Primeiro voo orbital de foguete reutilizável revolucionário da China é suspenso

Conforme noticiado pelo Olhar Digital, a China conta atualmente com três foguetes reutilizáveis preparados para tentar um feito histórico: se tornar o primeiro veículo espacial chinês a realizar um voo orbital com pouso do propulsor para reaproveitamento. Esse marco representa um avanço significativo do país no mercado de lançamentos, hoje dominado pela SpaceX, reconhecida pela regularidade de voos e por contratos prioritários com governos e empresas.

Pelas movimentações das últimas semanas, o Zhuque-3, da empresa privada LandSpace, é o que parece mais próximo de inaugurar a era da reutilização orbital chinesa. O lançamento de estreia estava previsto para este fim de semana, mas acabou sendo suspenso sem data prevista.

Em resumo:

  • China investe em foguetes reutilizáveis para enfrentar domínio da SpaceX;
  • Atualmente, três veículos chineses têm condições de ser o primeiro do país a voar e ter o propulsor recuperado;
  • O Zhuque-3 lidera a disputa interna;
  • A primeira tentativa de voo orbital com pouso desse foguete, que seria no sábado (29), foi adiada;
  • Long March 12A e Tianlong-3 também estão posicionados nas plataformas de lançamento;
  • Objetivo da China é reduzir custos, aumentar cadência e competir globalmente.
O primeiro estágio do Zhuque-3, feito de aço inoxidável, antes dos testes estáticos de ignição em junho de 2025. Crédito: Landspace

A SpaceX se tornou referência mundial ao comprovar que foguetes podem ser reaproveitados com segurança. Em 2015, a empresa conseguiu pousar um Falcon 9 com sucesso após um voo orbital. Desde então, acumulou centenas de recuperações e relançamentos, diminuindo custos e aumentando a frequência de missões.

Sem querer ficar para trás, a China vem investindo pesado em tecnologia de foguetes reutilizáveis, pronta para bater de frente com a SpaceX no mercado. Seus três veículos preparados para voos orbitais com retorno do primeiro estágio estão posicionados nas plataformas do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, no noroeste do país, prontos para disputar contratos e espaço no mercado global de lançamentos.

O foguete Zhuque-3 Y1, da LandSpace, no Complexo de Lançamento 96B do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, em outubro de 2025. Crédito: LandSpace

Segundo o site SpaceNews, a empresa LandSpace tentaria o primeiro lançamento orbital do Zhuque-3 com pouso do propulsor neste fim de semana. Embora não haja qualquer comunicado oficial da empresa ou do governo chinês sobre o assunto, alguns veículos de mídia noticiaram que o evento seria no sábado (29), mas foi primeiramente adiado para segunda-feira (1) e depois suspenso sem data prevista.

O CNSpaceflight, perfil especializado em cobertura de missões asiáticas, informou que a campanha de lançamento inaugural foi interrompida por motivos não divulgados. “O atraso parece ser significativo – provavelmente muito mais do que apenas alguns dias”, diz a postagem.

O foguete Zhuque-3 foi posicionado em Jiuquan no fim do mês passado, e testes importantes foram concluídos com sucesso, indicando que a LandSpace segue em primeiro lugar na fila para tentar o feito futuramente.

Foguetes reutilizáveis da China têm tecnologia 100% nacional

Segundo o South China Morning Post, a expectativa é que o primeiro voo orbital do Zhuque-3 realize uma missão completa: com inserção da carga útil em órbita baixa e, em seguida, a recuperação do primeiro estágio para uso futuro. O perfil de retorno inclui uma reentrada controlada com manobras aerodinâmicas guiadas por aletas grid fins (estruturas metálicas em formato de grade usadas para estabilizar e orientar o estágio durante a descida), seguida por uma queima de desaceleração para alinhar a trajetória final e uma queima de pouso utilizando um único motor, culminando no toque em quatro pernas retráteis. 

Embora o procedimento se assemelhe ao método consolidado pela SpaceX, a LandSpace desenvolveu sua própria abordagem: tanto os algoritmos de controle de voo quanto a estrutura do foguete, os materiais, os sistemas de navegação e a propulsão foram projetados internamente, sem reaproveitar a engenharia norte-americana – com o mesmo valendo para os outros dois veículos que estão no páreo em Jiuquan.

Visão aérea do teste de disparo estático dos motores do foguete chinês Zhuque-3, da empresa LandSpace. Crédito: LandSpace/X

O Zhuque-3 teve uma campanha de testes intensa em pouco mais de dois anos. Em setembro de 2024, realizou um voo atmosférico de 10 km com religamento de motor para simular pouso. Fez também ensaios estáticos de motores de 45 segundos, incluindo testes com o segundo estágio acoplado, passos que aumentaram a confiança da LandSpace para avançar à tentativa orbital.

