Quando um dos maiores investidores do mundo resolve colocar dinheiro em coleiras para gado, vale perguntar: o que ele está enxergando que os outros ainda não viram? Em março, o Founders Fund, fundo de investimentos liderado pelo bilionário Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos primeiros grandes apoiadores do Facebook, liderou uma rodada de US$ 220 milhões (cerca de R$ 1,1 bilhão na cotação atual) na Halter, startup neozelandesa fundada em 2016 pelo engenheiro Craig Piggott.
O aporte fez a empresa atingir uma avaliação de US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões), tornando-se o maior investimento de venture capital já levantado por uma empresa nascida na Nova Zelândia. Para quem olha de fora, parece uma piada. Para quem entende o modelo de negócio, faz todo sentido.
A Halter fabrica coleiras inteligentes para gado bovino. O dispositivo, carregado por energia solar, combina GPS, sensores de movimento, conectividade sem fio e um sistema de inteligência artificial próprio batizado de “cowgorithm”, algo como um algoritmo das vacas, em tradução livre.
E o produto na verdade não é exatamente uma coleira: é uma combinação de IA, internet das coisas, assinatura recorrente e controle remoto de ativos no mundo físico. Pelo aplicativo, o produtor rural desenha cercas virtuais diretamente no celular e, por meio de vibrações e sinais sonoros emitidos pela coleira, os animais são guiados pelo pasto sem qualquer barreira física. Em média, dois a três dias são suficientes para que as vacas aprendam a responder aos comandos.
“Muuuuuuuuuuu”
Cada coleira coleta mais de 6.000 pontos de dados por minuto Runzos, incluindo localização, padrões de comportamento, saúde e ciclo reprodutivo de cada animal. O sistema aprende padrões individuais e usa machine learning para prever e orientar a rotina do rebanho. Isso significa que o fazendeiro consegue saber, pelo celular, se uma vaca está mostrando sinais de doença, se entrou no cio ou se simplesmente está se comportando de forma diferente do habitual.
A solução pode reduzir entre 20 e 40 horas semanais de trabalho nas fazendas, segundo o próprio fundador Craig Piggott. Não é pouco para um setor onde mão de obra é escassa e cara.
A rodada mais recente quase dobrou a avaliação da empresa em relação ao que ela valia em junho de 2025, quando a Halter tinha alcançado a marca de unicórnio com US$ 1 bilhão após uma rodada Série D liderada pela gestora BOND.

O modelo que atraiu Thiel não é difícil de identificar: a Halter cobra em formato SaaS, com mensalidade por animal, garantindo receita recorrente, previsível e escalável, os ingredientes favoritos de qualquer fundo de tecnologia de alto risco.
Craig Piggott, fundador da Halter, afirmou que Thiel pessoalmente acompanhou a rodada de perto. Segundo o empreendedor, a velocidade com que o investidor compreendeu o produto e a indústria foi surpreendente.
O Brasil está no radar
No planejamento estratégico para os próximos três a cinco anos, a Halter pretende entrar em mercados como Reino Unido, Irlanda, Argentina e Brasil. Não é coincidência: o Brasil abriga um dos maiores rebanhos bovinos do planeta e representa uma das maiores oportunidades de expansão para qualquer tecnologia voltada ao agronegócio.
O interesse dos investidores reflete o tamanho do mercado: a agrotecnologia deve movimentar US$ 62 bilhões até 2030, segundo o Diário do Acre. A pecuária é vista como uma das áreas com mais espaço para ganhos de eficiência por meio da digitalização.

Se o Vale do Silício já enxerga valor em automatizar o pastoreio de bovinos na Nova Zelândia, dá para imaginar o que um rebanho do tamanho do brasileiro representa nos planos de quem está colocando bilhões nessa mesa.
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