Você já teve a sensação de que seu celular está “ouvindo” suas conversas? Basta comentar com um amigo sobre a vontade de comprar uma fritadeira elétrica e, minutos depois, um anúncio patrocinado surge nas suas redes sociais. Embora pareça feitiçaria ou espionagem, a realidade técnica por trás da nossa privacidade digital é um pouco mais complexa (e menos cinematográfica) do que imaginamos.
A grande barreira que impede Mark Zuckerberg ou qualquer engenheiro de ler o seu “bom dia” no grupo da família é a criptografia de ponta a ponta. Aplicativos como o WhatsApp e o Signal utilizam essa tecnologia, o que significa que a mensagem é trancada com uma “chave” digital no seu aparelho e só pode ser aberta pelo destinatário.
O que as redes sociais podem ler nas suas conversas privadas?
De acordo com o Centro de Ajuda do WhatsApp, nem mesmo a empresa pode ler suas mensagens ou ouvir suas chamadas, pois eles não possuem as chaves de descriptografia que ficam guardadas apenas nos dispositivos dos usuários. Portanto, o conteúdo textual e os áudios das suas conversas privadas nesses apps são tecnicamente inacessíveis para as redes sociais.

Se eles não leem o conteúdo, como sabem tanto sobre nós? A resposta está nos metadados. Imagine que sua conversa é uma carta: a criptografia protege o texto dentro do envelope, mas a rede social ainda consegue ler tudo o que está escrito do lado de fora.
As empresas têm acesso a informações como: com quem você fala, a que hora a mensagem foi enviada, sua localização aproximada e a frequência das interações. Como explica a Electronic Frontier Foundation (EFF), os metadados podem revelar padrões de comportamento extremamente precisos, permitindo que as plataformas tracem seu perfil de consumo sem nunca precisar ler uma única palavra do que foi escrito.
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Os pontos cegos: Telegram e backups
Aqui, o sinal de alerta acende. Nem todo aplicativo protege suas conversas da mesma forma por padrão. No Telegram, por exemplo, apenas os “Chats Secretos” possuem criptografia de ponta a ponta. As conversas comuns são armazenadas na nuvem da empresa, o que tecnicamente permitiria o acesso aos dados em situações específicas de moderação ou solicitações legais.

Outro “buraco” na privacidade são os backups. Se você salva suas conversas do WhatsApp no Google Drive ou iCloud sem ativar explicitamente a proteção por senha ou chave de 64 dígitos para backups criptografados, o conteúdo deixa de estar protegido pela criptografia de ponta a ponta e passa a ser acessível pela provedora do serviço de nuvem.
O mito da escuta vs. o poder do algoritmo
Afinal, o celular nos ouve para mandar anúncios? Especialistas e testes de segurança indicam que não. O processamento de áudio constante consumiria bateria e dados de forma denunciável. A verdade é que os algoritmos de publicidade são assustadoramente eficientes em cruzamento de dados.
Muitas vezes, a “mágica” acontece porque você frequentou o mesmo lugar que seu amigo (geolocalização), ou porque pessoas com o mesmo perfil de navegação que o seu compraram aquele produto. Como detalhado em investigações da Wired, os aplicativos não precisam nos ouvir quando já possuem milhares de outros pontos de dados sobre nossos hábitos de navegação e histórico de buscas.
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