Redes sociais não são “clinicamente viciantes”, diz chefe do Instagram

O presidente do Instagram, Adam Mosseri, afirmou na quarta-feira (11) que as redes sociais não são “clinicamente viciantes” durante depoimento em um julgamento considerado histórico sobre suposta dependência causada por plataformas digitais. Ele foi o primeiro executivo a testemunhar no caso que envolve Meta e YouTube e que integra uma série de ações movidas por adolescentes, escolas e procuradores-gerais estaduais nos Estados Unidos.

No processo, a autora é uma jovem de 20 anos da Califórnia, identificada como K.G.M., ou Kaley, que acusa empresas de tecnologia de desenvolver aplicativos para estimular uso compulsivo, comparável a máquinas caça-níqueis e cigarros. A ação foi aberta em 2023 contra YouTube, TikTok, Snap e Meta, controladora de Instagram e Facebook.

Autora do processo acusa gigantes da tecnologia de desenvolver aplicativos para estimular uso compulsivo (Imagem: Frame Stock Footage / Shutterstock.com)

Mosseri, de 43 anos e à frente do Instagram desde 2018, declarou que a empresa adota protocolos rigorosos de segurança para adolescentes. Segundo ele, embora as redes sociais possam causar algum tipo de dano, isso não significa que provoquem dependência clínica. Ele comparou o uso intenso das plataformas ao apego a uma série de televisão, mas ressaltou que isso é diferente de um quadro médico mais grave.

“Há sempre um equilíbrio entre segurança e liberdade de expressão”, disse Mosseri. “Estamos tentando ser o mais seguros possível e censurar o mínimo possível.”

Acusações contra redes sociais e estratégias de defesa

A defesa das empresas sustenta que não há comprovação científica de que suas plataformas causem dependência. Também cita uma lei federal que as protege de responsabilidade sobre conteúdos publicados por usuários.

Na abertura do julgamento, na segunda-feira, o advogado da autora, Mark Lanier, classificou os aplicativos do Instagram e do YouTube como “cassinos digitais”. Ele mencionou documentos internos da Meta e do Google, dono do YouTube, que comparariam tecnologias das companhias ao setor de jogos de azar e à indústria do tabaco.

A Meta, por sua vez, afirmou que os problemas de saúde mental de K.G.M. decorreram de abusos familiares e instabilidade doméstica, e não do uso de redes sociais. A empresa apresentou prontuários médicos para argumentar que a dependência digital não foi foco central das sessões de terapia da jovem. O YouTube declarou que não é uma rede social e que seus recursos não foram projetados para gerar vício.

Antes do julgamento, K.G.M. fechou acordos com Snap e TikTok, em termos não divulgados. Essas empresas seguem como rés em outras ações semelhantes.

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Filtros de beleza e documentos internos

Durante o depoimento, Lanier questionou Mosseri sobre recursos como filtros de beleza e a rolagem infinita, além de sua remuneração anual em ações. O advogado também mencionou o antigo slogan da Meta, “Move fast and break things” (mova-se rápido e quebre coisas), contrapondo-o às pesquisas internas de segurança da empresa. Mosseri afirmou que hoje adota outro lema: “Slow is smooth, and smooth is fast” (devagar é suave, e suave é rápido).

O advogado apresentou ainda documentos internos de 2019, quando Mosseri e o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, avaliaram reverter a proibição de filtros que simulavam cirurgia plástica. Segundo os registros, outros executivos alertaram que a medida poderia provocar dismorfia corporal em jovens.

Advogado apresentou documentos internos que mostram que Mosseri e Mark Zuckerberg avaliaram reverter a proibição de filtros que simulavam cirurgia plástica (Imagem: FotoField/Shutterstock)

“Seríamos corretamente acusados de colocar crescimento acima da responsabilidade”, escreveu Nick Clegg, então executivo da Meta, a Mosseri. Apesar dos alertas, Mosseri e Zuckerberg decidiram suspender a proibição.

Lanier também mencionou um relatório interno indicando que crianças expostas a adversidades estariam mais vulneráveis a danos associados às redes sociais. Questionado se plataformas como o Instagram deveriam adotar precauções extras nesses casos, Mosseri respondeu: “Nós adotamos. Tentamos identificar todos os diferentes tipos de risco.”

O resultado do julgamento poderá abrir caminho para indenizações significativas em processos semelhantes e eventualmente forçar mudanças no design dos aplicativos, caso a autora obtenha vitória.

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