Em meio a debates acalorados sobre o uso de inteligência artificial nos videogames, Romeo is a Dead Man, novo projeto do diretor de Killer7 e da franquia No More Heroes, é a prova de que os trabalhos concebidos com o auxílio de IA e algoritmos de aprendizado nunca serão comparáveis à criatividade humana. Apoie você ou não o uso desse tipo de tecnologia, a IA jamais seria capaz de dar vida a um jogo tão autêntico como Romeo.
Desenvolvido e também distribuído de maneira independente pela Grasshopper Manufacture, Romeo is a Dead Man parece ter sido o trabalho que Goichi Suda, mais conhecido como Suda51, sempre quis fazer. É um game que extrapola os limites da bizarrice e nos faz questionar como o produtor chegou à execução de ideias tão absurdas que, no fim, acabam se mostrando geniais quando amarradas.
Da narrativa carregada de hipérboles à estética retrofuturista que mistura o gore de filmes B com De Volta para o Futuro, o jogo simula uma viagem alucinógena (e perturbadora) que percorre os mais variados gêneros dos videogames. Hack and slash, terror e quebra-cabeças interdimensionais se combinam em um coquetel psicoativo autoral e viciante, feito para desafiar qualquer tentativa de rotulação.
O morto que ainda vive
Tudo começa quando Romeo Stargazer, um delegado adjunto, sofre um acidente brutal durante uma patrulha na pacata cidade de Deadford, na Pensilvânia. Com a ajuda de uma hipertecnologia criada por seu avô, o excêntrico cientista Benjamin, o herói se mantém vivo (ou algo próximo disso), no limiar entre a vida e a morte, renascendo como Dead Man.

Romeo, agora um homem morto que ainda vive, nas palavras do próprio Benjamin, é nomeado cadete da Polícia do Espaço-Tempo do FBI, cuja missão é eliminar criminosos que estão distorcendo as quatro dimensões e, assim, corrigir os distúrbios no tecido do universo. Viajar no tempo, portanto, é o que você mais faz aqui.
Em paralelo à trama investigativa, Romeo pretende reaver seu amor por Juliet, desaparecida logo após o nosso herói ser brutalmente atacado e perder a vida. Suas jornadas no espaço, então, também servem para garimpar pistas sobre o paradeiro da namorada. Acredito que isso é tudo o que posso revelar sem entrar em spoilers.
Absolute cinema
A forma como a história se desenvolve tem o DNA puro de Suda51, mas também traz influências claras de outras mídias, sobretudo do cinema e dos quadrinhos. Tudo permeado por uma excentricidade que nos remete às “kojimices” da mente por trás de Death Stranding e Metal Gear. Há momentos de “absolute cinema”, ainda que, em boa parte do tempo, você se sinta como o Gohan no meme: sorrindo, mas sem entender absolutamente nada.

A forte inspiração em obras cinematográficas é tão evidente que há mais diálogos do que o habitual para um jogo do Suda, e a linearidade favorece essa condução mais centrada. Inclusive, a trama é dividida em capítulos, cada qual com sua própria premissa, tal como em uma temporada de série, isto é, com começo, meio e fim bem definidos.
Para ser justo, a narrativa em si nem é o forte, até porque muitas das mensagens subliminares passam despercebidas enquanto a porrada está comendo solta. O verdadeiro destaque é a versatilidade de Suda em mudar o tom dos arcos, de uma aventura espacial a um thriller, sem descaracterizar os personagens, criando situações sempre visualmente marcantes e esdrúxulas, ditadas por um humor niilista muito particular.
Sabor hack and slash
De forma bem resumida, o ciclo de gameplay consiste em aceitar uma missão na nave do FBI e viajar por fendas interdimensionais, na intenção de pousar em momentos específicos do passado, digamos, real do nosso planeta. No decorrer do trajeto, você pode se deparar com masmorras à deriva nos vãos do espaço-tempo, que nada mais são do que fases que mudam a cada visita, ideais para farmar itens de upgrades.
Diferentemente de seu irmão mais novo, No More Heroes 3, Romeo is a Dead Man é um jogo mais contido em escopo e, por consequência, não tem um mundo aberto ou um mapa sandbox para ser explorado. Conforme mencionado acima, o game se apoia em uma estrutura linear, segmentada em fases, para entregar uma experiência mais próxima de um filme, sem perder a essência do combate.

