inclusive por brasileiros. “Não sei se isso acontece por eu ser brasileira, por eu ser mulher, ou por ambos”, reflete a pesquisadora, expondo a ferida da invisibilidade que atinge mulheres cientistas no Sul Global.

Essas barreiras de credibilidade muitas vezes surgem como ataques diretos à capacidade de conciliar a vida pessoal com a intelectual. Josina Nascimento, astrônoma do Observatório Nacional (ON) há mais de 45 anos e atual gestora da Divisão de Comunicação e Popularização da Ciência (DICOP), recorda um momento tenso durante sua entrevista de mestrado. “Um dos professores me perguntou: ‘como é que você pode pensar em fazer um mestrado aqui tendo quatro filhos?’. Eu respondi que, caso achassem impossível, eu faria as matérias como ouvinte para provar que daria conta”. Josina obteve grau máximo em quase todas as disciplinas, apesar das tentativas de reprovação por parte do docente que havia posto sua capacidade em dúvida.

Rosaly Lopes, cientista sênior da NASA e vice-diretora no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), traz uma perspectiva diferente, mas que reforça a importância do suporte. Embora afirme não ter sofrido grandes obstáculos diretos por ser mulher, creditando isso à sua postura de “seguir em frente” e ao apoio de mentores homens, ela admite que a descrença alheia era a norma quando era jovem. “As barreiras eram muito maiores quando eu era menina e o pessoal não acreditava que eu ia ser uma astrônoma ou uma cientista. Talvez por teimosia, eu não prestei muita atenção nisso”, conta.

Mulheres e a eterna balança entre carreira e maternidade

Como vemos, um dos pontos de inflexão mais críticos na carreira de uma pesquisadora é a parentalidade. O modelo dominante de excelência científica valoriza a disponibilidade contínua e a produção sem hiatos. Nesse sistema, qualquer pausa é vista como perda de fôlego ou falta de comprometimento.

Maria Elizabeth Zucolotto com um grupo de estudantes em uma aula sobre meteoritos, assunto do qual ela é referência mundial. Créditos: Panmela Oliveira/Dcom/Fapemig

Estudos do movimento Parent in Science mostram que a maternidade é um ponto de inflexão importante na trajetória de pesquisadoras. Após o nascimento dos filhos, é comum ocorrer queda temporária na produtividade, o que entra em choque com um sistema que raramente ajusta prazos e expectativas.

Amanda resume o dilema: “Fazer ciência não é fácil, pois demanda tempo, dedicação, estudo constante… da mesma maneira é a maternidade. Então, fazer ciência e ser mãe presente, acredito ser um dos maiores desafios da mulher”.

Já Elisabeth sentiu o peso do tempo no currículo. Ela levou cerca de 15 anos para concluir o ciclo até o doutorado devido aos cuidados com os filhos. Quando finalmente terminou, as bolsas para recém-doutores eram voltadas para quem havia feito uma trajetória linear e rápida. “Eu não tive acesso porque as bolsas eram direcionadas a quem concluía da graduação ao doutorado em poucos anos”, explica.

Josina reforça que essa sobrecarga é física e estrutural. “O timão da família está nas mãos das mulheres. Para conseguir conciliar tudo, passei muitos anos dormindo zero ou, no máximo, duas horas por noite. Somente assim pude me dedicar ao Observatório Nacional, à carreira científica e ao mestrado e doutorado sendo mãe dedicada”, revela. Para ela, a mudança mais urgente é que os cuidados com a família sejam oficialmente levados em conta em todas as instâncias da ciência. “Naquela época, eu não podia pedir prazo para cuidar de um filho com bronquite. Não tinha chance”.

Essa “punição” pelo tempo dedicado ao cuidado mostra que a ciência, embora busque a verdade universal, ainda ignora a biologia e a dinâmica social das mulheres. Recentemente, medidas como a inclusão da licença-maternidade no currículo Lattes e a extensão de prazos em editais surgiram como avanços. No entanto, Fernanda adverte que muitas dessas ações ainda são pontuais e não alteram o cerne do que é considerado “excelência”.

A astrônoma Josina Nascimento, do Observatório Nacional, enfrentou dúvidas sobre sua capacidade de fazer mestrado por ter quatro filhos. Crédito: Arquivo pessoal

Ambiente digital amplia ataques contra cientistas mulheres

Para a nova geração de cientistas, os conflitos ganharam novas arenas, como o ambiente digital. Lorrane, que atua fortemente na divulgação científica, relata que o simples ato de exaltar o protagonismo feminino gera reações agressivas. “Produzi uma série de vídeos sobre ‘invenções femininas’ e recebi bastante hate e muitos comentários tentando invalidar os dados. Isso revela como ainda existe resistência quando o protagonismo feminino na ciência é evidenciado”, afirma.

