A ciência chama de dimorfismo sexual: a característica que diferencia visualmente machos (com juba) e fêmeas (sem juba). Mas essa distinção clássica dos leões não é absoluta. Em casos raros de alterações genéticas, o “rei da selva” pode, na verdade, ser uma rainha.
O mistério de Mmamoriri e o Delta do Okavango
O fenômeno não é lenda, mas sim um fato documentado cientificamente no periódico African Journal of Ecology. Pesquisadores registraram a existência de cinco leoas com desenvolvimento de juba na região do Delta do Okavango, em Botsuana. Embora a maioria dessas fêmeas apresentasse apenas uma juba parcial e clara, uma delas chamou a atenção por desafiar completamente a aparência esperada para a espécie.
A protagonista desse mistério é a leoa conhecida como Mmamoriri. Diferente das outras, ela desenvolveu uma juba escura e completa, visualmente idêntica à de um macho adulto. O estudo observa que ela possuía essa característica marcante e vivia na região, sendo estimada com cerca de 7 a 8 anos de idade na época dos registros fotográficos.
Mas a “masculinização” não parava na aparência. O estudo detalha comportamentos atípicos para fêmeas:
- Rugido de macho: as leoas com juba demonstraram uma atividade vocal elevada. No caso específico de Mmamoriri, foi observado que ela apresentava altos níveis de atividade vocal, similar ao comportamento territorial de machos.
- Comportamento sexual: uma das leoas estudadas (código SaF05) foi vista montando em outras fêmeas do bando em diversas ocasiões, um comportamento sexual tipicamente masculino.
- Marcação de território: As fêmeas “masculinizadas” também marcavam território usando posturas corporais complexas e típicas de leões machos, diferindo das fêmeas comuns que raramente usam esses métodos.
No vídeo abaixo da PBS, você consegue ver essas características:
Acontece fora da África?
Embora as leoas de Botsuana sejam o exemplo mais famoso de “masculinização” genética na natureza, o fenômeno pode acontecer por outros motivos e bem longe da savana africana.
O caso mais recente viralizou em 2022 no Zoológico de Topeka, em Kansas, nos Estados Unidos. A protagonista foi Zuri, uma leoa de 18 anos que começou a desenvolver uma juba visível, descrita pelos tratadores como um “moicano” que evoluiu para uma pelagem mais cheia no pescoço, lembrando a de um leão adolescente.
Diferente das leoas de Okavango, o gatilho de Zuri não foi genético, mas provavelmente social e hormonal. Em entrevista à Popular Science, a curadora Shanna Simpson relatou que a juba começou a crescer pouco tempo após a morte de Avus, o único macho do bando, em outubro de 2020.
No registro abaixo do Zoológico de Topeka, você consegue ver as leoas Zuri (com a juba) e Asante:
O caso de Zuri ilustra uma nuance fascinante da biologia dos felinos. Especialistas consultados pela Popular Science, como Bruce Patterson (do Field Museum de Chicago), explicam que o crescimento da juba é dependente de testosterona. No caso de Zuri, a combinação de sua idade extremamente avançada (18 anos é muito para um leão) com a ausência de um macho dominante pode ter alterado seu equilíbrio hormonal, fazendo com que ela assumisse – literalmente – o papel de “protetora” do grupo.
Infelizmente, Zuri faleceu pouco tempo depois de ficar famosa globalmente, aos 19 anos, mas deixou sua marca como prova de que a biologia nem sempre segue as regras que esperamos.
Leia também:
- Conheça o top 10 dos animais mais rápidos da natureza
- Quais os maiores felinos do mundo?
- 5 animais machos que conseguem engravidar
Elas conseguem ter filhotes?
A resposta curta é: provavelmente não. O estudo conduzido no Delta do Okavango citado anteriormente sugere que o desenvolvimento da juba nessas fêmeas ocorre simultaneamente à infertilidade.
Embora elas tenham sido observadas acasalando com machos – a leoa SaF05, por exemplo, copulou com sete machos diferentes de cinco coalizões distintas ao longo de oito anos –, nenhuma delas engravidou ou foi vista com filhotes. A famosa Mmamoriri também foi monitorada e, apesar de acasalar, nunca apresentou sinais de gestação.
Mesmo sem gerar descendentes, elas não eram “inúteis” para o grupo. O estudo confirmou que elas mantinham seu lugar social no bando, participando ativamente da caça e da patrulha do território ao lado das outras fêmeas. Ao rugir com frequência e marcar território como se fossem machos, elas acabavam reforçando a defesa da área.
O post Por que algumas leoas desenvolvem juba e rugem como machos? apareceu primeiro em Olhar Digital.