O combate, aliás, é a força motriz de tudo, seguindo a cartilha de produção dos demais trabalhos do diretor japonês. Trata-se de um hack and slash na veia de Lollipop Chainsaw e do próprio No More Heroes, com ritmo um pouco mais cadenciado que o de um Bayonetta e Devil May Cry, embora frenético à sua maneira.
Combos são emendados a partir da combinação de dois botões, ataques forte e fraco, e o que define a cadência dos embates é o conjunto de armas: uma para golpes corpo a corpo e outra para disparos de longa distância. Você pode recorrer a uma katana cibernética se quiser fatiar os inimigos com mais agilidade, caso seja do time dos impacientes, ou amassá-los como papel com uma espada gigante de metal, entre outras opções.
A carta na manga é poder usar uma habilidade especial, aqui chamada de Verão Sangrento, para restaurar parcialmente o medidor de vida de Romeo quando ativada. Apesar de o combate ser funcional e variado, a depender do tipo de equipamento utilizado, certas ações nem sempre respondem instantaneamente aos comandos do jogador, sabe-se lá o motivo, especialmente na hora de executar a skill.
Já a câmera é destrambelhada e herda os mesmos problemas de enquadramento de No More Heroes, como a proximidade desnecessária em relação ao personagem e o redirecionamento automático. Por ser um jogo no qual zumbis e outras criaturas atacam em bando dentro de zonas fechadas, mapear as investidas inimigas se torna praticamente impossível em certos momentos, o que pode gerar frustrações nas dificuldades mais altas.
Por fim, como mais um ponto de crítica, o layout dos mapas pode ser excessivamente confuso. Mesmo se tratando de corredores e pequenas arenas, a exploração entre diferentes dimensões, ou seja, entre espaço real e subespaço, vira um teste de paciência. Com o tempo, essa dinâmica de ir e vir, no bom português, só enche o saco em razão de uma complexidade artificial, projetada apenas para prolongar e dificultar gratuitamente a travessia.
Munido de maluquices
Ainda que não traga nada de novo à mesa no que diz respeito à fórmula de aventura, Romeo is a Dead Man busca autenticidade em sua composição. Das telas de carregamento sarcásticas ao hub da nave em 2D, é nítido o empenho dos desenvolvedores em querer criar um produto 110% autoral, que dedica atenção especial aos mínimos detalhes.

O seletor de dificuldade, por exemplo, é uma caixa de chocolates, com cada nível representado por um tipo diferente de doce. Os atributos do personagem, por sua vez, são aprimorados por meio de um joguinho de fliperama à la Pac-Man, enquanto potencializadores são aplicados a partir de um minigame de cozinhar karê.
Pontos de salvamento se materializam como uma espécie de farmácia psicodélica, levando a um menu que parece ter saído de algum game dos anos 1980. Há ainda um sistema de fazendinha em que podemos cultivar uma horta de zumbis (não, você não leu errado). Uma vez colhidas, as criaturas podem ser equipadas como habilidades, o tipo de maluquice que só poderia ter saído da cachola do mestre Suda.
Vale a pena?
Romeo is a Dead Man, desenvolvido e publicado pelo estúdio de Suda51, mostra que a criatividade não nasce de amarras, e o diretor, mais do que nunca, agora faz o que quer. Mesmo reaproveitando um molde de jogo que infelizmente caiu em desuso, o título imprime sua marca em todos os sistemas e elementos visuais que o compõem, sendo a experiência de ação em terceira pessoa mais despirocada dos últimos tempos.
Nota: 80
Pontos positivos (Prós):
- História que mistura o gore de filmes B com De Volta para o Futuro;
- Sistemas que extrapolam os limites da bizarrice;
- Representação visual marcante e autoral;
- Combate funcional e satisfatório;
- Textos em português.
Pontos negativos (Contras):
- Idas e vindas entre dimensões que acabam enchendo o saco;
- Câmera problemática.
Uma cópia de Romeo is a Dead Man foi gentilmente cedida pela Grasshopper Manufacture para o propósito de análise no PS5 Pro. O jogo está disponível para Xbox Series S|X, PS5 e PC.
