Home Variedade Os apocalípticos e os integrados na era das IAs

Os apocalípticos e os integrados na era das IAs

by Fesouza
7 minutes read

Esse é um trecho da newsletter Primeiro Olhar, disponível para assinantes do Clube Olhar Digital.
Como você vê os recentes avanços tecnológicos? Especialmente quando falamos de inteligência artificial?

Muito do trabalho jornalístico consiste em fazer filtros e pontes. Na cobertura de ciência e tecnologia, isso me parece particularmente evidente. Não sei explicar o funcionamento de um reator de fusão nuclear e nem como o Telescópio Espacial James Webb enxerga tão longe. Mas, todos os dias, aqui no Olhar Digital, escrevemos sobre esses assuntos. Pesquisamos, filtramos, conversamos com especialistas e publicamos – na tentativa de fazer uma ponte para que o outro lado entenda a novidade.

Os dois assuntos que citei como exemplo são mais “neutros”, distantes da realidade do grande público. Isso muda quando falamos de internet, redes sociais e, claro, inteligência artificial.

Nós usamos essas tecnologias e somos impactados diretamente por elas, em maior ou menor grau – mesmo sem saber como elas funcionam exatamente. E isso gera diferentes percepções, que vão variar conforme seu uso profissional e pessoal.

Todo avanço tecnológico é cercado por receio e por expectativas. Uns vendem que estamos vivendo uma revolução que mudará tudo para melhor e para sempre. Outros argumentam que estamos diante de um perigo com potencial catastrófico.

Foi assim com a internet. Foi assim com as redes sociais. E é assim com a inteligência artificial. Com a internet e com as redes sociais, há cenários parecidos.

O mundo não acabou e incorporamos essas tecnologias à nossa rotina. Hoje, como você trabalharia sem internet? Quem aí se lembra como era difícil conversar com aquele familiar ou aquele amigo querido que mora em outro país antes das redes sociais? Em um só grupo de WhatsApp, você reúne seus melhores amigos de infância! Com o celular na palma da mão, você se mantém informado o dia inteiro. Pode passar o tempo no transporte público lendo, conversando ou vendo vídeos. Isso sem falar nos avanços que o desenvolvimento digital permitiu à própria ciência e à medicina.

Mas… pode-se fazer muito mal nessa terra de ninguém.

Crimes são cometidos no mundo digital, as redes sociais não são ambientes seguros para crianças e adolescentes, há circulação de fake news e por aí vai. E só agora, anos depois, autoridades debatem com mais seriedade a regulamentação e a responsabilização das plataformas – assunto bastante discutido nessa newsletter, sobretudo no caso Grok.

Com a inteligência artificial, me parece que seguiremos um caminho parecido. A tecnologia é capaz de fazer bem e fazer mal.

Refletindo sobre tudo isso, me lembrei dos tempos de faculdade…

Os apocalípticos e os integrados

Confesso que não me lembrava muito bem e precisei revisitar o livro “Apocalípticos e Integrados”, de Umberto Eco, publicado em 1964.

De uma forma constrangedoramente simplificada, o texto analisa como a cultura de massa (TV, rádio, imprensa, publicidade) mudou a forma de produzir e consumir informação e arte. Eco contrapõe os “apocalípticos”, que veem a mídia de massa como degradação cultural e manipulação, aos “integrados”, que celebram o progresso e a democratização do acesso.

O contexto é outro. Mas o link com inteligência artificial não é originalidade minha.

De um lado, temos as grandes empresas de tecnologia, que fomentam o “discurso integrado”:

  • Amazon, Microsoft, Google e Meta devem gastar, juntas, mais de US$ 630 bilhões este ano. Estamos falando de R$ 3,3 trilhões. Em 2025, o PIB do terceiro trimestre no país foi de R$ 3,2 trilhões. Por trás de tantos gastos, claro, temos a corrida das IAs.
  • A OpenAI trabalha com compromissos de cerca de US$ 1,4 trilhão nos próximos 8 anos.
  • Elon Musk, o homem mais rico do mundo, ficou ainda mais rico depois de juntar SpaceX e xAI. No comunicado, falou em um tom bem otimista de levar data centers para o espaço.
  • Dia após dia, surgem novas tecnologias: agentes de IA, modelos de linguagem abastecendo chatbots, IAs aplicadas a smartphones e computadores, navegadores inteligentes e outros inúmeros exemplos.
  • A tecnologia fará parte do seu trabalho para que você possa aproveitar melhor seu tempo livre! E a IA não vai tomar seu emprego – mas quem sabe usar IA, sim. Essas são as promessas.

