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Review: Cairn é uma jornada de frustração e contemplação até o topo da montanha

by Fesouza
9 minutes read

Com tantos jogos nos levando em jornadas cheias de ação ou de exploração em mundos abertos enormes nos últimos anos, não é de se espantar que títulos mais calmos e intimistas tenham ganhado um espaço significativo no gosto de tantas pessoas. Embora Cairn não faça parte dos populares “cozy games”, é um jogo que aposta em algo raro hoje em dia: desacelerar o jogador e exigir atenção total para cada ação tomada. 

Desenvolvido pela The Game Bakers, o título nos coloca no papel de Aava, uma alpinista famosa que decide escalar Kami, um montanha de extrema dificuldade, um feito que ainda não foi conquistado por ninguém. Eu tive a oportunidade de conferir o game completo nas últimas semanas e te conto todas as minhas impressões sobre Cairn no nosso review. Confira!

Uma escalada de passos em falso

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Quando se imagina um jogo focado em escalar uma montanha, não dá para negar que a proposta parece bem simples, mas é a sua execução que mostra a complexidade do game. Logo no tutorial, no qual você precisa escalar algumas paredes só para aprender as mecânicas de Cairn, fica bem claro que absolutamente todos os movimentos de Aava durante suas escaladas importam. 

Por si só, isso cria muita tensão, já que na montanha de verdade, um passo em falso pode significar a perda de muito progresso ou até mesmo a morte da nossa protagonista. Até por isso, esse acaba sendo o grande destaque de Cairn.

Diferente de jogos de aventura mais tradicionais, não temos animações ou movimentos automáticos. Então, cada mão, cada pé e cada ajuste de peso precisam ser pensados. O game faz um excelente trabalho ao nos fazer sentir a pressão de estar pendurado em uma parede, avaliando se vale a pena arriscar um movimento ou gastar recursos para se proteger melhor. Tudo isso enquanto Aava está perdendo estamina e ficando com fome, sede e com frio.

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Como dá para imaginar, esses fatores criam uma experiência intensa, mas quase meditativa, onde o erro não é apenas possível, mas esperado, e faz parte do aprendizado. Depois de um tempo, você se acostuma com esses erros, mas não posso negar que algumas seções do game foram bem frustrantes. 

É claro que certas partes foram claramente feitas para oferecer um desafio maior, esse não é o problema. A parte frustrante era que, às vezes, mesmo tendo a plena certeza de que Aava estava se apoiando apenas em partes estáveis e de bom suporte na parede da montanha (há uma opção no game que dá um indicativo visual disso), ela ainda começava a tremer e a perder estamina rapidamente.

Esse é um dos cenários em que ela cai durante a escalada e, se você não tiver um pitão preso na parede, a chance é que além de perder progresso, também acabe morrendo e tenha que voltar do último ponto salvo. Para piorar, eu ainda tinha que aguentar os frequentes gritos de frustração da própria Aava, algo que me fez abaixar e até desligar o áudio do jogo em alguns momentos mais difíceis do game. 

Eu entendo que com a história do jogo, realmente faz sentido ela ficar brava com cada erro que comete em sua jornada, mas não dá para fingir que ouvir isso toda vez que ela caia não se tornou extremamente irritante.

A jornada até o topo

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Falando em história, a narrativa de Cairn é sutil e bem integrada à jogabilidade, o que considerei um ponto muito positivo e que deixou tudo mais natural. Em vez de longas cenas ou diálogos constantes, o jogo segue outra abordagem.

A trama se revela aos poucos através de momentos de reflexões da protagonista, de encontros pontuais com NPCs, no encontro de objetos e cartas deixados por alpinistas que passaram por ali anteriormente e da própria relação da própria Aava com a montanha. Definitivamente é uma experiência mais introspectiva e até abstrata em muitos momentos, que toca em temas como propósitos incompreendidos, solidão e limites pessoais.

Fica claro bem rápido que ao decidir escalar Kami, nossa protagonista sabe que está indo contra o que seus entes queridos gostariam. Ela deixa sua parceira sozinha com o gato doente para enfrentar esse desafio que ninguém mais parece entender. 

Claramente, ela não faz isso pela fama ou patrocínios, já que corta contato com seu agente nos primeiros minutos do game. Essa escalada significa muito mais do que isso para Aava, mas, em certo momento, o jogo pontua algo que pode ecoar muito bem com os próprios jogadores: quem não escala não tem como entender o porquê de fazer isso.

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Eu, por exemplo, nunca escalei nada na vida e não tenho o menor interesse por essa atividade e, como o game disse, realmente não entendo o motivo de Aava deixar tudo para trás, correndo riscos extremos de morte só para chegar no topo de uma montanha. 

