Quem é o autor de um texto encomendado por um humano a uma IA?

A Folha de S.Paulo mantém um ombudsman, termo sueco para ouvidor. Ele avalia internamente a produção do jornal, aponta erros e acolhe queixas dos leitores. No caso da Folha, o ombudsman escreve uma coluna semanal em que frequentemente critica o próprio jornal que o publica. Na coluna do último dia 7, a atual jornalista no cargo, Alexandra Moraes, investigou uma queixa de um leitor que acusa uma colunista de usar IA para redigir textos e assiná-los como autora. Seria uma fraude?

Ainda rindo, interrompi o almoço de domingo para contar à mesa o que li na coluna da Moraes e escrevo agora com o mesmo sorriso no rosto. ‘Escreva sobre isso na sua coluna!‘, me disseram. Venho, então, cumprir a encomenda.

Moraes nos conta que submeteu os textos da colunista acusada a duas ferramentas que identificam se foram escritos por uma IA. Por mais que os robôs tenham aprendido conosco a escrever, os modelos acabaram ganhando maneirismos, vícios, preferências por certos verbetes que humanos contemporâneos às IAs não costumam usar, como o uso de travessão em textos coloquiais. Dessas pistas, os softwares Pangram e Winston usados pela ouvidora apontaram 100% de uso de IA nos textos. O caso parecia ser grave.

Os achados foram compartilhados com a chefia do jornal e a colunista. Se você imaginou que ela negaria ou se retrataria, o relato da ouvidora te frustrará. Natalia Beauty não só confirmou o uso de IA em seus textos como o defendeu ao explicar seu método. Usando o microfone, ela diz em voz alta a uma IA as suas reflexões, os pontos centrais da ideia, elenca argumentos e pede à ferramenta que gere o texto.

Ela arrancou risos meus e conquistou minha admiração pela autenticidade da resposta à ombudsman. Alertou a colunista que aquele e-mail também era um texto redigido por uma IA, pelo mesmo expediente usado para escrever as colunas. Ela não recuou, e sim dobrou a aposta! Quem está certo? O leitor que questiona a pertinência de uma coluna redigida por IA num jornal ou a colunista que defende a IA como mera ferramenta sem prejuízo à sua autoria?

Essas perguntas precisam ser respondidas, pois a Inteligência Artificial está quebrando o modelo de negócios da produção de conteúdo para a Internet. Já conversamos sobre a insustentabilidade do modelo atual nessa coluna quando respondi a você, leitor, quem faria o almoço grátis para a IA. Aqui poremos uma lupa sobre a questão da autoria.

Conta-nos a reportagem de Douglas Ciriaco que “Em 2011, o premiado fotógrafo David Slater visitava um parque nacional na Indonésia quando uma fêmea de um grupo de macacos-pretos se aproximou e, ao interagir com a câmera fotográfica, acabou registrando um autorretrato. Pouco depois, o que parecia apenas uma situação curiosa se tornou um debate sério sobre direitos autorais — afinal a foto foi feita, de fato, pela macaca, não por Slater”.

Autorretrato de Naruto, a macaca que deu origem à disputa. (Fonte: David Slater)

O fato da macaca Naruto ter pressionado o botão da câmera deu a admissibilidade necessária em um tribunal à reclamação da ONG PETA de que o fotógrafo não era o autor da obra. PETA e Slater chegaram a um acordo em que 25% dos royalties das fotos de selfie de macacos seriam doados para os santuários onde vivem.

Minhas colunas aqui não são imaculadas de IA. Quando sinto que preciso fazer uma provocação que te leve a outro texto, uso um prompt para encontrar a URL e fazer um hyperlink, como imaginado por Tim Berners-Lee. Viu? Acabei de fazer isso com o nome dele. Pedi ao Perplexity “Me encontre reportagens sobre Tim Berners-Lee e a criação da WWW publicadas no TecMundo.com.br” porque quero que você se lembre ou se interesse em saber quem ele é e o porquê de eu tê-lo citado aqui.

O outro uso que faço é “Encontre desvios da norma culta da língua portuguesa nesse texto e me sugira correções apresentando justificativas” para receber da IA conselhos que nem sempre acato.

IA como maná para o sofrimento

Assim como a colunista da Folha, não sou jornalista. Eu e ela ganhamos um espaço em um veículo de comunicação porque de fora das redações, nossas vivências podem enriquecer as visões de mundo dos leitores a partir de nossos textos, desde que bem escritos.

A última aula de redação que tive foi num preparatório para o Enem há 20 anos e escrevo aqui hoje com muita dificuldade. Levo de 2 a 7 dias para produzir um único texto, escrevendo e reescrevendo a coluna até chegar ao meu agrado. Cada noite que volto para remexer o texto é como se aplicasse mais uma demão de verniz. Beira o sofrimento.

Compreendo a tentação de colunistas que são empresários, advogados, médicos e sobrancelhistas com suas rotinas extenuantes em pedir a uma IA que faça a coluna da semana que esteja com prazo estourado. Para minha coluna, prefiro um texto atrasado (como este) a um enlatado.

Escolhi para você, leitor, cada palavra dessa coluna. A ordem de cada parágrafo, cada exemplo, o da foto da macaca Naruto e meu almoço interrompido por risos. São escolhas que as IAs ainda são incapazes de fazer e até de mentir que estão fazendo. Que LLM fingindo ser um humano te daria esse subtexto, de que está rindo enquanto escreve? Tenho uma voz (estilo) como autor que é minha, distante da assepsia dos textos gerados pelos robôs. “Não é sobre a obra — é sobre o autor”, teria te dito o cliché do ChatGPT. Eu consigo imitá-lo, mas não consigo vê-lo me imitando ainda.

Se virmos o pedido de meu familiar para que eu escrevesse essa coluna como um prompt, ele deveria ser autor ou coautor dela? Depois de quantas tábuas trocadas o navio deixa de ser o de Teseu? Esse navio-texto é todo meu, todas as tábuas-palavras aqui foram colhidas por mim da floresta de verbetes, talhadas no editor de texto e publicadas no cais do TecMundo. O uso que faço da IA é sim mera ferramenta, como poucos parafusos no casco. Não posso dizer o mesmo da minha colega que apenas pede a IA que faça a ela um navio que flutue.

Não estou sozinho nessa percepção. Ela se manifesta em várias outras circunstâncias, quando avaliamos mal um cantor que usa playback em show ao vivo, quando pagamos mais caro por peças de artesanato do que suas equivalentes industriais, quando o mandante de um assassinato responde por homicídio simples (de 6 até 20 anos de reclusão) e o pistoleiro pelo qualificado (de 12 até 30 anos).

Seja por assinaturas ou por publicidade, o tipo de texto que precisa ser patrocinado é o produzido por humanos. É para nossa produção que hoje falta financiamento. A bolha da IA ainda não estourou e não falta financiamento para que robôs criem obras, muitas de qualidade questionável. Agradeço a você, leitor, pelo apoio ao ler um texto de autoria humana que tem esses banners ao redor como mecenas. Preciso de ti aqui de volta na próxima coluna. Até lá!

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