Além do assédio virtual, ela aponta para a persistência de problemas graves nos corredores das universidades, como o assédio moral e sexual. “Quase todas as mulheres cientistas com quem eu já conversei tiveram problemas relacionados a assédio nas universidades”, diz a especialista, enfatizando que a segurança física e psicológica é um pré-requisito para qualquer trajetória sustentável. Ela conecta o debate de gênero na ciência a uma questão ainda mais urgente: a luta contra o feminicídio e a violência estrutural, que são a face mais cruel da desvalorização da mulher na sociedade.

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Referências femininas inspiram novas gerações na ciência

A trajetória de mulheres na ciência não se faz apenas de resiliência, mas de uma persistente ocupação de territórios historicamente hostis. A presença de modelos femininos atua como um corretor de rota, permitindo que novas pesquisadoras projetem suas carreiras em horizontes que a cultura e a estrutura acadêmica, por vezes, tentam interditar. Para as entrevistadas, as vozes que as antecederam não são apenas nomes em livros, mas faróis que validam suas próprias ambições.

Na visão de Elisabeth, o pilar de sustentação é Marie Curie, que desafiou a proibição do ensino superior para mulheres na Polônia e acabou por revolucionar a física e a química modernas. A “meteorítica” vê na polonesa a personificação da resiliência acadêmica: “O que faz dela um exemplo tão forte é a combinação de impacto científico e barreiras sociais. Ela não só venceu: ajudou a mudar as regras do jogo para mulheres na ciência”.

Para Rosaly, o divisor de águas foi o impacto visual da representatividade. Ao deparar-se com um registro de Frances “Poppy” Northcutt, a única mulher a atuar na sala de controle da missão Apollo, ela entendeu que aquele ambiente, até então estritamente masculino, também era um lugar possível para si. “Aquilo me inspirou muito. Eu pensei: se ela conseguiu, eu também vou conseguir”, recorda, evidenciando como a imagem de uma pioneira em um centro de comando foi o estopim para sua própria carreira sênior na NASA.

Essa influência atravessa gerações e se manifesta até nas decisões mais íntimas. Amanda encontrou em Valentina Tereshkova, a primeira mulher a orbitar a Terra em voo solo, a coragem necessária para desbravar a geologia e o estudo de meteoritos. A admiração pela cosmonauta foi tamanha que ela batizou a própria filha em sua homenagem, vendo na russa um símbolo de capacidade técnica e ousadia: “Ela é a prova de que todas as mulheres podem ser o que elas desejarem, inclusive astronautas”.

Ao ver a foto da única mulher na sala de controle das missões Apollo, Rosaly Lopes percebeu que aquele espaço também poderia ser seu – inspiração que ajudou a impulsionar sua trajetória até se tornar cientista sênior da NASA. Crédito: Arquivo Pessoal

O reconhecimento também se volta para quem abre portas no presente. Josina destaca o trabalho de Patricia Spinelli, pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), que conduz o Programa Meninas da instituição. “Ela tem feito muito pela ciência e pela popularização da ciência com resultados maravilhosos”.

Lorrane também busca inspiração em rostos conhecidos no dia a dia da pesquisa. Ela credita sua trajetória ao suporte de mulheres como Paola Barros Delben, uma das primeiras cientistas antárticas que conheceu, e Alessandra Abe Pacini, que validou seus primeiros passos na divulgação científica. “Foi uma das primeiras que acreditou no meu trabalho e me mostrou possibilidades na área”.

Rompendo barreiras e fazendo a ciência acontecer

Barreiras históricas, culturais e institucionais ainda ditam os rumos que as mulheres percorrem, exigindo resiliência e estratégias de suporte contínuo. A maternidade, o assédio estrutural e a invisibilidade profissional não são apenas obstáculos individuais, mas reflexos de um sistema que ainda precisa se adaptar para reconhecer talentos independentemente de gênero. Ao analisar essas estruturas, fica evidente que políticas públicas e iniciativas institucionais devem ir além de números e metas: é necessário revolucionar a forma como a ciência recebe, avalia e valoriza quem a ela se dedica.

Ao mesmo tempo, as histórias de Amanda, Elisabeth, Josina, Lorrane e Rosaly mostram que inspiração, redes de apoio e modelos de referência podem fazer toda a diferença. Cada exemplo de superação evidencia que é possível conquistar espaços historicamente hostis e construir trajetórias sólidas e significativas.

Mais do que apenas reconhecer o passado, celebrar essas conquistas é abrir portas para que novas gerações de meninas e mulheres se sintam confiantes para sonhar alto, dedicar-se à pesquisa e transformar a ciência. Quando todos – e todas – têm espaço para criar, descobrir e liderar, o conhecimento avança de verdade. Cada mulher que segue em frente inspira e fortalece outras ao seu redor, mostrando que a mudança já está acontecendo e que o futuro da ciência será mais justo e plural.

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