Os outros dois foguetes posicionados em Jiuquan são o Long March 12A, desenvolvido pela Academia de Tecnologia Aeroespacial de Xangai, e o Tianlong-3, da Space Pioneer. Os três foram projetados pensando em missões para constelações de internet e no objetivo estratégico da China de reduzir custos e aumentar a cadência de lançamentos.

O veículo de lançamento Long March 12A, da Academia de Tecnologia Aeroespacial de Xangai, sobre seu transportador no Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan. Crédito: Academia de Tecnologia Aeroespacial de Xangai (SAST)

Dois deles (Zhuque-3 e Long March 12A) planejam tentar pousos no voo inaugural, retornando a cerca de 400 km da plataforma de lançamento, onde bases de aterrissagem foram montadas recentemente. O Tianlong-3 também é reutilizável no desenho, mas não se espera que tente pouso na missão inicial. 

A LandSpace afirmou ter concluído ensaios de abastecimento e um teste completo de ignição em Jiuquan, mas o lançamento do Zhuque-3 já havia sofrido outros adiamentos – o mais recente deles após um incidente com detritos na estação Tiangong. 

As plataformas de pouso do Zhuque-3 e do Long March 12A foram finalizadas nas últimas semanas, incluindo sistemas de segurança e supressão de incêndio para o momento do toque. Se um dos voos for bem-sucedido, será um marco: a China se tornaria o segundo país a pousar com sucesso um propulsor orbital, depois dos EUA, que já realizaram pousos com o Falcon 9 e seus boosters derivados usados no Falcon Heavy, além do New Glenn, da Blue Origin, que estreou este mês.

O foguete Tianlong-3 Y1, da Space Pioneer, posicionado em sua plataforma no Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan. Crédito: Space Pioneer

Diferenças entre os concorrentes chineses

O foguete Zhuque-3 tem 66 metros de altura, 4,5 metros de diâmetro e é construído em aço inoxidável. Seu primeiro estágio usa nove motores Tianque-12A e foi desenhado para ser reutilizado pelo menos 20 vezes. Em configuração reutilizável, pode levar cerca de 18 toneladas à órbita baixa, capacidade compatível com lançamentos de múltiplos pequenos satélites.

O Long March 12A é uma evolução do Long March 12 movido a querosene; a versão 12A usa metano e oxigênio líquidos e foi redesenhada com foco na reutilização, transportando cerca de 12 toneladas para a órbita baixa. O Tianlong-3, também projetado para metano, ocupa posição intermediária em capacidade e perfil de missão, com ênfase em operações comerciais.

A corrida pelo “primeiro pouso” também envolve prestígio dentro da própria China. De um lado, estão as gigantes estatais, que têm influência política e querem ser as primeiras a conseguir o feito. Do outro, estão as empresas privadas, como a LandSpace e a Space Pioneer, que tentam provar sua competência tecnológica para conquistar contratos e se destacar no mercado internacional de lançamentos.

Leia mais:

China pode ter seu próprio megafoguete Starship

Nas redes sociais, os debates ganharam “lenha na fogueira” quando Elon Musk afirmou que, mesmo com um pouso bem-sucedido, a China ainda precisará de “muitos anos” para superar a SpaceX. Segundo ele, a dificuldade não está apenas em recuperar o estágio, mas em repetir o feito dezenas de vezes sem falhas – algo que a SpaceX levou quase uma década para dominar.

A LandSpace também desenvolve um projeto mais ambicioso: o Zhuque-X, um foguete de grande porte que pretende ser comparável ao Starship. Isso significa maior capacidade de carga, estrutura muito mais robusta e motores capazes de entregar enormes níveis de empuxo. O planalto central desse projeto é o novo motor Lanyan-20, que já realizou dezenas de testes de ignição. No entanto, todo o sistema ainda está nas etapas iniciais e deve levar alguns anos até atingir maturidade para um voo orbital.

Com três foguetes prestes a estrear e toda a atenção voltada para Jiuquan, a China mostra que entrou de vez na disputa pela reutilização orbital. Agora, resta apenas a confirmação oficial das datas de lançamento para descobrirmos qual deles abrirá as portas para essa nova etapa e fará o país dar seu primeiro passo para se aproximar do modelo de operação que hoje lidera o mercado.

O post Primeiro voo orbital de foguete reutilizável revolucionário da China é suspenso apareceu primeiro em Olhar Digital.

Related posts

Inteligência artificial, racismo e responsabilidade: o que precisa mudar

Baidu amplia atuação para liderar IA no mercado chinês

MUBI recebe filmes premiados em dezembro! Veja lista de lançamentos