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Pesquisa deixa ciência mais perto de criar rim ‘universal’

by Fesouza
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Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) e de instituições da China alcançaram um avanço que deixa a ciência mais perto de criar um rim “universal”. O que isso significa: um órgão que pode ser transplantado para pacientes com qualquer tipo sanguíneo.

Num estudo publicado na revista Nature Biomedical Engineering, eles demonstraram que é possível usar enzimas para transformar temporariamente um órgão de tipo A em tipo O. Essa técnica funciona como uma “maquiagem molecular”, que esconde o tipo sanguíneo original do doador. Isso permite que o rim seja aceito por um receptor de qualquer tipo de sangue sem sofrer um ataque imediato do sistema de defesa.

Embora o termo “universal” seja usado para descrever o objetivo final, a tecnologia ainda está em fase de testes. No experimento realizado, o órgão convertido funcionou bem por dois dias num paciente com morte cerebral. No entanto, a partir do terceiro dia, as características originais do sangue tipo A começaram a reaparecer. Isso mostra que: 1) o rim ainda não é permanentemente “universal”; e 2) mais estudos são necessários antes desse tipo de órgão ser usado na rotina dos hospitais.

Pesquisadores removem ‘etiquetas’ sanguíneas para criar rim ‘universal’

A descoberta representa um avanço histórico nos transplantes de órgãos. Mas vamos por partes.

Para começar, tem o problema das filas de espera. Atualmente, pacientes com sangue tipo O enfrentam as maiores esperas por um transplante (muitas vezes, de dois a quatro anos mais do que outros). Isso porque eles só podem receber órgãos de pessoas com o mesmo tipo sanguíneo. Como o tipo O é um “doador universal”, rins de pessoas com esse tipo sanguíneo são encaminhados a pessoas de outros tipos com frequência.

Ilustração de enzimas mudando etiquetas de tipo sanguíneo para criar rim universal
Cientistas usaram enzimas que funcionam como tesouras microscópicas, cortando antígenos que identificam o rim como “tipo A” (Imagem: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital)

Agora, vamos às “tesouras moleculares”. Os cientistas utilizaram enzimas especiais que funcionam como tesouras microscópicas. Elas cortaram os açúcares (antígenos) que ficam na superfície das células do rim e que identificam o órgão como “tipo A”. Os pesquisadores comparam o processo a remover a tinta vermelha de um carro para revelar o fundo neutro por baixo. Uma vez que essa “tinta” (o marcador do tipo A) – ou “etiqueta sanguínea”, se preferir – é removida, o sistema imunológico do receptor não reconhece mais o órgão como um invasor.

Pela primeira vez, esse rim modificado foi testado num corpo humano (um receptor com morte cerebral). O órgão funcionou perfeitamente por dois dias sem sofrer a “rejeição hiperaguda”, que é aquele ataque imediato e violento que o corpo faz contra um órgão incompatível.

No terceiro dia do teste, os marcadores do tipo A começaram a reaparecer, o que causou uma reação de defesa do corpo. Mas essa reação foi muito mais leve do que o esperado. E houve sinais de que o corpo estava tentando se adaptar e tolerar o novo órgão.

“É a primeira vez que vemos isso acontecer num modelo humano”, disse o Stephen Withers, professor emérito de química da UBC que co-liderou o desenvolvimento das enzimas. “Isso nos dá informações valiosas sobre como melhorar os resultados de longo prazo.”

Por que isso pode mudar tudo? Atualmente, tentar transplantar órgãos de tipos sanguíneos diferentes é um processo caro, demorado e arriscado, que geralmente exige doadores vivos. Essa nova técnica muda o órgão em vez de tratar o paciente, o que permitiria usar rins de doadores falecidos de forma muito mais rápida e segura. Na prática, isso poderia salvar milhares de vidas.

Essa tecnologia ainda passará por mais estudos e aprovações regulatórias antes de ser usada em hospitais. Mas o sucesso desse primeiro teste é considerado um “momento de sonho” para a ciência médica.

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