Streamings não são mais a melhor opção. Calma, eu já explico o que eu quero dizer com isso e quem sabe até você concorde comigo.
A década de 1980 foi uma das mais importantes para o cinema mundial. Ela foi conhecida como o auge dos filmes Blockbusters, aqueles de alto orçamento e com grande apelo popular, que tornaram a ida ao cinema algo tão cotidiano para os americanos quanto dormir, trabalhar e assistir NFL toda segunda-feira à noite.
Com nem sempre dava pra ir ao cinema e nem ficar comprando fitas, o mercado de videolocadora virou uma febre. Nos Estados Unidos, tivemos o nascimento e crescimento de várias franquias do setor. West Coast Video, Rogers Video, The Major Video e assim vai. Mas teve uma que se destacou muito mais que as outras, a Blockbuster.
A expansão da marca foi tão grande que havia locadoras ao redor do mundo, totalizando 9 mil unidades e 65 milhões de clientes. O que começou com fitas VHS virou DVDs, mas a mudança veio logo quando o seu fim estava começando — e ele não seria físico.
Ao alugar um filme na Blockbuster, você tinha um período específico pra ficar com ele, aí era necessário devolver. Muita gente costumava fazer a clássica estratégia de pegar na sexta e só devolver na segunda, já que de domingo não abria. Por outro lado, e se você esquecesse, tome multa de atraso. E foi uma dessas multas, no valor de 40 dólares, que fez Reed Hastings abrir uma empresa que mudaria o cenário para sempre: a Netflix.
Nascimento da Netflix
Ok, chega de contexto, bora pro assunto. A Netflix, quando deixou de ser uma empresa de aluguel de DVD via correio para se tornar um serviço de streaming, tinha como ideal ser uma alternativa simples, barata e, claro, sem multas. O serviço chegou ao Brasil em setembro de 2011 custando míseros R$ 15,00. Na época, a internet não era das melhores, mas o preço atrativo e o catálogo vasto agradaram muito.
Com o passar do tempo, novos conteúdos foram adicionados e produções originais começaram a aparecer. E falando em aparecer, outras empresas começaram a entrar no mercado de streamings: Amazon com o Prime Video, HBO com o Max, Disney com o Disney+, Apple com a Apple TV+ e assim vai.
Em relação ao conteúdo e ao financeiro, assinar os serviços de streaming era mais viável do que continuar pagando TV por assinatura. Você podia ver o que queria, quando queria e por uma porcentagem do preço.
Esse cenário era o ideal, até que as coisas mudaram e rápido. Segundo um levantamento de 2024, a Netflix aumentou o preço de sua assinatura em 300% num espaço de 13 anos, custando R$ 44,90 o plano base.
“Ué, mas tem um plano mais barato, que custa só R$ 20,90. Como assim 300%?”
É aí que vem o pulo do gato. O plano de hoje equivalente ao mesmo lá de 2011 seria o plano Padrão, que dá acesso a conteúdos em Full HD e duas telas simultâneas. Esse tá custando R$ 44,90, ou seja, três vezes o valor.
Agora, que bom que você falou dele, o plano baratinho. Com o passar dos anos, essas empresas de streaming vêm procurando formas de aumentar seu lucro sem criar revolta por parte dos usuários. Como eles sabem que os aumentos são bem impopulares, a alternativa foi criar planos com propagandas.
O que era uma tranquilidade tremenda, de só assistir sua série em paz, virou uma experiência parecida com as TVs por assinatura, em que o seu conteúdo é interrompido por algum comercial insuportável.
Quando isso acontece no YouTube ou no Spotify, que eu uso principalmente pra ouvir podcasts, eu fico estressado, mas aceito por ser a versão gratuita (pra quem tá na dúvida, eu uso Deezer), agora, em um serviço que eu tenho que pagar pra usar? Isso já beira o absurdo.
Se fosse um Mercado Play, que é de graça, eu não veria problema, mas não é o caso. Inclusive, deixo aqui minha reclamação: podia ter uma opção sem propaganda pra assinantes do Meli+, dona Mercado Livre? Já estou pagando, não custa nada!
A gente tá falando aqui dos serviços de filmes e séries, mas o mesmo acontece com outras áreas. Adobe aumenta o preço do Creative Cloud, Xbox planeja aumentar o preço do Game Pass, PlayStation aumenta o preço da Plus, todos os planos do Spotify mais caros.
Não compensa mais
O que antes era pra ser uma solução mais comoda e barata não está mais compensando. Ok, é mais barato do que adquirir individualmente cada filme, série, jogo e álbum de música, mas até onde vai a praticidade?
Esses dias eu quis reassistir um dos meus filmes favoritos, Blade Runner 2049, e foi complicado. O único serviço que tinha era a Apple TV e só para alugar. Nem mesmo pagando a assinatura de R$ 21,90 eu tenho acesso ao filme. Isso, claro, não é nem perto do que a Amazon faz, ao anunciar que o filme tem no Prime Video, mas pra acessar você precisa pagar uma assinatura premium específica pra isso.
Simplesmente, eu me sinto um otário toda vez que procuro um conteúdo na plataforma.
Isso tudo faz com que mídias físicas e a pirataria voltem a ser opções para os usuários, mas por motivos diferentes
A ideia das mídias físicas é se livrar de assinaturas que, quando somadas, pesam muito no bolso. Então, é mais interessante comprar o acesso livre e irrestrito daquele conteúdo. Segundo o relatório Mercado Brasileiro de Música, houve um crescimento de 31,5% das compras de álbuns físicos, sendo os vinis 76,7% desse faturamento. O interessante, pelo que entendi, é que esse montante só diz respeito a produtos novos, então o número total deve ser bem maior se incluirmos os usados.
Já a pirataria tinha se tornado menos atraente aos consumidores, dada a praticidade dos streamings. Em 2024, foi registrado uma desaceleração no crescimento da pirataria audiovisual na América Latina, com só 0,1% a mais dos números apresentados em 2023.
Porém, essa desaceleração veio após alguns anos de forte crescimento, com um aumento de 7,88% de 2022 para 2023. E era esperado, já que as formas alternativas são muito atrativas para quem não pode arcar financeiramente com o conteúdo, seja uma pessoa de baixa renda que realmente não tem grana ou alguém de classe média que diz “eu que não vou assinar esse serviço só pra assistir essa série”.
Agora, tem uma terceira opção que acabei não comentando, mas vale a pena destacar. O compartilhamento de contas se tornou uma opção viável e muito usada por aí, em que usuários conseguiam pagar ¼ do valor total. Mas que as empresas já estão há um certo tempo indo pra cima. O motivo? É uma quantidade menor de usuários pagantes.
A Netflix instaurou em 2023 uma política de “residência Netflix”, em que os usuários deveriam utilizar a conta na mesma residência. Caso não, as duas alternativas seriam pedir uma permissão para viagem ou comprar um acesso de assinante extra. O fato dessa decisão ter sido confusa e comunicada de uma forma pouco clara fez com que o Procon de SP entrasse na jogada e o TJ-SP aplicasse uma multa de R$ 12,5 milhões na empresa, mas ela inda pode recorrer.
Acontece que a Netflix serviu de exemplo, mas não positivo. Esse sistema de compartilhamento extra pago foi adotado também pela Disney e pela Max e não parece que vai voltar ao normal tão cedo.
No fim das contas, o que antes era uma solução mágica e ideal para um problema, está se tornando um novo problema. Então eu categoricamente afirmo que streaming não está mais valendo o preço.