Da minha perspectiva, é complicado ver algum mérito nisso, então foi muito difícil de sentir empatia pela protagonista. Esse sentimento acabou sendo transferido quase que totalmente não só para a parceira de Aava, como para os entes queridos de todos os alpinistas que claramente morreram no caminho do topo de Kami.

É claro que essa foi uma experiência pessoal e que pode não se repetir com a maioria dos jogadores, mas é algo que achei interessante enquanto jogava e que parecia interessante de se compartilhar nessa análise. Para esclarecer, não achei isso um ponto negativo. Na verdade, isso só deixou o jogo e a trama mais instigantes.

A beleza ameaçadora das montanhas

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Partindo para a parte visual, eu achei Cairn contido, mas muito expressivo. As paisagens montanhosas ao nosso redor são tão bonitas quanto são ameaçadoras. Quando estamos escalando as suas paredes, é comum sentir um pouco de raiva da Kami, mas quando podemos descansar e olhar ao redor, o sentimento se torna o oposto. 

As cores, a neblina e a iluminação reforçam a sensação de isolamento, uma atmosfera da qual não dá para escapar. A trilha sonora e o som ambiente seguem a mesma linha, sendo discretos, mas muito eficazes em aumentar a imersão e a tensão, especialmente nos momentos mais arriscados da nossa escalada.

Cairn realmente não é um jogo para todo mundo.

O assunto inevitável aqui é que Cairn realmente não é um jogo para todo mundo. O seu  ritmo é lento, a curva de aprendizado é exigente e a falta de explicações mais explícitas pode frustrar jogadores mais casuais. 

Isso vale especialmente para a situação que mencionei mais cedo de que, mesmo quando todos os movimentos são estáveis, ainda há possibilidade de cair e perder tudo o que fez. Além disso, não há recompensas e o jogo exige paciência e concentração constante. 

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Mais para frente, o jogo pode frustrar até mesmo pela falta de alguns recursos que servem para manter Aava viva. Para mim, isso ocorreu exatamente na parte final da escalada, tornando um momento que deveria ser especial e desafiador por si só em uma constante preocupação apenas com a chance de Aava morrer de sede segundos antes de chegar no topo de Kami. Para alguns, isso será cansativo, mas tenho certeza que para outros, será exatamente o que torna a experiência especial.

Felizmente, Cairn oferece muitas opções diferentes para os jogadores que quiserem realizar essa escalada com mais calma e sem tantas preocupações. Além de opções de acessibilidade, você pode desativar o modo sobrevivência (para que Aava não sinta fome, frio ou sede) ou ativar modos que tornem a escalada mais fácil. 

Tudo depende da sua preferência, mas eu recomendo jogar o máximo que conseguir no modo normal para aproveitar esse jogo tão único.

Vale a pena?

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Depois de mais de 13 horas de escalada (e muito mais de jogo no geral, quando consideramos meus fracassos), Cairn se mostrou um jogo especial e muito coerente com sua proposta. Ficou claro, depois de algum tempo, que ele não tenta agradar a todos, mas entrega uma experiência intensa, divertida e bastante original para quem se dispõe a jogar no ritmo que ele propõe. 

O game transforma a escalada em algo quase físico e emocional, mesmo que a gente esteja fazendo isso através de uma tela e com um controle nas mãos. Desta forma, o título consegue nos fazer sentir muitas das emoções que a própria Aava sente durante sua jornada, mesmo que você nem sempre a entenda ou esteja do lado dela na história. 

Cada passo em falso, cada pitão cravado na parede e cada bilhete deixado por quem se tornou um com a montanha te faz sentir mais parte daquele mundo e dessa jornada. No fim, chegando no topo de Kami ou não, Cairn se destaca justamente por confiar no jogador e no silêncio da montanha para contar sua história.

Nota do Voxel: 85

Pontos positivos (prós):

  • Cada movimento precisa ser calculado, criando uma experiência de tensão e imersão rara nos jogos atuais.
  • O sistema manual de escalada transmite a sensação real de estar pendurado em uma montanha.
  • A história se desenvolve de forma orgânica, através de reflexões, objetos encontrados e encontros ocasionais.
  • Paisagens montanhosas belas e ameaçadoras, reforçadas por iluminação, neblina e cores expressivas.

Pontos negativos (contras):

  • Mesmo em apoios estáveis, Aava pode perder estamina e cair sem motivo aparente.
  • Os gritos de frustração da protagonista após cada queda podem se tornar incômodos, especialmente em trechos bem difíceis que já são frustrantes naturalmente ao jogador.
  • Em momentos decisivos, como na escalada final, a falta de recursos básicos (água, por exemplo) pode transformar o desafio em algo cansativo em vez de emocionante.

 Cairn está disponível a partir de hoje, 29 de janeiro, no PC e PS5. Uma cópia foi cedida pela desenvolvedora para a realização desta análise.

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