Crisol: Theater of Idols é um game que vem chamando atenção desde o seu anúncio. O principal motivo é ser o primeiro projeto de games da Blumhouse Productions, famosa produtora de filmes de terror como Atividade Paranormal, Sobrenatural, Corra! e tantos outros.
Nele, você controla uma espécie de seguidor de um deus do Sol, que precisa explorar os mistérios de uma ilha devastada por uma maldição. Para isso, será necessário usar armas de fogo, cujas munições utilizam sua própria energia vital. Mas será que diante de tanta expectativa ele vale a pena? Confira o review completo!
O guerreiro do deus Sol
No game você assume o controle de Gabriel, uma espécie de guerreiro e adorador do deus Sol. Sua missão é ir até a região de Hispania, que foi amaldiçoada pela “entidade rival”: o Culto do Mar. Uma vez lá, é preciso descobrir o que se passa na ilha, e ao mesmo tempo vingar seu ídolo, mesmo que, pelo menos na parte inicial do game, você não faça ideia dos motivos para isso.
Como forma de auxiliar em sua missão, seu deus lhe concede uma série de poderes e habilidades a um custo: dar literalmente seu sangue para isso. Ao longo do texto darei mais detalhes, já que esse elemento é de longe um dos pontos altos do game.
Embora tenha uma cara de clichê, posso dizer que fiquei muito surpreendido com o enredo. Ok, não é um roteiro digno de uma indicação ao Oscar, mas divertido o suficiente para servir como desculpa para o desenrolar do jogo, e ao mesmo tempo ter espaço para algumas revelações chocantes, mesmo que na reta final dê para se ter uma ideia de como será a sua conclusão.
Minha única crítica é para a falta de elementos mais atuais para apresentar esse enredo. Isso porque o jogo utiliza um sistema de imagens, que mais parecem uma apresentação no Power Point evoluída, para explicar elementos chaves da história. Algumas animações cairiam como uma luva, principalmente para criar uma narrativa mais rica.
Muita aventura e folclore, mas pouco terror
Desde que o primeiro vídeo foi revelado, criei uma expectativa por um jogo de terror do mesmo nível de boa parte das obras da Blumhouse Productions, e eu tenho certeza que muita gente também. Porém, depois de concluir o game, posso garantir que não é bem isso que ele entrega.
Para ser mais explícito, a parte inicial do jogo, que pode ser conferida na demo já disponível gratuitamente, é cercada de mistérios. Eles vão desde a revelação dos primeiros inimigos, passando pela chegada à região deserta (e sem muitas explicações), até o primeiro encontro com Dolores, que por sua vez atua no game como uma espécie de Nemesis, de Resident Evil 3.
A partir do primeiro capítulo, boa parte desses elementos vão embora, mais precisamente quando Gabriel descobre que existem outros seguidores do deus Sol dispostos a ajudar. Em seguida, você é apresentado a uma espécie de área de descompressão, onde é possível abrir baús, e até mesmo participar de brincadeiras de parques de diversões, como atirar jatos d’água em alvos e dar um soco com o máximo de força possível.
De volta a campanha principal, o jogo segue praticamente o mesmo roteiro até o final. O principal elemento é solucionar puzzles para abrir portas, ou encontrar itens especiais. Além disso, a todo momento você é perseguido por Dolores, a criatura gigantesca, nas áreas externas dos cenários. Entretanto, é fácil notar a sua presença, seja pelo fato de que ela não para de falar, como também por ser grande demais para se esconder. Em outras palavras, não há praticamente nenhum momento de gameplay com sustos em relação a esse embate.
Ainda sobre as criaturas, há basicamente três ou quatro tipos de inimigos diferentes, o que já seria bem decepcionante. Para piorar, também não há um elemento que faça você temer esses encontros, além de estar com pouco sangue para recarregar suas armas. Ou seja, é difícil encontrar algum elemento que caracterize o jogo como de terror, já que ele rapidamente parte para um game em primeira pessoa como Bioshock ou Wolfenstein, sem tanta trocação de tiros.
Os elementos nostálgicos agradam bastante
Aproveitando a brecha da comparação com Bioshock, me agradou demais os elementos nostálgicos apresentados em Crisol: Theater of Idols. O principal deles é te obrigar a explorar as regiões de cada capítulo, para ir em busca de elementos que irão abrir portas trancadas, ou que farão surgir um novo caminho.
Por exemplo, em todo começo de capítulo você se depara com portas trancadas, pontes levantadas, ou puzzles que precisam de itens para serem solucionados. Cabe a você usar um mapa, ou até mesmo começar a decorar os locais, para saber onde prosseguir ao achar um elemento importante, como uma ferramenta para quebrar correntes ou uma placa para um painel elétrico.
Embora isso fosse comum em jogos de um passado não tão distante, hoje em dia são raros os títulos que optam por essa releitura, já que grande parte deles prefere o foco em tiro, porrada e bomba. Isso sem falar na linearidade, que embora Crisol: Theater of Idols tenha um pouco, ainda assim não é difícil de perder em diversos momentos da exploração.
Use seu sangue com moderação
Não há uma outra frase que explique tão bem o divertido sistema de vida e munição do game. Como dito anteriormente, embora você use armas de fogo, como pistolas, metralhadoras, fuzis, etc, não há balas para recarregá-las. Ao invés disso, é preciso usar o seu sangue para criar as munições, já que esse é uma espécie de preço que o seu deus Sol impôs para ajudar na sua caçada.
