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“Toda época cheia, chega mais rejeito”: desastre de Mariana continua após 10 anos, indica estudo

by Fesouza
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Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), o desastre continua presente na realidade de quem vive no estuário do rio Doce, em Linhares (ES). Um estudo conduzido por cientistas da USP, da Ufes e da Universidade de Santiago de Compostela avaliou solos atingidos pelos rejeitos de mineração e investigou o que acontece quando alimentos cultivados nessas áreas — banana, mandioca e cacau — entram na cadeia alimentar. Em entrevista exclusiva ao Olhar Digital, a engenheira agrônoma Amanda Duim, que fez o estudo como parte de seu doutorado, explicou os resultados da pesquisa e as consequências para a região.

O artigo publicado na Environmental Geochemistry and Health encontrou, nos solos do estuário, concentrações de elementos potencialmente tóxicos como cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo, associados ao principal componente do rejeito: óxidos de ferro. Esse “pacote” químico não fica parado. Em ambientes alagados, como é o caso da zona estuarina, a dinâmica do solo facilita a transferência desses elementos: eles podem sair do sedimento para a água e, dali, serem absorvidos pelas plantas.

O trabalho chama atenção porque não ficou apenas em medir contaminantes: correlacionou a presença desses elementos no solo com a passagem para as plantas e, a partir disso, estimou risco à saúde humana considerando padrões de consumo e tempo de exposição.

Nosso trabalho é bem específico para a região do estuário do Rio Doce. Por que isso é muito importante para a região? Porque a gente está falando ali na região estuarina de solos alagados e esses solos serem alagados é que aumenta para plantas

Amanda Duim

As amostras vieram de áreas pequenas, de agricultura de subsistência, cedidas por moradores. A motivação do recorte surgiu no campo, quando a equipe, inicialmente focada em plantas para remediação, foi confrontada por uma pergunta direta de quem vive ali: se existe planta que “puxa metal” para limpar o solo, então a comida plantada em casa também pode estar acumulando? “A gente viu que as pessoas estavam utilizando essas áreas… plantações de subsistência… porque eles queriam saber se as plantas que eles estavam cultivando estavam contaminadas ou não”, relata.

“Toda época cheia, chega mais rejeito”: desastre de Mariana continua após 10 anos, indica estudo
Barragem de Mariana (Imagem:Leonardo Mercon/Shutterstock)

O que os alimentos “guardam”?

Os pesquisadores analisaram separadamente raízes, caule, folhas e frutos (sem casca) para rastrear onde os elementos se acumulavam.

  • Banana e mandioca: quase todos os elementos (exceto o cromo) se concentraram mais nas partes subterrâneas — raízes e tubérculos — do que nas partes aéreas.
  • Cacau: apresentou alto acúmulo acima do solo (caule, folhas e frutos). No caso do fruto, as concentrações de cobre e chumbo na polpa ultrapassaram valores-limite citados pela equipe com base em referências da FAO.

Quando perceberam que parte da contaminação chegava às porções comestíveis, os autores avançaram para a etapa decisiva: a análise de risco pelo consumo.

“Toda época cheia, chega mais rejeito”: desastre de Mariana continua após 10 anos, indica estudo
Grupo de pesquisa alerta que o consumo contínuo de alimentos cultivados em solos contaminados pode significar risco carcinogênico pela acumulação a longo prazo no organismo de elementos potencialmente tóxicos (montagem de imagens de Pixabay e Wikimedia Commons)

O alerta mais sensível: crianças e banana

A equipe estimou risco para adultos e crianças (menores de 6 anos) usando indicadores como Quociente de Risco e Índice de Risco Total — métricas que, de forma simplificada, comparam a exposição estimada com limites considerados seguros. O resultado central foi desigual:

  • Para adultos, os índices ficaram majoritariamente abaixo do limiar de preocupação.
  • Para crianças, o consumo de banana cultivada nas áreas avaliadas ultrapassou o limiar, indicando potencial risco.

Na entrevista, a pesquisadora explica que a diferença aparece porque a conta é ajustada por fatores como massa corporal e tempo de exposição. E detalha o tamanho do sinal amarelo encontrado: “para crianças, esse risco ficou igual a três na média e, em alguns pontos, chega a ser doze”, diz, ao comentar o índice total de risco calculado para o grupo mais jovem. Segundo ela, “o principal elemento que causou esse risco aumentado para crianças foi o chumbo”.

O estudo reforça por que isso importa: a exposição ao chumbo, mesmo em doses baixas e por tempo prolongado, está associada a impactos no desenvolvimento neurológico — um risco que pesa mais justamente na infância.

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Por que o estuário vira um “ponto crítico”?

A pesquisa é específica do estuário do rio Doce, e a própria autora evita generalizações. “Nosso trabalho é bem específico para a região do estuário do Rio Doce… a gente está falando ali na região estuarina de solos alagados. E esses solos serem alagados é que aumentam o risco de transferência para plantas”, diz.

Isso é uma consequência importante do desastre de Mariana “anos depois”: o rejeito não é apenas um evento do passado, mas um material que entrou numa paisagem dinâmica — com maré, cheias, sedimentos — e passa a integrar processos naturais que podem redistribuir contaminantes e mantê-los circulando.

“Toda época cheia, chega mais rejeito”: desastre de Mariana continua após 10 anos, indica estudo
Lama arrastada pelo desastre de Mariana (Imagem:Leonardo Mercon/Shutterstock)

Mesmo 10 anos depois, a contaminação aumenta

Mesmo com estudos e propostas de remediação, a herança do rompimento aparece como um problema de continuidade. Na conversa, a pesquisadora descreve um obstáculo central para recuperar o solo: “Toda época cheia, chega mais rejeito… esse rejeito tem se misturado com os sedimentos da bacia… a cada estação cheia chega mais sedimento, esse sedimento misturado com rejeito no estuário”.

Em outras palavras: não se trata apenas de limpar o que caiu em 2015, mas de lidar com um sistema onde o material deslocado pelo desastre segue se movimentando e se depositando em áreas sensíveis, o que dificulta ações de longo prazo e amplia a necessidade de monitoramento contínuo — especialmente quando há produção local de alimentos.

Resultado não é sentença

Os autores fazem um ponto importante, também reforçado na entrevista: o índice “não é sentença”, é alerta. “Não é se pode ou não pode comer, mas precisa de um acompanhamento mais detalhado e de outras culturas também”, resume a pesquisadora.

Isso aponta para uma consequência prática do desastre, ainda hoje: sem acompanhamento, comunidades podem permanecer expostas a riscos cumulativos, sobretudo em grupos vulneráveis, mesmo quando a ameaça não é uniforme para todos ou para todos os alimentos.

No estuário do rio Doce, o recado do estudo é direto: o desastre de Mariana continua produzindo efeitos mensuráveis na paisagem e, potencialmente, na saúde, não apenas por aquilo que ficou depositado, mas pela forma como o estuário “trabalha” esse material ao longo dos anos, levando-o do solo à água e, daí, às plantas que chegam à mesa.

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