Dormir oito horas seguidas é mais um hábito moderno do que uma regra biológica. Durante séculos, muitas pessoas acordavam no meio da noite e depois voltavam a dormir, um padrão que hoje nos parece estranho, mas era comum.
Historicamente, o sono noturno era dividido em dois períodos chamados “primeiro sono” e “segundo sono”. Cada etapa durava várias horas e era separada por um intervalo de vigília de uma hora ou mais.
Registros de diferentes partes do mundo mostram que, após o anoitecer, famílias iam dormir cedo e acordavam por volta da meia-noite. Nesse intervalo, permaneciam acordadas antes de voltar a dormir até o amanhecer.

Esse intervalo de vigília não era visto como perda de tempo. Pelo contrário, marcava o centro da noite, ajudando as pessoas a lidar com longos períodos de escuridão, especialmente no inverno.
Durante esse tempo, algumas pessoas cuidavam de tarefas domésticas ou dos animais. Outras rezavam, refletiam sobre sonhos ou liam. Cartas e diários antigos também registram momentos de socialização entre vizinhos e familiares. E, claro, casais aproveitavam a hora para a intimidade.
Como perdemos o ‘segundo sono’
O desaparecimento do segundo sono ocorreu nos últimos 200 anos, influenciado por mudanças sociais e tecnológicas. A iluminação artificial foi decisiva. Primeiro com lâmpadas a óleo, depois gás e luz elétrica, a noite passou a ser mais aproveitável para atividades, adiando o horário de dormir.
A luz intensa durante a noite também afeta nosso ritmo biológico. Ela atrasa a produção de melatonina, o hormônio do sono, dificultando o despertar natural no meio da noite.

A Revolução Industrial também mudou os horários de descanso. O trabalho em fábricas incentivava um sono contínuo. No início do século XX, a ideia de oito horas ininterruptas se consolidou, substituindo os ciclos antigos.
Estudos mostram que, sem relógios ou luz artificial, o padrão do sono bifásico ainda se manifesta. Pesquisadores observaram isso em laboratórios de isolamento e em comunidades rurais de Madagascar sem eletricidade, onde as pessoas continuavam acordando por volta da meia-noite.
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Invernos longos e percepção do tempo
A luz regula o relógio biológico e influencia como percebemos o tempo. No inverno, a luz da manhã chega mais tarde e é fraca, dificultando o alinhamento do ritmo circadiano. Esse efeito é mais intenso em regiões polares, onde o sol pode não nascer ou se pôr por semanas.
Estudos com populações nativas de altas latitudes mostram que rotinas diárias estáveis ajudam a lidar melhor com longos períodos de escuridão. Pesquisas com islandeses e seus descendentes no Canadá indicam que genética e hábitos comunitários reduzem transtornos como a depressão sazonal.
Pesquisas do Laboratório de Cognição Temporal Ambiental da Universidade de Keele mostram que pouca luz prolonga a percepção do tempo. Em experiências com realidade virtual, participantes perceberam intervalos curtos como mais longos em cenas noturnas ou escuras.

Uma nova perspectiva sobre a insônia
Despertares breves são normais, especialmente perto do sono REM, associado a sonhos vívidos. O que muda a percepção é a reação ao despertar. Ansiedade, tédio ou pouca luz aumentam a sensação de duração do tempo, enquanto calma e envolvimento a reduzem.
Sem ocupar o tempo de vigília como faziam nossos antepassados, acordar às 3h da manhã pode parecer mais longo e estressante. Por isso, técnicas modernas recomendam sair da cama após cerca de 20 minutos acordado e realizar atividades tranquilas com pouca luz, como ler.
Especialistas também sugerem esconder o relógio e não medir o tempo durante a insônia. Aceitar o estado de vigília e entender como a mente percebe o tempo pode ser a forma mais eficiente e segura de retomar o descanso.
Em um artigo publicado no site The Conversation, Darren Rhodes, professor de Psicologia Cognitiva e diretor do Laboratório de Cognição Temporal Ambiental da Universidade de Keele, no Reino Unido, destaca ainda que entender o sono bifásico pode ajudar a normalizar despertares noturnos, reduzindo a ansiedade sobre o que hoje chamamos de insônia.
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