E por mais que isso crie uma grande dificuldade no jogo, particularmente achei uma sacada genial. Graças a essa mecânica, você dá um valor maior ao seu armamento, tanto na hora de escolher o que usar contra as criaturas, como também qual o momento certo para fazer tal recarga.
Além disso, você pode contar uma espécie de faca para golpear e contra golpear seus inimigos. Mas além de ter uma baixa efetividade, a forma com que eles te atacam, quase sempre dando uma investida à média distância, faz com que o acessório seja usado apenas para se defender.
Entretanto, fiquei decepcionado com o sistema de habilidade do game. Além de ser bem limitado, com pouquíssimas opções, na prática eles são muito eficazes. Como por exemplo a que diz respeito a apenas 12% de chances de uma bala se recompor depois de atingir um inimigo. Na prática, a sensação é de que é possível terminar o jogo facilmente sem precisar adquirir nenhuma delas.
Para completar, vale destacar também o quanto o jogo é curto. Embora na primeira vez seja quase impossível terminá-lo em menos de 10 horas, depois é possível concluí-lo em até 3 horas, já que há um troféu / conquista para quem realizar o feito. Porém, não há qualquer elemento que sirva como incentivo para jogar tudo de novo, além de itens colecionáveis, que por sua vez também não são complexos de serem encontrados.
Outro ponto que volta com força no game é procurar itens que curam a sua energia. Ao contrário dos jogos atuais, onde é preciso simplesmente esperar até que seu personagem se recomponha sozinho, em Crisol: Theater of Idols você precisa ficar indo atrás de elementos para recuperar vida, como seringas ou animais mortos. Coisas simples, mas que juntas me fizeram sentir o gostinho da Era de Ouro dos FPS dos anos 90 e 2000.
Visual agrada, mas excesso de “CTRL+C e CTRL+V” irrita
Crisol: Theater of Idols pode ser considerado um game bonito. Para a produção do review, o jogo foi reproduzido em um PC com a seguinte configuração:
- Placa de Vídeo: GeForce 4090
- Processador: Intel i7 14700k
- Memória RAM: 32GB Kingston Fury Renegade
Com isso, pude jogar o game com todas as opções gráficas no máximo. Entretanto, vale ressaltar muitos engasgos em uma ambientação com efeitos de chamas, o que me chamou atenção de uma forma negativa.
Ainda sobre a ambientação do jogo, ela cria uma atmosfera sombria, uma vez que ele se passa sempre a noite. E nos locais com pouca iluminação, há uma lanterna para ajudar no percurso. Já os personagens, tanto seus aliados como seus inimigos, possuem um nível de detalhamento a ser elogiado.
E mais uma vez faço uma comparação com Bioshock, já que até o comportamento deles lembra bastante o que foi apresentado no último jogo da franquia: Infinite. Dolores, que é a sua grande dor de cabeça ao longo da jornada, também merece elogios pela forma com que aparece no jogo, seja nas primeiras versões, como em “evoluções” posteriores.
Mas nem tudo são flores, e o jogo peca muito em abusar da repetição de elementos em sua construção. A começar pelos inimigos muito pouco variados, tanto em fisionomia como no tipo de criaturas. Para ser mais exato, além das estátuas que ganham vida, e que devem ter umas cinco variantes no máximo, você encontrará apenas gárgulas rastejantes, bebês voadores, e uma criatura que se duplica e é preciso acertar a forma real.
Se não bastasse, há também elementos do cenário que abusam dessa repetição. O que mais me chamou atenção foi uma carroça com estátuas dispensadas, onde uma delas possui três flechas no corpo. Me arrisco a dizer que me deparei com esse mesmíssimo elemento cerca de 10 vezes. Fora alguns móveis, mesas, e outros detalhes idênticos que podem ser notados com facilidade. Faltou capricho!
Vale a pena?
Para quem busca um FPS fora da caixinha, com elementos nostálgicos, desafiador, e com poucas horas de duração, Crisol: Theater of Idols é uma excelente pedida. O sistema de uso de energia para recompor sua munição caiu como uma luva, tornando o jogo estratégico e elevando seu nível de dificuldade. Uma excelente porta de entrada da Blumhouse no mundo dos jogos.
Entretanto, se você busca um jogo de terror de tirar o seu sono, sinto dizer que seus vídeos de divulgação são mais assustadores. Isso porque não há um clima de tensão, já que o foco maior fica na exploração de cenários e resolução de puzzles. Pelo menos ele conta com uma história interessante de ser acompanhada. Mesmo assim, é o típico game que vale a pena ser adquirido em uma promoção, ou torcer para que ele fique grátis em algum serviço de assinatura.
Nota do Voxel: 80
Pontos positivos (Prós):
- Sistema de uso de energia como munição é inovador e estratégico;
- História com reviravoltas interessantes;
- Elementos nostálgicos que remetem aos antigos FPS;
- Divertido do início ao fim.
Pontos negativos (Contras):
- Pouquíssima variedade de inimigos;
- Curta duração;
- Sem o horror prometido.
Crisol: Theater of Idols está disponível para jogar no PC, PS5 e Xbox Series S e X. Uma cópia do game foi cedida para a realização da análise no computador.