Recorde em ‘sol artificial’ chinês pode mudar tudo na fusão nuclear

O reator chinês EAST, conhecido como “sol artificial”, superou um dos maiores obstáculos físicos da fusão nuclear ao bater um novo recorde de densidade de plasma. Pesquisadores conseguiram operar o dispositivo num regime inédito, ultrapassando o chamado Limite de Greenwald, barreira que historicamente causa o colapso das reações em reatores do tipo tokamak.

A façanha, detalhada na revista Science Advances, mostra que é possível manter o plasma estável em densidades de 1,3 a 1,65 vezes superiores ao limite convencional. A descoberta abre caminho para reatores comerciais mais eficientes. Isso porque quanto maior a densidade das partículas, maior é a taxa de produção de energia limpa e sustentável.

Estratégia chinesa dribla barreira da fusão nuclear

O segredo para superar o limite histórico foi o uso de uma técnica de aquecimento por micro-ondas combinada com o controle preciso da pressão do gás combustível. Em tokamaks comuns, quando a densidade sobe demais, o plasma esfria nas bordas e gera instabilidades que interrompem o processo abruptamente. No EAST, os cientistas utilizaram o aquecimento por ressonância ciclotrônica de elétrons (ECRH) para estabilizar o sistema desde a partida.

Reator chinês EAST, conhecido como “sol artificial”, superou um dos maiores obstáculos físicos da fusão nuclear (Imagem: Reprodução/Xinhua)

Essa abordagem permitiu que o reator operasse no que os físicos chamam de regime livre de densidade, previsto por uma teoria recente de auto-organização entre o plasma e a parede do reator. Basicamente, a equipe ajustou a forma como as partículas interagem com o revestimento interno de tungstênio do aparelho. Ao reduzir a liberação de impurezas metálicas, o plasma manteve-se limpo e quente o suficiente para não colapsar.

A limpeza do sistema foi um fator determinante para o sucesso dos experimentos realizados na China. Os dados mostram que, ao aumentar a potência do aquecimento inicial, a temperatura perto das bordas caiu de forma controlada, o que evitou a erosão da parede. Esse equilíbrio delicado impediu que o excesso de radiação roubasse a energia necessária para sustentar a reação da fusão nuclear.

O resultado prático foi uma operação contínua e estável, sem os picos de instabilidade que costumam encerrar as descargas de plasma prematuramente. O EAST já detinha recordes de duração, ao manter o plasma a 100 milhões de graus Celsius por mais de 17 minutos. Agora, ao provar que a densidade também pode ser aumentada com segurança, o projeto valida conceitos essenciais para o futuro da energia nuclear.

Novo regime aproxima ciência da ignição comercial

A transição para o regime livre de densidade é considerada um divisor de águas para a viabilidade econômica da fusão nuclear. Em termos simples, se o limite de Greenwald fosse uma barreira intransponível, os futuros reatores precisariam ser gigantescos para gerar energia em escala comercial. Ao romper essa teto, a tecnologia permite que dispositivos menores e mais eficientes alcancem a ignição (ponto onde a reação se torna autossustentável).

Transição para o regime livre de densidade é considerada um divisor de águas para a viabilidade econômica da fusão nuclear (Imagem: Darkfoxelixir/Shutterstock)

A teoria de auto-organização plasma-parede (PWSO), que fundamentou o experimento, sugere que o fenômeno é escalável para outros dispositivos. Isso significa que o aprendizado obtido no “sol artificial” chinês pode ser aplicado em projetos internacionais maiores, como o ITER, atualmente em construção na França. A descoberta transforma uma limitação empírica num desafio técnico agora contornável.

Os pesquisadores destacam que a operação em alta densidade é vital para satisfazer o Critério de Lawson, regra de ouro da fusão nuclear. Para que a fusão seja útil, é preciso combinar temperatura extrema, tempo de confinamento e densidade de partículas. O sucesso no EAST prova que a ciência está encontrando formas de otimizar esses três pilares simultaneamente.

Leia mais:

O próximo passo da equipe co-liderada pelo professor Zhu Ping é aplicar esse método em operações de alto desempenho e confinamento ainda maior. O objetivo é refinar o controle das interações entre o plasma e os materiais metálicos para garantir que o regime estável seja a norma, não a exceção. Com isso, a China consolida sua posição na vanguarda da corrida para criar uma fonte de energia virtualmente inesgotável.

(Essa matéria também usou informações da Academia de Ciências da China.)

O post Recorde em ‘sol artificial’ chinês pode mudar tudo na fusão nuclear apareceu primeiro em Olhar Digital.

Related posts

Ordem de todos os jogos da franquia Fatal Frame

Pensar vira habilidade ainda mais premium na era da IA

Robot Phone: Honor apresenta smartphone com braço robótico