O mercado financeiro, que já foi mais otimista, hoje vê os altos gastos com IA com uma certa preocupação. Como noticiamos, as big techs perderam, juntas, mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado ao longo da última semana (mais de R$ 5 trilhões). As quedas nas ações aconteceram em meio a uma onda de vendas provocada por receios quanto ao retorno dos investimentos em inteligência artificial.

Mas, entenda: é mais arriscado ficar parado e não investir, enquanto outros investem, do que investir demais junto com todo mundo e passar do ponto.

As empresas de tecnologia nos bombardeiam com novidades e vendem um novo mundo com as IAs. É uma revolução impossível de ficar de fora! Os tecnologicamente “integrados”, voltando a Umberto Eco, compram essa ideia.

Do outro lado, temos uma visão “apocalíptica”:

  • Empresas de tecnologia já demitem muito por causa das IAs. Não necessariamente pela substituição do homem pela máquina, mas para realocar recursos.
  • O rastreador independente de demissões Layoffs.fyi contabilizou 124.201 demissões em 271 empresas de tecnologia em 2025. Neste ano, são 25.644 desligamentos em 31 companhias. Um número mais baixo em relação ao pós-pandemia, é verdade, quando as big techs acabaram fazendo cortes depois de demandas diminuírem.
  • Data center precisa de energia e água. Vivemos uma crise climática. Não combina, né?
  • Se não bastasse o desemprego, corremos o risco de perder o controle sobre a tecnologia. Basta ver o exemplo do Moltbook, que analisamos nessa newsletter. Uma rede social em que robôs bolam planos contra humanos!

Os tecnologicamente “apocalípticos” refutam o avanço tecnológico por seus riscos inerentes.

Mas quem está certo?

A lição do texto de Umberto Eco, ao meu ver, é uma fuga dos extremos e a proposição de uma leitura mais crítica e equilibrada, sem demonizar nem glorificar a mídia. Neste caso, a tecnologia.

Não adianta fugir da realidade de que a inteligência artificial veio para ficar. Mas não adianta comprar o “comercial de margarina” que as empresas te prometem, não será assim. Ao mesmo tempo, o mundo não vai acabar numa rebelião das máquinas. Eu espero…

O que a gente precisa fazer – e que não fizemos com internet e redes sociais – é nos antecipar aos problemas. Algo que, até aqui, também já falhamos. Basta ver que existem IAs gerando imagens sexualizadas sem consentimento por aí.

Assim como temos elementos fabulosos e terríveis na internet, caminhamos para uma IA com diferentes potenciais. Enquanto uma IA estará acelerando descobertas na medicina, outra estará gerando deepfakes.

Ainda há tempo para agir. Isso passa por várias frentes, como:

  • Regulamentação para responsabilizar as empresas por suas tecnologias e os usuários por suas ações.
  • Freios tecnológicos para impedir que IAs cometam crimes, como no caso do Grok.
  • Uso de energia sustentável para alimentar as IAs.
  • Educação digital pensada para capacitação e ética.
  • Conforme a automação avança, a renda básica universal precisa estar na mesa de debates.

Assim, talvez seja possível desfrutar de alguns benefícios apontados pelos “integrados” sem cair nas armadilhas que os “apocalípticos” tanto temem.

Do nosso lado, dos jornalistas, o desafio segue: relatar cada avanço tecnológico, contextualizar a retórica das empresas e o movimento do mercado. E assim, criar pontes para que você visualize melhor o mar que navegamos.

O post Os apocalípticos e os integrados na era das IAs apareceu primeiro em Olhar Digital.

You may also like

Leave a Comment